A obesidade é uma doença crônica complexa cujos efeitos patológicos e fisiológicos transcendem significativamente a simples elevação do peso corporal. O acúmulo de tecido adiposo acarreta prejuízos profundos em níveis teciduais, orgânicos e sistêmicos, afetando a saúde global do indivíduo. Clinicamente, esse cenário é de extrema relevância, pois pacientes que apresentam obesidade raramente manifestam a condição de maneira isolada. Embora as orientações de mudança no estilo de vida permaneçam como a base essencial do cuidado, elas costumam se mostrar insuficientes para mitigar o risco e tratar as comorbidades de pacientes que apresentam complicações orgânicas estabelecidas.
Diante dessa lacuna terapêutica, o advento das terapias baseadas em incretinas redefiniu radicalmente as possibilidades de tratamento. Originalmente desenvolvidos para o controle glicêmico no diabetes tipo 2, os agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1 RAs) demonstraram eficácia robusta ao mediar a secreção de insulina dependente de glicose, suprimir a secreção inadequada de glucagon, retardar o esvaziamento gástrico e modular vias centrais associadas ao apetite e à ingestão alimentar. Mais recentemente, essa classe farmacológica consolidou-se no centro do tratamento farmacológico da obesidade, um campo expandido pela introdução da tirzepatida, um coagonista duplo dos receptores do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do GLP-1, que é capaz de produzir reduções ponderais e melhorias glicêmicas substanciais.
A evolução das evidências clínicas que corroboram o uso desses fármacos tem avançado em ritmo acelerado. Estudos clínicos demonstraram reduções de peso corporal altamente significativas com o uso semanal de semaglutida na dose de 2,4 mg ou de tirzepatida nas dosagens de 5 mg, 10 mg e 15 mg. Ao mesmo tempo, dados provenientes de estudos de descontinuação e manutenção reforçaram a necessidade de terapia contínua e de longo prazo para preservar as melhorias cardiometabólicas alcançadas, visto que a suspensão do tratamento tipicamente resulta em recuperação substancial do peso.
Recentemente, estudos validaram a utilidade clínica de terapias incretínicas no tratamento de complicações graves ligadas à adiposidade disfuncional, 6incluindo a insuficiência cardíaca com fração de seção preservada (ICFEP), a doença renal crônica, a esteatohepatite associada à disfunção metabólica (MASH) e a apneia obstrutiva do sono (AOS). Nesse contexto, Joshi (2026) realizou uma revisão para abordar como as terapias baseadas em incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, evoluíram de simples tratamentos para diabetes e perda de peso para intervenções que modificam doenças em diversos órgãos.
| Bases mecanísticas para benefícios além da perda de peso |
Os benefícios clínicos associados às terapias baseadas em incretinas superam o que seria esperado unicamente a partir de uma redução na ingestão calórica. Os GLP-1 RAs desempenham suas ações biológicas por meio de múltiplos sistemas, envolvendo vias pancreáticas, gastrointestinais, neurais e, possivelmente, renais e cardiovasculares. Em termos pancreáticos, esses agentes regulam a secreção de insulina de forma dependente de glicose e atenuam a liberação inadequada de glucagon, enquanto suas ações neurais centrais e gastrointestinais atuam de forma coordenada para diminuir o apetite, reduzir o tamanho das refeições, limitar a recompensa alimentar e diminuir a ingestão energética total.
Uma questão de grande relevância clínica consiste em determinar em que medida esses benefícios orgânicos decorrem diretamente do emagrecimento ou de efeitos intrínsecos do medicamento. As evidências científicas apontaram para um panorama misto. Certos desfechos benéficos parecem ser predominantemente mediados pela perda ponderal, o que inclui as melhorias observadas na ICFEP, MASH e AOS. Por outro lado, há repercussões clínicas que sugerem ações cardiovasculares e renais diretas e independentes da perda ponderal, como a redução significativa de eventos cardiovasculares maiores demonstrada em indivíduos obesos sem diabetes e as melhorias consistentes na albuminúria e no risco cardiorrenal global.
