A celulite dissecante do couro cabeludo (CDCC) é uma alopecia cicatricial neutrofílica rara, frequentemente parte da tétrade de oclusão folicular, junto com hidradenite supurativa (HS), acne conglobata (AC) e cisto pilonidal (CP). A doença acomete principalmente homens jovens afrodescendentes, mas pode ocorrer também em mulheres e indivíduos caucasianos.
As lesões iniciais incluem estruturas semelhantes a comedões, acompanhadas por pústulas, nódulos flutuantes e abscessos estéreis, em distribuição focal ou difusa no couro cabeludo. Quando não tratadas, as lesões evoluem para nódulos dolorosos, supurativos, com fístulas interconectadas, resultando em alopecia cicatricial.
O diagnóstico é baseado principalmente no exame clínico e na tricoscopia, embora a histopatologia possa ser útil em casos desafiadores. Como a maioria das lesões apresenta curso crônico e pode resultar em alopecia permanente, estudos relataram impacto significativo na qualidade de vida desses pacientes.
O estudo retrospectivo de Gerlero e colaboradores (2025) avaliou 66 pacientes (63 homens e 3 mulheres) com idade média de 30 anos atendidos em um centro terciário brasileiro entre 2015 e 2023. Todos apresentavam alopecia cicatricial, nódulos inflamados, abscessos ou fístulas.
No total, 53% tinham pelo menos uma condição da tétrade de oclusão folicular. A HS foi a mais prevalente (45%), seguida de AC (34,4%) e CP (10,2%). Em pacientes com CDCC associada à HS, o intervalo entre diagnósticos variou de 1 a 22 anos, mostrando que ambas as doenças podem surgir em momentos distintos.
Quanto ao tratamento, cerca de 60% receberam isotretinoína oral (0,5–1 mg/kg/dia) e 15% foram tratados com adalimumabe 40 mg/semana, ambos com resposta parcial discreta. Casos refratários ou associados à HS pareceram responder melhor ao uso de biológicos.
O Dermatology Life Quality Index foi aplicado em 31 pacientes, com pontuação média de 10, indicando impacto moderado na qualidade de vida. Os domínios mais afetados foram sintomas e relacionamentos pessoais, sem prejuízo relacionado ao tratamento. Atividades esportivas e vida sexual mostraram pouco impacto. Pacientes com a tétrade de oclusão folicular apresentaram comprometimento maior, com DLQI médio de 17,5.
O tratamento da CDCC permanece difícil, com resposta discreta a moderada para terapias de primeira linha como isotretinoína, antibióticos orais e corticoides intralesionais. Em casos refratários ou associados à hidradenite supurativa, biológicos como adalimumabe e infliximabe podem ser alternativas úteis. Além disso, a avaliação da qualidade de vida é essencial devido ao impacto psicossocial significativo causado pela cronicidade, dor e alterações estéticas. Por fim, o estudo reforçou que diagnóstico precoce e manejo adequado são fundamentais para evitar progressão, prevenir alopecia cicatricial e reduzir o impacto negativo na qualidade de vida dos pacientes.