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Publicado el 14 de octubre de 2026

Cafeína e saúde cardiovascular

Cafeína, arritmias e risco vascular: uma revisão prática do posicionamento da AHA

Uma análise sobre a farmacologia da cafeína, variabilidade genômica e o real impacto do consumo habitual de café na pressão arterial, arritmias e mortalidade.

Autor/a: Marcus G. M., et al.

Fuente: Circulation,V. 145, N. 9, 2026 Caffeine and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association

Introdução  

A cafeína é uma das substâncias psicoativas mais consumidas no mundo, entretanto, as evidências sobre seus efeitos na saúde humana são complexas. Isso porque, embora a substância esteja disponível na forma pura, seu consumo ocorre mais frequentemente por meio de alimentos ou bebidas, o que muitas vezes torna difícil distinguir os efeitos próprios da cafeína daqueles decorrentes dos demais componentes presentes nesses produtos. Além disso, a cafeína afeta múltiplos órgãos e, mesmo no sistema cardiovascular, exerce uma ampla variedade de efeitos. Por fim, os indivíduos podem metabolizá-la em diferentes velocidades, dependendo tanto de seu padrão genético quanto às quantidades de exposição prévia padrões prévios de exposição. 

Com o objetivo de analisar de forma abrangente o impacto da cafeína e do café na saúde cardiovascular, a American Heart Association publicou uma declaração científica. O documento descreveu a farmacologia e os mecanismos de ação da cafeína, o impacto da genética e a variabilidade interindividual, a associação entre doenças cardiovasculares e cafeína e comparou as formas de consumo.  

Mecanismos e farmacologia da cafeína 

A cafeína é um composto com propriedades alcaloides que apresenta uma biodisponibilidade oral de praticamente 100%, sendo rapidamente absorvida no trato gastrointestinal e atingindo concentrações plasmáticas de pico em cerca de uma hora. O processo de absorção e o tempo para atingir o pico plasmático podem ser retardados pela ingestão concomitante de alimentos ricos em gorduras ou fibras, além de sofrerem modulação direta pela matriz do veículo de consumo. Enquanto refrigerantes apresentam uma taxa de absorção mais lenta em comparação ao café ou chá, a presença de compostos como a taurina em bebidas energéticas aumenta a solubilidade, a taxa de absorção e a rapidez do início de ação do fármaco.  

Por apresentar um metabolismo de primeira passagem mínimo, a cafeína exibe um perfil farmacocinético linear em doses terapêuticas habituais, distribuindo-se amplamente por todos os tecidos corporais devido à sua lipofilicidade. A droga atravessa livremente as barreiras hematoencefálica e placentária, além de ser excretada no leite materno, concentrando-se ativamente no tecido cerebral, sem, contudo, acumular-se de forma permanente em órgãos ou tecidos. 

O metabolismo da cafeína ocorre extensivamente no fígado, mediado pelas isoenzimas do citocromo P450, predominantemente o CYP1A2 e secundariamente o CYP2C9, por meio de reações de N-desmetilação oxidativa. Esse processo metabólico gera três metabólitos primários biologicamente ativos: a paraxantina (80%), a teobromina (11%) e a teofilina (4%). A meia-vida de eliminação plasmática varia de 2 a 12 horas, fixando-se entre 4 e 5 horas em adultos saudáveis, sendo encurtada pelo tabagismo e prolongada durante a gestação. A principal via de eliminação é a excreção renal. 

Do ponto de vista farmacodinâmico, a cafeína atua sobre quatro alvos, cujos efeitos dependem diretamente da dose e da concentração plasmática atingida. Em doses fisiológicas e de consumo habitual, o mecanismo primário consiste no antagonismo competitivo não seletivo dos receptores de adenosina A1 e A2A no sistema nervoso central e no miocárdio. A ligação do fármaco a esses receptores bloqueia a ação tônica inibitória da adenosina, resultando em estimulação do sistema nervoso central e na remoção do efeito de "frenagem" cardíaca, o que eleva a frequência cardíaca e o estado de alerta.  

Em doses mais elevadas, a cafeína passa a inibir as enzimas fosfodiesterases, impedindo a degradação e promovendo o acúmulo intracelular de AMP cíclico (AMPc). O aumento na concentração dessa molécula ativa lipase sensível a hormônios no tecido adiposo, estimulando a lipólise e a liberação de ácidos graxos livres e glicerol, além de potencializarem os efeitos inotrópicos e vasculares. Em concentrações supra-fisiológicas ou não fisiológicas, a cafeína induz a liberação de cálcio estocado no retículo sarcoplasmático e altera o fluxo iônico celular, aumentando a força de contração e a resistência muscular cardíaca e esquelética.  

No âmbito periférico e sistêmico, a estimulação do sistema nervoso simpático central induz vasoconstrição periférica e aumento transitório da pressão arterial. No parênquima renal, a inibição da reabsorção de sódio e água nos túbulos renais gera um efeito diurético. Adicionalmente, o fármaco promove a broncodilatação, estimula a motilidade da musculatura lisa gastrintestinal e colônica e incrementa a secreção de ácido gástrico via liberação de gastrina. 