Sob a perspectiva fisiológica, a perda de adiposidade visceral promove melhorias indiretas cruciais em nível sistêmico, minimizando a resistência à insulina, reduzindo a pressão arterial, mitigando a inflamação de baixo grau, diminuindo o acúmulo de gordura no parênquima hepático, otimizando as condições de carga ventricular e melhorando as propriedades mecânicas das vias aéreas superiores. No entanto, a atividade protetora dessas terapias é mais complexa, englobando também impactos diretos na inflamação de caráter vascular, na função endotelial, no estímulo à natriurese, na redução da albuminúria e na própria biologia das placas ateroscleróticas.
| Redução do peso e manutenção |
O estudo STEP 1, que avaliou o uso da semaglutida semanal na dose de 2,4 mg, demonstrou que ao final de 68 semanas, o grupo da intervenção registrou uma redução média de peso corporal de 14,9%, enquanto o placebo obteve uma redução de apenas 2,4%, fornecendo evidências robustas sobre a viabilidade de alcançar perdas de peso clinicamente significativas por vias farmacológicas. Aumentando ainda mais o patamar de eficácia ponderal, o estudo SURMOUNT-1 avaliou a tirzepatida em adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, evidenciando uma variação de peso corporal em 72 semanas de -15,0%, -19,5% e -20,9% para as doses de 5 mg, 10 mg e 15 mg, respectivamente, frente a uma redução de apenas 3,1% observada no braço placebo.
A durabilidade a longo prazo dessas reduções ponderais assume papel crítico na condução clínica, uma vez que a obesidade é uma patologia crônica e a recuperação do peso após a suspensão da medicação é altamente prevalente. No estudo de extensão do ensaio STEP 1, a descontinuação da semaglutida levou a uma recuperação substancial do peso corporal perdido e à reversão parcial de diversos benefícios cardiometabólicos. De forma equivalente, o ensaio SURMOUNT-4 confirmou esse princípio biológico com a tirzepatida: pacientes que mantiveram o tratamento de forma contínua consolidaram e ampliaram a perda de peso original, enquanto aqueles que foram submetidos à substituição do fármaco ativo por placebo voltaram a ganhar peso.
Estes dados devem nortear diretamente a abordagem e o aconselhamento médico no consultório. A terapia incretínica não deve ser explicada ou sugerida como um tratamento de curta duração voltado a redefinir temporariamente o ponto de equilíbrio ponderal do organismo. Para uma parcela significativa de indivíduos, especialmente aqueles acometidos por comorbidades e lesões orgânicas relacionadas à adiposidade disfuncional, o tratamento precisará ser estruturado em longo prazo. Essa realidade implica em novos desafios referentes a custos financeiros, logística de abastecimento, vigilância de segurança e acompanhamento das expectativas dos pacientes. Fica claro, portanto, que a prescrição de farmacoterapia deve estar obrigatoriamente associada a uma base multidisciplinar contínua, contemplando suporte nutricional, treinamento de resistência física para atenuação da perda de massa magra, estratégias de intervenção comportamental e o tratamento otimizado das condições de saúde associadas.
Os benefícios cardiovasculares dos GLP-1 RAs foram inicialmente demonstrados em ensaios clínicos voltados a indivíduos com diabetes mellitus tipo 2. No estudo LEADER, a liraglutida reduziu significativamente os eventos cardiovasculares maiores em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. De maneira análoga, o estudo SUSTAIN-6 comprovou que a semaglutida reduziu desfechos cardiovasculares adversos nessa mesma população. Posteriormente, uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados reforçou a eficácia geral dessa classe de medicamentos na redução da mortalidade cardiovascular e de desfechos renais em pacientes diabéticos.
Essa trajetória científica passou por uma importante quebra de paradigma com a publicação do estudo SELECT. Este ensaio avaliou o uso da semaglutida na dose semanal de 2,4 mg especificamente em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, mas sem diabetes. Os resultados demonstraram que o fármaco reduziu o risco do desfecho composto de morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal em comparação ao placebo. Este achado foi de extrema relevância clínica, pois evidenciou que a substância reduziu eventos cardiovasculares em uma população selecionada pela presença de excesso de adiposidade e doença cardiovascular pré-existente, sem depender do estado de hiperglicemia.
