A obesidade aumenta o risco de várias neoplasias, incluindo câncer de mama, endométrio, esôfago, cólon, reto e rim. Além disso, contribui para doenças cardiovasculares, incluindo hipertensão e doença arterial coronariana, mas também para comorbidades como diabetes, osteoartrite, distúrbios do sono e transtornos psiquiátricos. O tratamento mais bem documentado para a obesidade é a cirurgia bariátrica, que induz perda de peso rápida, profunda e sustentada, em contraste com o tratamento não operatório, que inclui mudanças no estilo de vida, dieta e atividade física.
A cirurgia bariátrica está associada a um risco reduzido tanto de câncer relacionado à obesidade quanto de doenças cardiovasculares, além de uma expectativa de vida prolongada em indivíduos com obesidade. No entanto, existe controvérsia sobre se pacientes com mais de 60 anos devem se submeter ao procedimento, pois os seus benefícios parecem diminuir com a idade avançada.
Por isso, Gerber e colaboradores (2024) realizaram um estudo de coorte para comparar a incidência de câncer relacionado à obesidade e doenças cardiovasculares em pacientes que se submeteram à cirurgia bariátrica aos 60 anos ou mais. Para isso, recrutaram pacientes da Dinamarca, Finlândia e Suécia que foram submetidos à cirurgia bariátrica aos 60 anos ou mais, sem histórico prévio de neoplasia maligna ou doença cardiovascular, entre 1989 e 2019. Cada paciente submetido ao procedimento foi pareado exatamente com 5 pacientes que receberam tratamento não operatório para obesidade, do mesmo país, sexo e idade na data da cirurgia. Os dados foram analisados em dezembro de 2023.
O principal resultado foi o câncer relacionado à obesidade, definido como um desfecho composto de câncer de mama, endométrio, esôfago, colorretal e rim, identificado a partir dos registros nacionais de câncer. O resultado secundário foi a doença cardiovascular, definida como um desfecho composto de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico e hemorragia cerebral, identificado a partir dos registros de pacientes.
No total, 15.300 pacientes foram incluídos (idade mediana [IQR], 63 [61-65] anos; 10.152 mulheres [66,4%]), dos quais 2.550 pacientes (16,7%) se submeteram à cirurgia bariátrica e 12.750 (83,3%) foram controles pareados com tratamento não operatório para obesidade. Pacientes que se submeteram à cirurgia foram mais frequentemente diagnosticados com diabetes e hipertensão, mas outras comorbidades foram comparáveis entre os grupos no início do estudo.
Durante um seguimento mediano (IQR) de 5,8 (2,8-8,5) anos, 101 pacientes com cirurgia bariátrica (4,9%) e 557 pacientes com tratamento não operatório (4,4%) desenvolveram câncer relacionado à obesidade. Sendo assim, o risco geral de câncer relacionado à obesidade foi semelhante entre os grupos. Análises estratificadas demonstraram uma redução de 24% no risco de câncer relacionado à obesidade em mulheres que se submeteram à cirurgia bariátrica, mas, de outra forma, não houve benefício claro da operação.
Entre 1.930 pacientes que se submeteram à cirurgia de bypass gástrico, 71 (3,7%) desenvolveram câncer relacionado à obesidade, em comparação com 442 de 9.650 pacientes pareados com tratamento não operatório. Após ajustes, a gastroplastia com derivação intestinal em Y de Roux foi associada a uma redução de 26% no risco de câncer relacionado à obesidade.
Durante o acompanhamento, 224 pacientes com cirurgia bariátrica (8,8%) desenvolveram doença cardiovascular, comparado a 1.212 pacientes com tratamento não operatório (9,5%). Sendo assim, o risco geral de doença cardiovascular foi semelhante entre os pacientes com cirurgia bariátrica e os com tratamento não operatório.
No total, 159 pacientes (8,2%) com bypass gástrico desenvolveram doença cardiovascular, em comparação com 859 (8,9%) com tratamento não operatório. Após ajustes, a gastroplastia com derivação intestinal em Y de Roux foi associado a uma redução de 18% no risco de doença cardiovascular.
Em conclusão, a cirurgia bariátrica em pacientes mais velhos não foi associada a uma redução do risco de câncer relacionado à obesidade ou doença cardiovascular. No entanto, observou-se um benefício limitado em certos subgrupos, como uma redução do risco de câncer relacionado à obesidade em mulheres e uma diminuição do risco de ambos, câncer relacionado à obesidade e doenças cardiovasculares, em pacientes que se submeteram ao bypass gástrico.