Uma pesquisa publicada na Cell Reports Medicine revelou diferenças biológicas importantes que podem explicar por que mulheres com COVID longa, especialmente aquelas que desenvolvem síndrome da fadiga crônica, tendem a apresentar sintomas mais graves e persistentes do que os homens.
A condição pós-COVID-19, ou COVID longa, é diagnosticada quando sintomas neurológicos, respiratórios ou gastrointestinais se desenvolvem ou persistem por três meses ou mais após uma infecção aguda por SARS-CoV-2. A probabilidade de desenvolver a condição é três vezes maior em mulheres do que em homens, mas até agora os mecanismos biológicos subjacentes a essa disparidade permaneciam desconhecidos.
Shahbaz e colaboradores (2025) sugeriram potenciais alvos para tratamento que poderiam trazer alívio aos 3,5 milhões de canadenses que relataram ter tido COVID longa em junho de 2023. "Estamos nos concentrando em um subconjunto de pacientes com os sintomas mais devastadores que são muito semelhantes à síndrome da fadiga crônica", explicou o investigador principal Shokrollah Elahi, professor de imunologia da Mike Petryk School of Dentistry. "Eles não tinham esses sintomas antes do vírus e a maioria teve apenas uma doença leve de COVID-19, então não foram hospitalizados".
Os pesquisadores realizaram exames de sangue e genéticos em 78 pacientes com COVID longa um ano após o diagnóstico agudo, bem como em um grupo de controle de 62 pessoas que não desenvolveram a condição após a infecção por SARS-CoV-2. Através da análise de células imunológicas, biomarcadores no sangue e sequenciamento de RNA, eles identificaram uma assinatura imunológica distinta em pacientes do sexo feminino versus masculino.
Eles encontraram evidências de "gut leakiness" em pacientes do sexo feminino, incluindo níveis elevados no sangue da proteína de ligação de ácidos graxos intestinais, lipopolissacarídeo e da proteína solúvel CD14 — todos sinais de inflamação intestinal que podem desencadear ainda mais inflamação sistêmica quando atingem o sistema circulatório. Sugerindo que, provavelmente, no estágio mais inicial da doença, quando os pacientes contraem a infecção aguda por SARS-CoV-2, há uma tendência de que o intestino das mulheres seja mais propenso à infecção viral.
A equipe também encontrou menor produção de glóbulos vermelhos ou anemia em pacientes do sexo feminino. Sugerindo que níveis elevados de fatores inflamatórios em mulheres com COVID longa afetam adversamente sua produção de sangue.
Além disso, os pesquisadores descobriram hormônios sexuais desregulados em pacientes com COVID longa, encontrando níveis reduzidos de testosterona em mulheres afetadas e diminuição de estrogênio em pacientes do sexo masculino, bem como níveis mais baixos do hormônio cortisol em ambos.
Os pesquisadores relataram que mulheres com níveis mais baixos de testosterona apresentavam níveis mais altos de inflamação no sangue. Esse hormônio normalmente ajuda a controlar a inflamação, então níveis reduzidos podem tornar as mulheres mais vulneráveis a respostas inflamatórias contínuas, postulam os pesquisadores. Ademais, Níveis mais baixos também foram associados a sintomas como névoa cerebral, depressão, dor e fadiga.
Esses resultados foram semelhantes, mas não idênticos ao que é encontrado na síndrome da fadiga crônica idiopática (de causa desconhecida), agora referida como encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica, que também afeta desproporcionalmente as mulheres. Por exemplo, a anemia não foi associada à fadiga crônica, mas a inflamação crônica é uma característica.
As descobertas da equipe de Elahi foram reforçadas por outro estudo internacional recente de mais de 500 pacientes publicado no Journal of Clinical Investigation, que também relatou anemia como um importante alicerce biológico da COVID longa.
Elahi planeja verificar ainda mais suas descobertas testando tratamentos potenciais em camundongos que têm COVID longa, e ele está buscando financiamento para um ensaio clínico.
Ele propõe uma abordagem individualizada para o tratamento, dependendo dos resultados dos testes de cada paciente, que pode incluir tratamento para anemia, medicamentos anti-inflamatórios e até mesmo hormônios sexuais.
Ele também pretende continuar explorando as semelhanças entre os sintomas neurológicos da COVID longa e aqueles associados à infecção por HIV.