O diabetes melito (DM) e a insuficiência venosa crônica (IVC) representam desafios de saúde pública, tanto por sua alta prevalência quanto pelas complexas interações fisiopatológicas que compartilham. O primeiro, caracterizado por uma disfunção crônica no metabolismo da glicose devido a falhas na produção ou ação da insulina, está associado a graves complicações sistêmicas, como nefropatias, neuropatias e doenças cardiovasculares.
Simultaneamente, a IVC manifesta-se pela incapacidade funcional das veias em promover o retorno venoso adequado dos membros inferiores, resultando em um espectro clínico que varia de edema e dor até o desenvolvimento de úlceras venosas em estágios avançados. A sua etiologia é multifatorial, envolvendo fatores de risco como obesidade, idade avançada e imobilidade prolongada.
Apesar de ambas as condições serem rotineiras na prática clínica, existe uma lacuna significativa na literatura científica quanto à associação direta entre DM e IVC. Poucos estudos exploraram de forma comparativa como essas patologias coexistem ou como seus efeitos combinados podem agravar as disfunções do sistema circulatório. Diante disso, Castro e colaboradores (2025) realizaram uma revisão sistemática para investigar a incidência de IVC em pacientes diabéticos e elucidar as possíveis interações patológicas que contribuem para o desenvolvimento e o agravamento dessas condições.
Para isso, os autores estruturaram a revisão seguindo as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Eles incluíram adultos com mais de 18 anos, com diagnóstico de DM e os compararam com pacientes não diabéticos. O desfecho foi focado na progressão para IVC. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, EMBASE e LILACS, utilizando descritores específicos como "Diabetes Mellitus", "complications" e "Chronic venous insufficiency", cujas divergências de seleção foram resolvidas por um terceiro avaliador. Os dados extraídos foram processados no software STATA 18.0, empregando modelos de efeitos aleatórios para determinar as razões de chances e as proporções de ocorrência de IVC, sempre com intervalos de confiança de 95%.
Foram identificados 1.183 artigos, dos quais, foram selecionados quatro estudos para compor a análise final. A análise conjunta dos dados revelou que a ocorrência de IVC em pacientes diabéticos foi de 56%, um valor significativamente superior aos índices encontrados na população geral (7% a 9%) ou em indivíduos sintomáticos não diabéticos (15,8%).
Os resultados apresentaram variações significativas conforme a medida de efeito adotada: quando utilizada a razão de prevalência, observou-se uma associação positiva e estatisticamente significativa entre as patologias, com valor de 1,51 (IC95% 1,01-2,26). Contudo, ao aplicar a razão de chances (odds ratio), a associação não atingiu significância estatística, apresentando um valor de 1,29 (IC95% 0,93-5,61).
No âmbito clínico-diagnóstico, os pesquisadores enfatizaram a importância da classificação clínico-etiológico-anatomopatológica (CEAP), destacando que a confirmação diagnóstica pelo cirurgião vascular exige sinais clínicos evidentes de varicosidade. Eles sugeriram que o DM pode exacerbar a gravidade da IVC, pois a hiperglicemia prolongada promove danos microvasculares, inflamação e alterações estruturais nas paredes venosas. Além disso, os resultados indicaram que a intersecção do DM com outros fatores de risco cardiovasculares, como idade avançada, tabagismo, sedentarismo, obesidade e hipertensão arterial, foi diretamente relacionada a uma maior ocorrência e ao agravamento da IVC.
Em conclusão, a ocorrência de IVC em pacientes com DM clinicamente relevante, atingindo uma taxa de 56% e apresentando uma razão de prevalência de 1,51 em favor do desenvolvimento da doença venosa nesses indivíduos. No entanto, devido às disparidades metodológicas entre os estudos disponíveis e à escassez de dados longitudinais, ainda não é possível estabelecer uma relação causal direta ou afirmar que o DM atua como um fator de risco independente para a IVC. Dessa forma, ressalta-se a necessidade imperativa de novos estudos de coorte prospectivos, com amostras robustas e critérios diagnósticos padronizados, para elucidar definitivamente a interação fisiopatológica entre essas condições e orientar o manejo clínico adequado.