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Publicado el 23 de abril de 2026

Qualidade da dieta

Alimentos ultraprocessados e doenças crônicas

Classificação Nova, tendências globais e implicações para a saúde.

Autor/a: Monteiro, C. et al.

Fuente: The Lancet, 2025; 406, 2667-2684

Introdução

Um comentário publicado em 2009 e publicações subsequentes propuseram que o processamento industrial de alimentos passou por mudanças substanciais, deixando de ter como principal objetivo a conservação e o preparo culinário para se concentrar na criação de substitutos industriais de pratos e refeições em busca de maiores lucros.

Esse processo foi impulsionado por novas tecnologias e pela expansão global da indústria alimentícia, em paralelo ao aumento mundial da obesidade e de outras doenças crônicas relacionadas à alimentação. Nesse contexto, foi desenvolvido o sistema de classificação Nova, que categoriza os alimentos segundo a extensão e a finalidade do processamento, destacando os alimentos ultraprocessados (AUPs) como formulações industriais com pouco ou nenhum alimento integral.

Estudos anteriores formularam três hipóteses centrais sobre o padrão alimentar ultraprocessado: a substituição de padrões alimentares tradicionais, a deterioração da qualidade da dieta e o aumento do risco de doenças crônicas por diferentes mecanismos. Com base nessas hipóteses, Monteiro e colaboradores (2025) revisaram criticamente as evidências que sustentam a tese de que os AUPs são um dos principais determinantes da carga global de doenças relacionadas à dieta.

O sistema de classificação Nova

Define o processamento industrial de alimentos como o conjunto de métodos físicos, biológicos e químicos aplicados aos alimentos após a colheita e os classifica, conforme a extensão e a finalidade desse processamento, em quatro grupos: alimentos in natura ou minimamente processados; ingredientes culinários processados; alimentos processados; e AUPs.

Análises de inquéritos alimentares em 36 países mostraram que a participação dos AUPs na dieta varia amplamente, de 9% a 60% da ingestão energética, correlacionando-se com a riqueza nacional e sendo influenciada por fatores culturais e dos sistemas alimentares. Dentro dos países, o consumo de AUP reflete a distribuição socioeconômica da obesidade, sugerindo que esses produtos afetam inicialmente populações mais ricas antes de se disseminarem para grupos de menor renda.

Tendências temporais globais

O consumo de AUPs tem aumentado de forma consistente em escala global nas últimas décadas. Evidências indicaram crescimento significativo da participação energética e das vendas per capita desses alimentos, especialmente em países de baixa e média renda. Em nações como Espanha, Canadá, México, Brasil, Argentina, China e Coreia do Sul, a contribuição dos AUPs triplicou ou mais que dobrou ao longo de décadas. Já em países de alta renda, como Estados Unidos e Reino Unido, onde o consumo já era elevado, observou-se relativa estabilização.

Entre 2007 e 2022, as vendas per capita de AUPs aumentaram em praticamente todas as regiões do mundo, com destaque para África, Ásia e América Latina, impulsionadas pelo crescimento de todos os seus subgrupos.

Efeitos sobre a qualidade da dieta e risco de doenças crônicas

Evidências indicaram que dietas com maior participação de AUPs apresentam pior qualidade nutricional, associando-se a maior ingestão energética, maior densidade calórica e maiores teores de açúcares livres, gorduras totais e saturadas, além de menor ingestão de fibras, proteínas, micronutrientes e fitoquímicos protetores provenientes de frutas, legumes e leguminosas.

Estudos experimentais demonstraram que essas dietas levam ao consumo energético excessivo e ganho de peso, mesmo quando comparadas a dietas nutricionalmente equivalentes, efeito atribuído à elevada hiperpalatabilidade, à rápida ingestão, à alta densidade energética e às alterações na matriz alimentar.

Revisões sistemáticas e meta‑análises mostraram associações positivas com excesso de peso e obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemias, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, doença renal crônica, depressão, doença de Crohn e maior mortalidade por todas as causas, independentemente de fatores sociodemográficos, estilo de vida e qualidade global da dieta.

Evidências mecanicistas sugeriram que esses efeitos não se explicam apenas pelo perfil nutricional, envolvendo também maior exposição a aditivos alimentares e contaminantes do processamento, redução de compostos bioativos protetores e ativação de vias inflamatórias, metabólicas e hepatorrenais.

Conclusão

O conjunto de evidências sustentou as três hipóteses centrais e apoiou a tese de que a substituição de padrões alimentares tradicionais por AUPs é um dos principais fatores associados ao aumento global das doenças crônicas. Dados globais mostraram a expansão do consumo de alimentos ultraprocessados, sobretudo em países de baixa e média renda, associada à piora da qualidade da dieta e ao aumento do risco de obesidade, doenças crônicas e mortalidade por todas as causas. Diante desse cenário, ações de saúde pública que promovam alimentos in natura ou minimamente processados e desencorajem o consumo de AUPs são urgentes e não devem ser adiadas.


Fonte: Ultra-processed foods and human health: the main thesis and the evidence - The Lancet