Genética 

A hereditariedade estimada do consumo de cafeína, bem como da suscetibilidade ao desenvolvimento de tolerância, toxicidade e sintomas de abstinência, varia de 30% a mais de 50%. A base genética é o principal determinante da ampla variação interindividual na atividade do citocromo CYP1A2. Estudos de associação do genoma completo (GWAS) identificaram que os polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) mais fortes e replicados mapeiam diretamente nos genes biologicamente plausíveis CYP1A2. Indivíduos portadores de variantes genéticas associadas a menores níveis plasmáticos de metabólitos da cafeína tendem a consumir maiores quantidades do fármaco, um comportamento atribuído à necessidade de doses mais elevadas para atingir os mesmos efeitos psicoestimulantes. 

Adicionalmente, múltiplos polimorfismos em diversas regiões genômicas têm sido correlacionados a outros padrões comportamentais de consumo, como a preferência por café puro (sem adição de cremes ou leite) ou por café descafeinado. A contribuição relativa de SNPs específicos para o comportamento e o metabolismo da cafeína varia entre diferentes populações devido a divergências nas frequências alélicas, além da modulação exercida por fatores sociais, culturais, comportamentos concomitantes e pelo uso de medicações. Embora essas variações genéticas individuais expliquem parcialmente as diferenças observadas na tolerância e na resposta clínica aguda à cafeína, a evidência científica atual é insuficiente para demonstrar que tais variantes modifiquem os impactos do consumo habitual de café sobre o risco de doenças cardiovasculares crônicas ou sobre a mortalidade. 

Fatores de risco cardiovascular 

A relação entre o consumo de cafeína e os fatores de risco cardiovascular é complexa e influenciada pelo tempo de exposição (efeitos agudos versus crônicos) e pela matriz alimentar de consumo. 

Em relação à pressão arterial, o consumo agudo induz elevações transitórias da pressão arterial sistólica e diastólica, com respostas significativamente mais pronunciadas em indivíduos hipertensos, nos quais a administração de 250 mg de cafeína promoveu aumentos superiores a 1,5 vezes quando comparados a normotensos. Em contrapartida, avaliações por randomização mendeliana associaram variantes genéticas preditivas de maior consumo crônico de cafeína a níveis inferiores de pressão sistólica e diastólica. Estudos de coorte prospectivos revelaram uma associação não linear em formato de "J invertido" entre o consumo habitual de café e o risco de hipertensão arterial: observou-se um discreto aumento do risco com ingestões baixas a moderadas (1 a 3 xícaras/dia), porém com tendência à redução do risco em níveis mais elevados de consumo. O desenvolvimento da tolerância atenuou os impactos pressóricos de longo prazo no consumo habitual, embora doses elevadas continuem a representar risco para pacientes com hipertensão grave.  

É importante citar que a matriz de consumo modifica esse perfil: enquanto bebidas energéticas ricas em cafeína e taurina elevam a pressão arterial em repouso e durante o exercício, extratos de grão de café verde promovem redução da pressão arterial. Além disso, a suplementação pré-exercício com cafeína atenua a hipotensão pós-exercício fisiológica. 

No âmbito do diabetes tipo 2 e metabolismo glicêmico, a cafeína demonstrou efeitos paradoxais a depender da temporalidade da análise. Mecanisticamente, a administração aguda de cafeína pode induzir uma redução transitória da sensibilidade à insulina e efeitos glicêmicos desfavoráveis nas primeiras 1 a 3 horas pós-ingestão. No entanto, estudos epidemiológicos demonstram consistentemente uma forte associação dose-dependente entre o consumo habitual de café e a diminuição do risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2. Meta-análises de coortes prospectivas evidenciaram reduções de risco de 20% e 30% para consumos diários médios de 3,5 e 5 xícaras de café, respectivamente, com achados semelhantes tanto para versões cafeinadas quanto descafeinadas. Ensaios clínicos prolongados e monitoramentos de glicose diária não demonstraram prejuízos mantidos no longo prazo. Essa proteção metabólica crônica foi atribuída em grande parte aos componentes não cafeinados do café, como o polifenol ácido clorogênico e os micronutrientes magnésio e cromo, ambos associados ao aumento da sensibilidade à insulina. 

Em relação ao perfil lipídico, os dados evidenciaram que a cafeína isoladamente não altera as concentrações séricas de colesterol. No entanto, o método de preparação do café exerce um papel determinante: o café não filtrado contém o diterpeno cafestol, composto capaz de elevar significativamente os níveis de colesterol LDL. Em contrapartida, os métodos de preparo que utilizam filtro de papel ou o café instantâneo retêm o cafestol e não impactam o perfil lipídico sérico, enquanto o café expresso apresenta concentrações intermediárias da substância com elevação modesta do colesterol. 

