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Publicado el 17 de febrero de 2026

Saúde

Bactérias orais e intestinais podem esta relacionadas a aneurismas intracranianos

Pesquisa detectou material genético bacteriano na parede de aneurismas intracranianos, levantando hipótese de novo fator de risco a ser investigado

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou DNA bacteriano de Escherichia coli na parede de aneurismas intracranianos (AIs), levantando a hipótese de que alterações na microbiota bucal e intestinal possam desempenhar papel na formação e eventual ruptura desses aneurismas. Os achados, publicados na revista Clinical Neurology and Neurosurgery, indicaram uma possível associação inédita entre microbiota e doença cerebrovascular, identificada em 44% das amostras analisadas.

As amostras foram obtidas durante microcirurgias de aneurisma realizadas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Após a coleta, o material passou por um processo de preservação, extração e análise molecular por reação em cadeia da polimerase (PCR), técnica que permite detectar DNA bacteriano mesmo em pequenas quantidades.

Segundo o neurocirurgião Nícollas Nunes Rabelo, a E. coli geralmente faz parte da microbiota comensal humana, sem causar doença. Entretanto, em alguns pacientes, pode adquirir características de patogenicidade ainda não totalmente compreendidas. “A presença da bactéria fragilizou o vaso por um processo inflamatório”, explicou o pesquisador.

O estudo sugeriu que processos inflamatórios crônicos, decorrentes de doença periodontal ou disbiose intestinal, podem contribuir para o enfraquecimento das paredes arteriais.
Essas inflamações costumam ser indolentes e de progressão lenta, permitindo que bactérias ou seus produtos metabólicos atinjam a corrente sanguínea e se depositem na parede arterial, iniciando ou amplificando um processo inflamatório local.

O professor Eberval Gadelha Figueiredo, orientador do trabalho, reforçou essa ideia: inflamações de baixo grau oferecem tempo suficiente para gerar remodelação vascular, ao contrário de infecções bacterianas mais virulentas, que evoluem rapidamente e não favorecem um estado inflamatório crônico prolongado.

Um possível novo fator de risco para aneurismas

Aneurismas intracranianos são dilatações anormais de vasos sanguíneos que podem se romper, resultando em hemorragias graves e altas taxas de mortalidade. Os fatores de risco clássicos incluem:

  • tabagismo;
  • hipertensão arterial;
  • histórico familiar;
  • doenças do tecido conjuntivo, como a síndrome de Marfan.

Os novos achados sugeriramm que hábitos de higiene bucal insuficientes e dietas ricas em carboidratos e açúcares, capazes de favorecer inflamação periodontal e desbalanço da microbiota intestinal, possam também contribuir para o risco de aneurismas.

A hipótese de trabalho é que microrganismos presentes na cavidade oral ou no intestino alcancem a circulação sistêmica, depositem-se na parede arterial e induzam uma resposta inflamatória que altere a estrutura do vaso.

Para os autores, a descoberta reforçou a importância do cuidado com a saúde oral e intestinal como parte das estratégias de prevenção de doenças sistêmicas.
Segundo Rabelo, esse achado está alinhado ao movimento crescente na medicina que valoriza o impacto da microbiota no funcionamento global do organismo.

Figueiredo destacou que hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, consumo reduzido de álcool e evitar tabagismo, podem proteger a microbiota intestinal e, potencialmente, reduzir riscos associados.

Próximos passos

Apesar da relevância dos achados, os autores alertaram que a presença de DNA bacteriano na parede do aneurisma demonstra associação, mas não comprova causalidade. Ainda é necessário investigar se:

  • a bactéria está ativa no tecido;
  • sua presença é fator causal ou apenas marcador de inflamação;
  • há infecção concomitante em outros locais, como gengiva, sangue ou intestino.