| Introdução |
O comportamento sedentário é cada vez mais reconhecido como um fator de risco modificável no envelhecimento, especialmente em relação ao declínio cognitivo e à doença de Alzheimer (DA). Os mecanismos fisiológicos por trás de seus efeitos prejudiciais não são totalmente compreendidos. O tempo sedentário prolongado pode contribuir para a disfunção vascular cerebral e sistêmica, o aumento da inflamação e a redução da plasticidade sináptica. Modelos animais sugeriram que um estilo de vida sedentário pode levar ao aumento de biomarcadores de stress oxidativo. Além disso, o seu impacto negativo pode ser especialmente crítico para os portadores do alelo apolipoproteína E (APOE)-ε4.
Estudos indicaram que idosos com mais comportamento sedentário têm pior função executiva, memória e neurodegeneração, particularmente no lobo temporal medial e na substância branca. Outras análises sugeriram uma ligação entre um tempo sedentário mais longo e um maior risco de comprometimento cognitivo leve (CCL), enquanto outras não encontraram tais associações.
Para compreender melhor os mecanismos de como o comportamento sedentário se relacionaria com a estrutura cerebral e as alterações cognitivas em idosos, Gogniat e colaboradores (2025) realizaram um estudo.
| Métodos |
Os participantes foram retirados das coortes the Legacy e Expansion Cohorts of the Vanderbilt Memory and Aging Project (VMAP), um estudo observacional longitudinal de idosos sem demência em seu início. Os participantes tinham pelo menos 50 anos de idade e apresentavam acuidade auditiva e visual adequadas, proficiência em inglês e um parceiro de estudo confiável. Excluiu-se aqueles que tivessem contraindicações para ressonância magnética, histórico de distúrbios neurológicos, doença psiquiátrica grave, insuficiência cardíaca ou doença terminal. Os participantes realizaram actigrafia (7 dias), avaliação neuropsicológica e ressonância magnética cerebral de 3T ao longo de um período de 7 anos. Regressões lineares transversais e longitudinais examinaram o tempo sedentário em relação à estrutura cerebral e à cognição. Os modelos foram repetidos para testar a modificação do efeito pelo status do alelo ε4 da apolipoproteína E (APOE).
| Resultados |
Os participantes do estudo incluíram 404 idosos (idade média de 71 ± 9 anos), sendo que 85% eram brancos não hispânicos e a maioria (79%) estava com cognição preservada na avaliação inicial. É importante destacar que 87% dos participantes atendiam às diretrizes de atividade física moderada a vigorosa (MVPA), com uma média de 61 ± 38 minutos de MVPA por dia. Contudo, o tempo médio de sedentarismo foi substancial, chegando a 807 ± 97 minutos por dia (aproximadamente 13 horas). Cerca de um terço dos participantes (n=131) eram portadores do alelo APOE-ε4.
Os resultados transversais demonstraram que um maior tempo sedentário foi associado a uma menor índice nos marcadores de neuroimagem para DA e a um pior desempenho da memória episódica. Essas associações, contudo, deixaram de ser estatisticamente significativas quando ajustadas pelo nível de MVPA dos participantes.
Além disso, houve uma variação dos resultados de acordo com o status do portador do alelo APOE-ε4. Foi observada uma interação significativa entre o tempo de sedentarismo e o status nos volumes de massa cinzenta total, do lobo frontal e do lobo parietal. Essas interações permaneceram mesmo após o ajuste para MVPA, sugerindo uma contribuição robusta e independente do sedentarismo para a neurodegeneração global na presença deste risco genético.
Longitudinalmente, um maior tempo sedentário foi associado a uma redução mais rápida no volume do hipocampo ao longo do tempo. A interação entre o tempo sedentário e o status de portador de APOE-ε4 teve um impacto significativo na mudança anual do volume do lobo occipital ao longo do tempo. Em não portadores do gene, um maior tempo sedentário foi associado a uma maior redução no volume do lobo occipital ao longo do tempo.
No que diz respeito aos resultados neuropsicológicos, transversalmente, um maior tempo sedentário foi associado a um pior desempenho na memória episódica. A interação transversal entre o tempo sedentário e o status de portador de APOE-ε4 impactou significativamente o Boston Naming Test e o desempenho no Hooper Visual Organization Test. Longitudinalmente, um maior tempo sedentário foi associado a um maior declínio na nomeação, no WAIS-IV Coding e na velocidade de sequenciamento numérico do D-KEFS ao longo do tempo. Estes resultados permaneceram estatisticamente significativos mesmo após o ajuste para MVPA, sugerindo que o comportamento sedentário é um fator de risco independente, e o alto nível de atividade física não elimina completamente os riscos prejudiciais associados ao aumento do tempo sentado.
Em conclusão, o maior comportamento sedentário foi associado a uma pior neurodegeneração e comprometimento cognitivo. Embora essa associação tenha sido diminuída após o ajuste para a atividade física moderada a vigorosa, o sedentarismo ainda demonstra um impacto negativo na cognição. Sob uma perspectiva de medicina personalizada, os profissionais de saúde podem considerar avaliar não apenas o regime de exercícios do paciente, mas também a quantidade de tempo que ele passa sedentário ao longo do dia, recomendando uma redução do mesmo, além do aumento da atividade física diária.