Os mecanismos subjacentes a essa cardioproteção são provavelmente mistos e envolvem vias dependentes e independentes da redução de peso. Por um lado, o emagrecimento induz melhorias na pressão arterial, na resistência à insulina, na carga inflamatória sistêmica e no perfil lipídico. Por outro lado, os agonistas de GLP-1 também exercem ações diretas na inflamação vascular, na função endotelial, na albuminúria e na biologia das placas ateroscleróticas. Na prática, os pacientes com doença cardiovascular e excesso de adiposidade podem colher benefícios que vão muito além da perda de peso isolada.
Importa destacar que o uso de terapias incretínicas não substitui as estratégias de prevenção cardiovascular já consagradas, como o controle de lipídios com estatinas, controle de pressão arterial, cessação do tabagismo, terapia antiplaquetária, manejo do diabetes e modificações do estilo de vida. O papel emergente da semaglutida consolida-se como uma terapia complementar para pacientes cujo risco cardiovascular está intimamente associado ao excesso de adiposidade.
| Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada (ICFEP) |
A ICFEP é uma síndrome na qual a obesidade frequentemente atua como um fator patogênico central, e não como mera comorbidade. Esse fenótipo de ICFEP associada à obesidade é caracterizado por um aumento do volume plasmático, inflamação sistêmica de baixo grau, resistência insulínica, deposição excessiva de gordura visceral e epicárdica, além de prejuízo na reserva de exercício e uma elevada carga de sintomas limitantes. Essa estreita relação fisiopatológica fornece uma justificativa clínica robusta para intervenções terapêuticas que tenham como alvo direto a adiposidade.
O estudo STEP-HFpEF forneceu dados clínicos pioneiros ao demonstrar que a semaglutida na dose de 2,4 mg semanal melhorou significativamente os sintomas relacionados à insuficiência cardíaca, as limitações físicas, a função de exercício, a inflamação e o peso corporal em indivíduos com obesidade e ICFEP, em comparação ao placebo. Após 52 semanas de acompanhamento, a variação média no escore de resumo clínico do Questionário de Cardiomiopatia de Kansas City (KCCQ) foi de 16,6 pontos com a semaglutida frente a 8,7 pontos com o grupo placebo. Adicionalmente, o grupo intervenção obteve uma redução média de peso corporal de 13,3% contra 2,6% no grupo placebo, acompanhada por melhoras no teste de caminhada de seis minutos e reduções acentuadas na proteína C-reativa. O estudo subsequente STEP-HFpEF DM expandiu essas observações para pacientes com obesidade, ICFEP e diabetes tipo 2, demonstrando melhoras semelhantes em sintomas, limitações físicas, exercício e peso.
A tirzepatida também demonstrou eficácia robusta no manejo da insuficiência cardíaca relacionada à obesidade. No estudo SUMMIT, conduzido em indivíduos com ICFEP e obesidade, a substância reduziu significativamente o risco do desfecho composto por morte cardiovascular ou agravamento da insuficiência cardíaca, além de proporcionar melhorias robustas no estado de saúde geral dos pacientes. A melhora reportada no escore KCCQ às 52 semanas foi de 19,5 pontos com o uso da tirzepatida em comparação a 12,7 pontos com placebo. Os desfechos secundários corroboraram ainda melhorias substanciais no peso corporal, na distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos e nos marcadores inflamatórios.
A análise desses achados sugeriu que, embora os benefícios sejam parcialmente mediados pela perda de peso, a terapia incretínica atua de forma mais ampla, modificando diretamente o fenótipo inflamatório, hemodinâmico e funcional da ICFEP associada à obesidade.
Todavia, o manejo clínico desses pacientes deve permanecer estreitamente integrado ao arsenal clássico da ICFEP. O uso de diuréticos, inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2), controle da fibrilação atrial, controle pressórico, reabilitação física supervisionada e tratamento adequado de AOS continuam sendo pilares indispensáveis de cuidado. A terapia incretínica adiciona uma opção direcionada e de grande valor prático, mas não remove a necessidade de uma abordagem integrada e abrangente para a insuficiência cardíaca.