Doenças cardiovasculares 

No campo do ritmo cardíaco, ensaios clínicos desmitificaram o conceito de que a cafeína é abertamente arritmogênica. Em relação à fibrilação atrial (FA), estudos demonstram que o consumo habitual e moderado de cafeína (como 1 a 3 xícaras de café por dia) não elevou o seu risco e foi associado a uma incidência neutra ou reduzida da arritmia. Um ensaio clínico randomizado em pacientes com FA submetidos à cardioversão revelou uma redução estatisticamente significativa de 39% na recorrência de FA entre aqueles instruídos a consumir café cafeinado em comparação à abstenção. Esses achados fundamentaram a recomendação das diretrizes do ACC/AHA/HRS, que orientam os clínicos a não contraindicarem o consumo de cafeína com o intuito de prevenir a FA. Em contrapartida, relatos de casos documentaram episódios agudos de FA em jovens que consumiram altas doses de cafeína em bebidas energéticas. 

Quanto à ectopia cardíaca, enquanto a ingestão habitual de café não foi associada à frequência de contrações atriais prematuras (PACs), ensaios demonstraram um aumento na frequência de contrações ventriculares prematuras (PVCs). Em relação a eventos ventriculares graves, embora o consumo moderado de café associe-se a um menor risco de taquicardia ventricular em grandes coortes, doses extremamente elevadas de cafeína purificada em pó ou cápsulas podem deflagrar fibrilação ventricular e morte súbita. Os potenciais mecanismos antiarrítmicos em doses fisiológicas incluíram efeitos vagolíticos, redução da pressão arterial via diurese, bloqueio de receptores de adenosina e propriedades anti-inflamatórias. 

No contexto da doença arterial coronariana (DAC), estudos desmentiram preocupações epidemiológicas precoces, indicando que o consumo de até 6 xícaras de café por dia não aumenta o risco de DAC. Na verdade, consumos leves a moderados (mediana de 1,5 a 3,5 xícaras/dia) associaram-se a uma redução de aproximadamente 10% no risco coronariano, com benefícios mantidos inclusive para o café descafeinado e sem modificação por predisposição genética ao metabolismo da cafeína. Além disso, em pacientes com histórico de infarto agudo do miocárdio, o consumo de café mostrou-se seguro, não estando associado a maior risco de recorrência de eventos cardiovasculares ou mortalidade. 

Em relação à insuficiência cardíaca (IC), diferentes estudos evidenciaram que o consumo crônico de café associou-se a um risco neutro ou moderadamente menor de desenvolvimento da síndrome. A relação dose-resposta apresentou uma curva em formato de "J", com a menor incidência de IC observada em consumos moderados de aproximadamente 4 xícaras de café ao dia. No estudo CARDIA, o consumo leve a moderado desde o início da idade adulta até a meia-idade correlacionou-se a uma melhor função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo na meia-idade, embora ingestões muito elevadas (>4 xícaras/dia) tenham sido vinculadas a uma piora da função ventricular. 

Por fim, no que tange ao acidente vascular cerebral (AVC), apesar de estudos de randomização mendeliana não demonstrarem uma relação de causalidade direta entre níveis plasmáticos de cafeína e a condição, estudos observacionais revelaram uma consistente associação inversa entre o consumo de café/chá e o risco de AVC total e isquêmico. Meta-análises de coortes mostraram uma curva em formato de "U", em que a ingestão moderada de 3 a 4 xícaras diárias de café proporciona uma redução de até 21% no risco de AVC isquêmico. Efeitos protetores semelhantes foram descritos para o consumo habitual de chá verde e chá preto. 

Conclusão 

As evidências de literatura demonstraram que o consumo moderado de cafeína ou café, definido como até 400 mg por dia de cafeína, o equivalente a aproximadamente 3 a 5 xícaras de café de 240 mL, é seguro para a vasta maioria dos adultos. Essa faixa de consumo associou-se a um menor risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, incluindo DAC, AVC, IC e FA, além de conferir proteção contra a incidência de hipertensão e diabetes tipo 2. Adicionalmente, grandes coortes com longo acompanhamento demonstraram a associação inversa entre o consumo habitual de café e a mortalidade por todas as causas, apresentando uma curva não linear cujo menor risco de mortalidade é observado na faixa de 2 a 4 xícaras diárias.  

Dessa forma, o consumo moderado e habitual de café pode integrar perfeitamente um estilo de vida saudável em adultos. Contudo, no contexto do aconselhamento clínico e de saúde pública, os profissionais de saúde devem atentar para o fato de que a adição de grandes quantidades de açúcar, xaropes aromatizados e derivados lácteos gordurosos pode elevar substancialmente o aporte calórico da bebida, anulando os potenciais benefícios metabólicos e cardiovasculares do café em si.  

É crucial enfatizar que os benefícios observados para a matriz natural do café ou chá não devem ser extrapolados para produtos contendo cafeína sintética em altas doses ou bebidas energéticas. Embora os dados sobre energéticos ainda sejam limitados, as evidências disponíveis apontam para potenciais danos cardiovasculares decorrentes do consumo de doses elevadas e concentradas.