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Publicado el 21 de junio de 2026

Menopausa

Atualizações no manejo da menopausa: principais recomendações do IMS 2024

Uma síntese prática dos principais avanços e orientações apresentadas no 19º Congresso Mundial de Menopausa.

Introdução

O 19º Congresso Mundial sobre a Menopausa (IMS 2024) reuniu mais de 2.000 especialistas globais para discutir avanços e desafios no manejo da menopausa. A terapia hormonal (THM) permaneceu como pilar central no tratamento, especialmente no controle dos sintomas vasomotores (SVM).

O evento também destacou a importância de abordagens integradas para a saúde feminina durante e após a transição desse período, alinhado com diretrizes recentes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) sobre a necessidade vital de THM em mulheres com insuficiência ovariana prematura (IOP), que ocorre antes dos 40 anos.

Além disso, foram abordadas atualizações sobre áreas emergentes, incluindo o uso de testosterona e o papel dos agonistas do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) no manejo do diabetes tipo 2 e da obesidade. Nesse contexto, o artigo de Simon e colaboradores (2025) sintetizou as principais recomendações práticas discutidas em seis diferentes temas para apoiar a prática clínica. Confira abaixo:

1) Saúde cardiovascular

A queda do estrogênio na menopausa contribui para maior risco cardiovascular por mecanismos como aumento da adiposidade visceral, resistência à insulina, dislipidemia, ativação do sistema renina–angiotensina, inflamação crônica e disfunção endotelial vascular, podendo ser parcialmente atenuada pela terapia estrogênica, embora esta não seja recomendada para prevenção primária.

 A prevenção deve priorizar o controle de fatores tradicionais de risco, como controle adequado de lipídios, pressão arterial, peso, atividade física e saúde metabólica. Evidências destacaram benefícios dos agonistas de GLP-1, em pessoas com obesidade, e da colchicina em baixa dose para redução de eventos cardiovasculares. O evento ressaltou ainda que grande parte do risco permanece inexplicada, reforçando a necessidade de abordagem precoce e proativa.

2) Prevenção e tratamento da osteoporose

       A transição menopausal é um período crítico para a saúde óssea, com rápida perda de densidade mineral associada à queda do estrogênio, levando ao aumento da reabsorção óssea e risco de osteopenia e osteoporose. Nesse cenário, a THM é uma estratégia central, pois reduz o risco de fraturas, diminui o turnover ósseo e aumenta a densidade mineral óssea em todos os sítios esqueléticos, especialmente quando iniciada precocemente.

Tanto a via oral quanto a transdérmica oferecem benefícios semelhantes, com evidências sugerindo leve superioridade do estradiol em relação aos estrogênios conjugados. Os benefícios persistem durante o uso e podem se manter por algum tempo após a suspensão.

Em mulheres de maior risco, a terapia hormonal pode ser associada a fármacos anti-reabsortivos ou anabólicos em uma abordagem sequencial, o que pode otimizar os resultados. Além disso, medidas de estilo de vida, como ingestão adequada de cálcio e vitamina D e exercícios com carga, permanecem fundamentais.

3) Saúde urogenital e sexual

Sintomas geniturinários da menopausa, como secura vaginal, dor durante o contato sexual, sintomas de bexiga hiperativa e maior risco de infecções urinárias, são comuns, crônicos e frequentemente subtratados, sendo muitas vezes manejados apenas com antibióticos, sem abordagem da causa subjacente.

As diretrizes recomendam o estrogênio vaginal como tratamento de escolha, incluindo em casos de IOP, com eficácia nos sintomas vaginais e urinários e bom perfil de segurança a longo prazo. Alternativas incluem a dehidroepiandrosterona vaginal (DHEA) e o ospemifeno oral.

Embora a terapia a laser tenha sido sugerida, as evidências ainda são inconclusivas e seu uso deve ser restrito à pesquisa. Alternativas não hormonais devem ser priorizadas em sobreviventes de câncer de mama, com terapias hormonais de baixa dose consideradas em segunda linha.

4) Sono, cognição e vida profissional

Distúrbios do sono são frequentes na menopausa e podem comprometer o funcionamento diurno, a saúde cognitiva e o perfil metabólico das pacientes. Nesse quadro, alternativas como THM, terapia cognitivo-comportamental (TCC), exercícios de yoga e inibidores seletivos da recaptação de serotonina podem melhorar a qualidade do sono.

Alterações cognitivas, estresse, ansiedade e sintomas depressivos também são comuns. A abordagem recomendada combina educação e mudanças no estilo de vida, além da THM e TCC. No contexto profissional, os sintomas podem reduzir a produtividade e aumentar o absenteísmo, destacando a necessidade de maior reconhecimento e suporte no ambiente de trabalho.

5) Manejo da perimenopausa

A perimenopausa é uma fase marcada por flutuações hormonais, irregularidade menstrual, alterações na composição corporal, no perfil lipídico e sintomas variáveis que impactam significativamente a qualidade de vida.

A THM é o principal tratamento para sintomas vasomotores, com preferência pela via transdérmica em mulheres de maior risco cardiovascular ou tromboembólico. Alternativas não hormonais, como antagonistas dos receptores de neurocinina (NK1 e NK3), TCC e intervenções no estilo de vida, como exercício, alimentação equilibrada e monitoramento cardiovascular, também ganharam destaque.

Durante esse período, muitas mulheres ainda necessitam de contracepção, devido ao risco de ovulação. As opções incluem métodos reversíveis de longa duração, implantes e contraceptivos hormonais orais, sendo a escolha personalizada e individual.

6) Cânceres e THM

O manejo da menopausa em mulheres com câncer requer abordagem individualizada e multidisciplinar, especialmente em mulheres com predisposição genética, como mutações em BRCA1/BRCA2. Os tratamentos oncológicos podem causar secura vaginal e atrofia vulvovaginal, além de induzir IOP, com impacto ósseo, cardiovascular e agravamento dos sintomas menopausais.

 A THM sistêmica é geralmente contraindicada em cânceres hormônio-dependentes, como o câncer de mama receptor de estrogênio positivo, sendo priorizadas alternativas não hormonais. Novas alternativas, como antagonistas de receptores de neurocinina (NK1 e NK3), estão em desenvolvimento para o manejo de sintomas vasomotores.

Em cânceres não hormônio-dependentes ou casos selecionados, o uso de THM pode ser considerado com cautela. Para sintomas geniturinários, o estrogênio vaginal, especialmente o estriol, pode ser uma opção relativamente segura devido à baixa absorção sistêmica. A decisão terapêutica deve sempre equilibrar riscos de recorrência, controle de sintomas e qualidade de vida, com participação ativa da paciente no processo.