A doença renal crônica (DRC) no contexto do diabetes mellitus tipo 2 está diretamente associada a taxas expressivas de eventos cardiovasculares adversos, progressão para falência renal e aumento da mortalidade global. Embora os GLP-1 RAs já tivessem demonstrado sinais altamente favoráveis em relação à redução da albuminúria e a desfechos renais secundários em análises de ensaios clínicos anteriores, a prática clínica ainda carecia de dados robustos provenientes de um estudo desenhado especificamente para avaliar desfechos renais primários.
O estudo FLOW forneceu essa evidência ao comprovar que o uso semanal de semaglutida na dose de 1,0 mg em pacientes portadores de diabetes tipo 2 e DRC reduziu de forma significativa os desfechos renais clinicamente importantes, bem como a mortalidade por causas cardiovasculares em comparação ao placebo. Esses achados consolidaram a posição da semaglutida como uma terapia eficaz na redução do risco cardiorrenal nessa população de alta complexidade clínica.
Em contrapartida, atualmente, as evidências de proteção renal associadas à tirzepatida são menos maduras. Em uma análise exploratória post hoc do ensaio clínico SURPASS-4, conduzido em pacientes com diabetes tipo 2 e risco cardiovascular elevado, a substância foi associada a uma taxa de declínio mais lenta da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e a uma menor ocorrência de um desfecho composto renal em comparação ao uso de insulina glargina. Contudo, é fundamental destacar que o estudo não foi um ensaio clínico dedicado exclusivamente a avaliar desfechos primários de doença renal crônica. Portanto, embora os dados referentes à tirzepatida tragam suporte clínico relevante, eles devem ser interpretados como menos definitivos do que as evidências geradas pelo estudo de desfecho renal da semaglutida.
Do ponto de vista fisiopatológico, os múltiplos benefícios renais das terapias baseadas em incretinas parecem decorrer de um conjunto de fatores integrados. Os mecanismos propostos envolvem a melhoria do controle glicêmico, a perda de peso corporal, a redução dos níveis de pressão arterial, a diminuição direta da albuminúria, efeitos anti-inflamatórios sistêmicos e potenciais ações diretas sobre o parênquima renal. Na realidade, é improvável que um único mecanismo isolado explique todas as melhorias observadas. De fato, para o argumento clínico central, a proteção renal parece refletir uma combinação sinérgica de melhorias metabólicas, hemodinâmicas, anti-inflamatórias e possíveis vias renais diretas, em vez de ser puramente mediada pela perda de peso isolada.
| Esteato-hepatite Associada à Disfunção Metabólica (MASH) |
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) está intimamente correlacionada a fatores como obesidade, resistência à insulina, dislipidemia e diabetes mellitus tipo 2. Diretrizes enquadram a condição como uma doença hepática de natureza cardiometabólica e enfatizam a necessidade de uma triagem diagnóstica ativa para a detecção de fibrose em indivíduos que apresentem fatores de risco cardiometabólicos, sobretudo aqueles com obesidade ou diabetes tipo 2. A MASH representa o estágio inflamatório e progressivo desse espectro de doenças hepáticas, desempenhando papel crucial na progressão clínica para fibrose avançada, cirrose, insuficiência hepática, carcinoma hepatocelular e óbito relacionado ao fígado. Dado que a redução significativa de peso corporal é capaz de melhorar tanto a esteatose quanto a própria inflamação hepática, as terapias baseadas em incretinas configuram-se como intervenções biologicamente plausíveis e muito promissoras no arsenal terapêutico.
Nesse cenário, a tirzepatida demonstrou benefícios histológicos de grande relevância no estudo SYNERGY-NASH, que avaliou pacientes diagnosticados com MASH e fibrose de grau moderado ou grave tratados durante 52 semanas. Os resultados evidenciaram que a substância foi significativamente superior ao placebo em atingir a resolução histológica da MASH sem que ocorresse a piora clínica da fibrose hepática. Esse resultado indicou que a dupla estimulação dos receptores de GIP e de GLP-1 atua reduzindo de forma expressiva a inflamação hepática e a lesão metabólica no órgão, provavelmente por meio de uma combinação favorável de perda de peso, melhora substancial da sensibilidade à insulina e redução do acúmulo de gordura no parênquima hepático.
