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Publicado el 2 de julio de 2026

Autismo pediátrico

Prevalência de distúrbios gastrointestinais, de sono e ansiedade em pacientes com autismo

Carroll, Roberto e Estrem (2026) demonstraram que crianças autistas tiveram probabilidades significativamente maiores de apresentar distúrbios gastrointestinais, alimentares, de sono e de ansiedade, com esses riscos sendo exacerbados por determinantes sociais como pobreza e insegurança alimentar.

Autor/a: Carroll R, Braswell AA, Roberto A, Estrem H, Prentice CR.

Fuente: Journal of Pediatric Health Care, 2026 Examining Gastrointestinal, Feeding, Sleep, and AnxietyRelated Disorders Among Autistic Pediatric Patients

A conexão entre o transtorno do espectro autista (TEA) pediátrico e diversas comorbidades de saúde é amplamente documentada na literatura científica. Atualmente, a TEA afeta uma em cada 31 crianças nos Estados Unidos, com uma prevalência três vezes maior em meninos, e estudos indicaram que cerca de 74% dos indivíduos com autismo possuem pelo menos uma comorbidade diagnosticada. No entanto, a obtenção de resultados de saúde ideais é dificultada por disparidades raciais e étnicas, determinantes sociais de saúde iníquos, desafios no diagnóstico diferencial de condições coexistentes e barreiras no acesso a serviços de saúde especializados.

O diagnóstico preciso e o tratamento dessas comorbidades são considerados críticos, uma vez que tais condições podem exacerbar ou até simular comportamentos frequentemente atribuídos ao TEA, como irritabilidade, agitação e inquietação. Como muitas das comorbidades são tratáveis, o reconhecimento e o manejo precoces impactam positivamente a qualidade de vida do paciente e de sua família. Embora pesquisas anteriores tenham estabelecido riscos elevados para problemas de alimentação, sono e saúde mental de forma isolada, Carroll, Roberto e Estrem (2026) analisaram as comorbidades simultaneamente em uma amostra pediátrica ampla e diversificada, utilizando a codificação CID-9/10 para capturar um espectro diagnóstico mais abrangente. O objetivo foi demonstrar a prevalência de distúrbios gastrointestinais, alimentares, de sono e de ansiedade entre crianças autistas após o ajuste para fatores sociais e ambientais.

Para isso, eles realizaram uma revisão retrospectiva quantitativa de registros médicos. Inicialmente, os pesquisadores realizaram uma análise de frequência para identificar os 30 códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID) mais comuns associados ao diagnóstico de autismo na base de dados, confirmando que as quatro categorias de comorbidades escolhidas possuíam relevância estatística para uma investigação aprofundada. Os dados foram extraídos de um sistema de informações de saúde no sudeste da Carolina do Norte, que detém registros de mais de 3 milhões de pacientes. A amostra final foi delimitada a 222.214 crianças e adolescentes (entre 2 e 21 anos) atendidos entre 2019 e 2021, dos quais 1.793 foram identificados como autistas.

Para a construção das variáveis do estudo, foram utilizados códigos CID-9 e CID-10 específicos para categorizar tanto o diagnóstico de autismo quanto as condições clínicas sob análise. Além dos dados demográficos individuais, como sexo e raça, o estudo incorporou variáveis de controle referentes a determinantes sociais e ambientais de saúde. Esses incluíram o percentual de pobreza, um índice de insegurança alimentar, o risco de exposição a tintas à base de chumbo (baseado na idade das habitações) e o Índice de Vulnerabilidade Social do CDC. A análise estatística foi conduzida no software R, empregando testes de qui-quadrado e testes t para avaliações pareadas iniciais, seguidos por modelos de regressão logística múltipla para cada uma das quatro variáveis dependentes. Foi utilizado o Critério de Informação de Akaike (AIC) para a seleção sistemática de variáveis, garantindo que os modelos finais ajustassem adequadamente os indicadores contextuais mais relevantes para cada desfecho de saúde.

Os resultados do estudo confirmaram que crianças e adolescentes autistas apresentaram uma probabilidade significativamente maior de comorbidades gastrointestinais, alimentares, de sono e de ansiedade em comparação aos seus pares não autistas. Em uma análise preliminar das trintas condições mais frequentes, destacaram-se diagnósticos como constipação (especificada e não especificada), doença do refluxo gastroesofágico, dificuldades alimentares, transtorno de ansiedade não especificado e apneia obstrutiva do sono. Além dessas, a terapia medicamentosa de longo prazo figurou como o código de diagnóstico mais prevalente entre a população autista no estudo.

A análise estratificada por idade revelou padrões distintos para cada tipo de comorbidade. Os problemas gastrointestinais mantiveram-se elevados de forma consistente em todas as faixas etárias dos jovens autistas, enquanto as dificuldades alimentares e os distúrbios do sono apresentaram maior prevalência em crianças mais jovens, com uma tendência de declínio gradual com o aumento da idade. Em contraste, os transtornos de ansiedade mostraram um padrão ascendente, tornando-se mais prevalentes à medida que os pacientes atingiram a adolescência e o início da idade adulta.

Em relação às variáveis demográficas e aos modelos de regressão logística, o estudo identificou que o sexo e a raça influenciaram a distribuição das comorbidades. Taxas mais altas de distúrbios alimentares e do sono foram observadas em meninos autistas de grupos etários mais jovens, ao passo que distúrbios gastrointestinais e de ansiedade foram mais frequentes em pacientes do sexo feminino e em adolescentes mais velhos. O status de autismo permaneceu como o preditor mais consistente de todas as quatro categorias de desfechos de saúde em todos os modelos estatísticos.

Por fim, os resultados evidenciaram o impacto dos determinantes sociais e ambientais de saúde. Foi observada uma associação positiva e estatisticamente significativa entre a privação ambiental, caracterizada por maiores índices de pobreza, insegurança alimentar e potencial exposição a tintas à base de chumbo nas residências, e a presença das comorbidades estudadas. Esses achados indicaram que pacientes autistas que viviam em condições de maior vulnerabilidade social sofreram uma carga ainda mais elevada de problemas físicos e mentais concomitantes.

Em conclusão, Carroll, Roberto e Estrem (2026) enfatizaram que crianças e adolescentes autistas apresentam uma vulnerabilidade significativamente maior a comorbidades gastrointestinais, alimentares, de sono e de ansiedade em comparação a seus pares não autistas, independentemente de fatores sociais, embora a privação ambiental exacerbasse esses quadros. Diante desses achados, ressaltou-se a necessidade crítica de uma abordagem clínica holística e multidisciplinar que priorize a triagem sistemática de sintomas e o uso de diagnósticos específicos em vez de termos genéricos, visando intervenções precoces que melhorem a qualidade de vida do paciente e de sua família. Além disso, os autores alertaram para os riscos da polifarmácia e defenderam a integração de estratégias não farmacológicas baseadas em evidências e o monitoramento dos determinantes sociais de saúde como pilares para mitigar o impacto dessas condições interconectadas e prevenir o agravamento de quadros metabólicos e psiquiátricos. Por fim, a pesquisa destacou que a replicação de estudos de larga escala e a investigação contínua sobre o eixo cérebro-intestino são fundamentais para o refinamento das diretrizes clínicas e a promoção de sistemas de saúde mais resilientes e eficazes para a população autista.