Artículos

Publicado el 13 de agosto de 2026

Alimentos ultraprocessados

Além dos nutrientes tradicionais: Por que o processamento industrial de alimentos é um fator de risco clínico independente?

Estudos observacionais revelaram que os danos fisiológicos dos alimentos ultraprocessados à saúde não são explicados apenas por teores elevados de sódio, açúcar ou gordura saturada, mas sim por mecanismos intrínsecos ao processo de fabricação industrial.

Autor/a: HATTA-LANGEDYK, Juna; WANG, Lu; FAN, Bingbing; SHI, Peilin; MOZAFFARIAN, Dariush.

Fuente: American Journal of Public Health, v. 116, n. 7, p. 1015-1024, 2026. Ultraprocessed Food Versus Diet Quality in Relation to Cardiometabolic Health and All-Cause Mortality: NHANES 1999–2018.

Os riscos potenciais que os alimentos ultraprocessados (AUPs) impõem à saúde têm atraído forte atenção pública e política, embasados em um corpo crescente de evidências que associam o consumo de AUPs a desfechos clínicos adversos. No cenário epidemiológico contemporâneo, compreender em profundidade esses efeitos é de extrema relevância, considerando que esses alimentos são responsáveis por fornecer aproximadamente 53% da energia diária total consumida por adultos e 62% da energia consumida por crianças.

Apesar dessas evidências, persiste um debate científico sobre a real relevância e a independência dos malefícios causados pelo ultraprocessamento per se. Questiona-se se os danos à saúde observados decorrem de forma independente do processo de fabricação industrial ou se são explicados puramente pelo perfil nutricional desfavorável de tais alimentos. Caso essa última seja a única explicação para os prejuízos à saúde, as estratégias de saúde deveriam permanecer focadas nas metas de nutrientes específicos, tornando o conceito de AUP uma distração para os esforços regulatórios e assistenciais.

Por outro lado, propõe-se que outras características intrínsecas aos AUPs também desencadeiam processos fisiopatológicos prejudiciais que não são capturados pelas métricas tradicionais focadas apenas em nutrientes. Entre estes, destacam-se a perda da estrutura celular natural da matriz alimentar, a redução drástica de polifenóis e outros compostos bioativos, a presença sistemática de aditivos e a migração de substâncias contaminantes químicas presentes nas embalagens. Embora o perfil nutricional seja reconhecido como parte indissociável dos mecanismos, permanece incerto se o processamento industrial acarreta prejuízos que independem da qualidade nutricional dos alimentos ingeridos.

Diante dessa lacuna, Hatta-Langedyk et al., (2026) investigaram a relação entre o consumo de AUPs, fatores de risco cardiometabólicos, prevalência de condições crônicas e mortalidade por todas as causas utilizando dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). A análise avaliou essas correlações com e sem ajuste para diversos componentes de qualidade nutricional. Os pesquisadores examinaram também subtipos específicos de AUPs (como bebidas açucaradas e carnes processadas) e subgrupos da população, partindo da hipótese de que o ajuste para a qualidade nutricional atenuaria, mas não eliminaria totalmente, o impacto clínico do consumo de ultraprocessados.

Para isso, os pesquisadores conduziram uma análise epidemiológica robusta utilizando dados de 47.999 adultos com idades entre 20 e 85 anos, coletados do NHANES. As associações entre o consumo de AUPs e os fatores de risco cardiometabólicos ou doenças prevalentes foram avaliadas sob um delineamento transversal. Em contrapartida, a associação com a mortalidade por todas as causas foi investigada de forma prospectiva, utilizando o acoplamento de dados com o National Death Index até o final de 2018.

A ingestão alimentar diária foi estimada por meio de recordatórios alimentares de 24 horas, e os alimentos consumidos foram categorizados segundo o sistema Nova de classificação, isolando-se também subgrupos de interesse clínico como bebidas açucaradas e carnes processadas. Para avaliar a qualidade nutricional da dieta de forma independente do grau de processamento industrial, os autores utilizaram uma versão modificada do sistema Food Compass 2.0. Foram removidos os parâmetros de classificação Nova e de aditivos artificiais do escore original para calcular o Escore de Bússola Alimentar individual (i.FCS) de cada participante puramente com base no perfil de nutrientes.

