A asma brônquica é definida como uma doença heterogênea, caracterizada clinicamente por uma obstrução variável das vias aéreas, tendo como sintomas principais a sibilância intermitente e o aperto no peito. Embora sua patogênese completa ainda não seja totalmente elucidada, a inflamação das vias aéreas desempenha um papel fundamental no quadro. O manejo terapêutico, com destaque para o uso de glicocorticoides, permitiu uma redução de 26,7% na taxa de mortalidade entre 1990 e 2015, contudo, a prevalência da doença aumentou 12,6% no mesmo período, o que torna urgente a investigação de seus fatores de risco.
Nesse cenário, observa-se que os distúrbios do sono são altamente prevalentes em pacientes asmáticos e estão frequentemente associados a um controle clínico deficiente da patologia. Essa correlação levou a comunidade científica a investigar se o sono precário seria um fator de risco para o desenvolvimento da asma. Enquanto estudos de coorte prospectivos demonstraram que sintomas de insônia crônica elevaram significativamente o risco de incidência da doença, outras pesquisas não encontraram tal associação. Além disso, estudos transversais de larga escala que analisaram o sono insuficiente apresentaram resultados divergentes.
Devido à natureza inconsistente dos estudos observacionais e à facilidade com que esses resultados podem ser confundidos por variáveis externas, Liu e colaboradores (2026) hipotetizaram que a relação entre distúrbios do sono e asma pode ser influenciada por especificidades populacionais, como idade, sexo e histórico familiar. Portanto, eles realizaram uma meta-análise para testar essa hipótese e avaliar de forma sistemática a associação entre esses fatores.
Para o estudo, a busca sistemática de literatura foi realizada nas bases de dados PubMed, Embase, Cochrane Library e Web of Science, sem restrições de idioma, abrangendo artigos publicados até 30 de dezembro de 2022. Foram incluídos estudos observacionais que avaliaram a associação entre a incidência ou prevalência de asma e distúrbios do sono, especificamente insônia, má qualidade do sono e duração insuficiente (definida em adultos como menos de 7 horas).
A análise final incluiu 23 estudos que preencheram os critérios de elegibilidade, sendo 5 estudos de coorte e 18 estudos transversais. A análise primária revelou que os distúrbios do sono foram positivamente associados a um aumento na incidência ou prevalência de asma. Ao detalhar o tipo de distúrbio, tanto a duração insuficiente do sono quanto a má qualidade do sono correlacionaram-se significativamente com a presença da doença.
Na análise de subgrupos por faixa etária, os resultados indicaram que a associação foi significativa em adultos e adolescentes, mas não foi estatisticamente relevante em crianças menores de 12 anos. Além disso, os autores observaram que a associação entre sono e asma perdeu significância nos estudos que realizaram o ajuste estatístico para o histórico familiar de asma, o que sugere que fatores genéticos podem mediar essa relação. Em contrapartida, o ajuste para o índice de massa corporal não alterou a significância dos achados, indicando que o impacto do sono na asma ocorre independentemente do status de peso do paciente.
Quanto à distribuição geográfica, a associação foi confirmada tanto em populações da Europa e América quanto na Ásia. Apesar desses resultados, a certeza da evidência avaliada pelo sistema GRADE foi classificada como muito baixa para a análise global e a maioria dos subgrupos, elevando-se para "baixa" apenas em análises específicas, como a de má qualidade do sono.
Em conclusão, os autores estabelecem que existe uma associação positiva entre os distúrbios do sono e um aumento tanto na prevalência quanto na incidência de asma. Entretanto, essa relação foi complexa e parece ser mediada por fatores demográficos e genéticos. A associação foi estatisticamente significativa em adultos e adolescentes, mas não se mostrou relevante em crianças menores de 12 anos. Outro achado crítico foi que a significância estatística da relação sono-asma desaparece em estudos que ajustam os resultados pelo histórico familiar, sugerindo que a genética pode desempenhar um papel fundamental nessa vulnerabilidade.
Em termos de prática clínica e políticas de saúde, o estudo reforça que os distúrbios do sono devem ser valorizados no manejo de pacientes com asma ou mesmo em indivíduos saudáveis como parte de uma estratégia preventiva. A promoção de padrões de sono adequados foi apontada como uma intervenção potencialmente valiosa para o controle da doença, embora a confirmação definitiva dependa de futuros ensaios clínicos multicêntricos de maior rigor metodológico.