Um estudo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) revelou um crescimento expressivo na resistência da bactéria Streptococcus agalactiae à eritromicina entre 2020 e 2024. As amostras analisadas mostraram que a taxa de resistência passou de 11% para 42% em cinco anos, resultado associado ao uso excessivo de antibióticos durante a pandemia de Covid‑19.
A pesquisa, publicada na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, acompanhou gestantes de alto risco atendidas no Hospital Universitário Lauro Wanderley. Embora a eritromicina não seja empregada diretamente no tratamento dessa bactéria, ela é uma molécula muito similar a azitromicina, amplamente consumida pela população durante a pandemia. Segundo o pesquisador Vinícius Perez, da UFPB e da UFRGS, o uso indiscriminado desse medicamento favoreceu o surgimento de microrganismos mais resistentes.
A bactéria costuma habitar naturalmente o intestino e o trato genital feminino, sem causar danos. O risco surge no momento do parto, quando o bebê pode ser exposto ao microrganismo ao atravessar o canal vaginal. Como recém‑nascidos ainda não possuem sistema imunológico totalmente desenvolvido, a infecção pode resultar em quadros graves, como sepse, meningite e pneumonia.
A penicilina continua sendo o tratamento padrão e permanece eficaz. Entretanto, o aumento da resistência preocupa especialmente no caso de gestantes alérgicas ao medicamento. Essas pacientes dependem de alternativas como eritromicina ou clindamicina, que agora apresentam queda de eficácia. Para Perez, a situação exige atenção porque o cenário pode se agravar caso a penicilina deixe de funcionar no futuro.
O estudo também chama atenção para a limitação do acesso ao exame de triagem no Sistema Único de Saúde. Hoje, o teste não é garantido para todas as gestantes, sendo recomendado apenas para casos classificados como de alto risco. Essa restrição deixa muitas mulheres sem avaliação adequada para identificar a presença da bactéria.
Os pesquisadores defendem que a ampliação do teste para todas as gestantes seja considerada nas políticas públicas de saúde. Enquanto isso, recomendam que as mulheres perguntem a seus médicos sobre a possibilidade de realizar o exame entre a 35ª e a 37ª semanas de gestação.