Os desfechos clínicos analisados de forma transversal englobaram parâmetros cardiometabólicos contínuos, como índice de massa corporal, pressão arterial, perfil lipídico e glicemia, além de condições crônicas prevalentes, como síndrome metabólica, diabetes, doença cardiovascular, câncer e pneumopatias, e critérios de saúde cardiometabólica ótima. As análises estatísticas transversais utilizaram regressões lineares e logísticas ponderadas. Para a mortalidade prospectiva, aplicaram-se modelos de riscos proporcionais de Cox. Todos os modelos contaram com ajustes para fatores sociodemográficos, hábitos de vida e diabetes na linha de base. Para quantificar a independência do processamento frente à qualidade da dieta, as razões de risco e de chances do consumo de AUPs (avaliadas a cada incremento de 10% na energia diária) foram comparadas antes e após o ajuste multivariável pelo escore i.FCS.

A análise descritiva revelou que, entre os 47.999 adultos americanos avaliados, os participantes com maior consumo de AUPs eram majoritariamente mais jovens, autodeclarados brancos ou negros não hispânicos, fumantes ativos, apresentavam menor nível de escolaridade e menor renda familiar, além de consumirem uma quantidade de calorias diárias totais substancialmente mais elevada e demonstrarem maior atividade física. No que concerne aos parâmetros biológicos e fatores de risco cardiometabólicos avaliados de forma transversal, cada incremento de 10% no consumo de energia proveniente de AUPs associou-se significativamente a:

·       maior índice de massa corporal,

·       níveis mais elevados de hemoglobina glicada (HbA1c),

·       maior pressão arterial diastólica,

·       maior razão colesterol total/HDL-C,

·       e menor nível de colesterol HDL.

Não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre o consumo geral de AUPs e a pressão arterial sistólica, triglicerídeos, colesterol LDL ou glicemia de jejum na análise não ajustada para perfil nutricional.

No âmbito epidemiológico, o consumo elevado de AUPs correlacionou-se a uma maior prevalência de síndrome metabólica, diabetes, doença cardiovascular, câncer e doenças pneumológicas, além de estar associado a uma menor probabilidade de os indivíduos apresentarem uma saúde cardiometabólica ótima.

O grande diferencial metodológico do estudo residiu no reajuste analítico pelo i.FCS, visando isolar o efeito do processamento em detrimento da mera qualidade nutricional da dieta. Após este ajuste de confusão, observou-se que a maioria das associações adversas dos AUPs foi apenas parcialmente atenuada, mantendo significância estatística. Especificamente, a força da associação dos AUPs com o IMC reduziu-se em 16,7%, com a pressão diastólica em 84,6%, com o colesterol HDL em 81,1%, com a síndrome metabólica em 27,9%, com a doença cardiovascular em 39,4% e com a saúde cardiometabólica ideal em 43,7%. De forma notável, a associação com o diagnóstico de diabetes prevalente foi intensificada em 65,1% após a inclusão do i.FCS no modelo estatístico. Além disso, a associação dos AUPs com a razão colesterol total/HDL foi revertida, tornando-se uma associação inversa protetora, ao mesmo tempo em que surgiu uma associação inversa significativa com o colesterol LDL. No tocante à prevalência de câncer e de doenças pneumológicas, não foram observadas atenuações ou modificações apreciáveis após o controle pelo perfil de qualidade dietética.

Paralelamente, os autores demonstraram que os ajustes individuais em modelos de mediação para gordura saturada, açúcar adicionado ou sódio isoladamente não exerceram impacto consistente na atenuação das associações observadas com os AUPs, mantendo-as amplamente significativas.

No acompanhamento prospectivo de mortalidade, foram documentados 7.481 óbitos totais, sendo 2.619 atribuídos a causas cardiometabólicas e 1.691 decorrentes de neoplasias. Cada incremento de 10% no consumo calórico diário proveniente de alimentos ultraprocessados associou-se a um risco 4% maior de mortalidade por todas as causas. Com a incorporação do i.FCS nos modelos de Cox, o risco relativo geral de óbito reduziu-se em 24,6%, porém persistiu estatisticamente significativo. As análises direcionais para mortalidade específica por desfechos cardiometabólicos ou por câncer mostraram tendências semelhantes, mas não alcançaram significância estatística isoladamente.

Em relação aos tipos de alimentos industrializados, cada 10% de energia proveniente do consumo de bebidas açucaradas correlacionou-se a piores parâmetros antropométricos e pressóricos, pior perfil lipídico e glicêmico, além de maior prevalência de síndrome metabólica, doença cardiovascular, câncer e pneumopatias. No modelo prospectivo, essas bebidas estiveram fortemente associadas ao aumento da mortalidade geral, cardiometabólica e por câncer.

A subcategoria de carnes processadas exibiu nítidas associações transversais com maior IMC, elevação pressórica, piora da glicemia de jejum, além de maior incidência de síndrome metabólica e diabetes, sem que o ajuste para o i.FCS removesse a associação com o diabetes. Entretanto, essa categoria não demonstrou relação estatisticamente significativa com desfechos de mortalidade. Os demais alimentos ultraprocessados agrupados correlacionaram-se transversalmente a pior saúde cardiometabólica geral e a um aumento real de 3% no risco de morte por todas as causas, mantendo-se estatisticamente relevante mesmo após o controle pelo escore i.FCS.

Por fim, as correlações com a mortalidade geral mantiveram-se consistentes em quase todos os recortes de subgrupos populacionais, com uma única e relevante exceção determinada pelo nível de renda familiar. É altamente plausível que indivíduos de baixo poder aquisitivo consumam produtos ultraprocessados de perfil químico e estrutural significativamente mais nocivo, devido a restrições de custo, barreiras de acesso geográfico a alimentos frescos, menor tempo para compras e preparo, além de potenciais limitações no letramento em saúde e nutrição.

Sendo assim, os resultados demonstraram de forma consistente que o consumo de AUPs foi associado a perfis de risco cardiometabólico adversos, maior prevalência de doenças crônicas e aumento da mortalidade por todas as causas. O achado central de que o ajuste estatístico para a qualidade nutricional global da dieta (por meio do escore i.FCS) atenuou apenas parcialmente essas associações indica que as métricas nutricionais convencionais falharam em capturar a totalidade dos danos à saúde provocados pelo ultraprocessamento industrial. Ademais, o fato de o ajuste isolado para nutrientes críticos de interesse ter demonstrado um impacto mínimo e inconsistente na atenuação do risco reforça a hipótese de que esses componentes tradicionais não atuam como os principais mediadores dos desfechos clínicos negativos relacionados aos AUPs.

Do ponto de vista fisiopatológico, os efeitos deletérios dos AUPs parecem decorrer de múltiplos e complexos mecanismos complementares. Além do perfil desfavorável de macronutrientes, a literatura científica aponta outros fatores críticos inerentes ao processamento industrial. Entre eles, destaca-se a perda da integridade celular natural e da matriz do alimento, o que acelera a velocidade de digestão no estômago e no intestino delgado, prejudicando o aporte de substratos nutritivos necessários para a microbiota intestinal saudável. Adicionalmente, contribuem para esse cenário a redução acentuada de fibras alimentares, polifenóis e outros compostos bioativos, bem como a ampla introdução de aditivos químicos e conservantes. Há ainda o risco de exposição a neo-contaminantes químicos gerados pelas elevadas temperaturas e múltiplos estágios de processamento industrial e a migração de substâncias tóxicas oriundas das embalagens plásticas e industriais. Essa multiplicidade de vias patogênicas corrobora a utilidade da classificação Nova de processamento para além do perfil clássico de macro e micronutrientes.