Paralelamente, o uso de semaglutida também obteve progressos marcantes no tratamento da MASH. No ensaio clínico de fase 3 ESSENCE, o tratamento com semaglutida na dose semanal de 2,4 mg demonstrou melhoras robustas em desfechos histológicos críticos, os quais incluíram tanto a resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose quanto a redução da fibrose hepática sem o agravamento da esteato-hepatite. Esses dados reforçaram o papel das terapias incretínicas na modificação ativa da biologia da doença hepática inflamatória.
Apesar do otimismo clínico com essa área em rápida evolução, os médicos devem manter a cautela. Embora os desfechos histológicos avaliados nos estudos de fase 3 sirvam como importantes marcadores substitutos, desfechos clínicos consolidados de longo prazo ainda demandam um maior tempo de acompanhamento clínico. Além disso, a conduta na MASH não deve ser isolada das demais metas de saúde do paciente, exigindo uma abordagem de redução de risco metabólico global que envolva o controle rigoroso do diabetes, o manejo otimizado de dislipidemias, a avaliação do consumo de álcool, o monitoramento periódico da fibrose hepática e estratégias preventivas de cunho cardiovascular. As terapias incretínicas surgem como pilares centrais e de grande utilidade prática no cuidado da MASH, mas devem atuar integradas às prioridades mais amplas de saúde cardiometabólica do paciente.
| Apneia obstrutiva do sono |
A AOS é uma condição altamente prevalente em adultos com obesidade. Historicamente, o manejo do peso corporal sempre foi considerado um pilar baseado em evidências no tratamento de adultos com sobrepeso ou obesidade acometidos por AOS, atuando de maneira complementar às terapias padrão, que incluem a pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), dispositivos de avanço mandibular, terapia posicional e intervenções cirúrgicas selecionadas. Contudo, até recentemente, as opções farmacológicas direcionadas especificamente para a AOS relacionada à obesidade eram extremamente escassas.
Nesse cenário clínico, o estudo SURMOUNT-OSA trouxe contribuições pioneiras ao avaliar o uso da tirzepatida em adultos que apresentavam obesidade e AOS de intensidade moderada a grave. Os achados demonstraram que a substância reduziu significativamente o índice de apneia-hipopneia (IAH), o peso corporal, a carga hipóxica, as concentrações de proteína C-reativa de alta sensibilidade e a pressão arterial sistólica, além de promover uma melhora expressiva nos desfechos relatados pelos próprios pacientes no que tange à qualidade do sono. Esses resultados foram fundamentais para a posterior chancela regulatória da tirzepatida como uma alternativa farmacológica para o tratamento da AOS moderada a grave nessa população de pacientes.
Outras terapias incretínicas também demonstram relevância clínica por meio de sua capacidade de indução de perda ponderal. Por exemplo, a liraglutida na dose de 3,0 mg demonstrou redução do IAH em comparação ao placebo no estudo SCALE Sleep Apnea. Entretanto, a semaglutida ainda não dispõe de dados comparáveis em ensaios clínicos de fase 3 voltados especificamente para desfechos de apneia obstrutiva do sono.
O mecanismo que esses medicamentos agem é principalmente através do excesso de adiposidade. A redução do tecido adiposo é capaz de mitigar a colapsabilidade das vias aéreas superiores, otimizar os volumes pulmonares, atenuar o deslocamento de fluidos em direção rostral e diminuir o estresse inflamatório e cardiometabólico do paciente. No entanto, os prescritores devem compreender que o tratamento farmacológico não deve ser encarado como um substituto universal para o uso do CPAP. Para uma parcela expressiva de pacientes, em especial aqueles que mantêm doença residual moderada a grave, hipoxemia noturna severa ou elevado risco cardiovascular, a manutenção do suporte ventilatório contínuo com dispositivos pressóricos continuará sendo necessária.
Os eventos adversos da increatinas relatados com maior frequência são de natureza gastrointestinal, englobando náuseas, vômitos, diarreia, constipação, desconforto abdominal e redução do apetite, ocorrendo predominantemente durante as fases de escalonamento de dose. Embora a intensidade desses sintomas varie geralmente de leve a moderada, eles exercem um impacto na adesão ao tratamento e representam causas frequentes de descontinuação farmacológica. Estratégias como a titulação gradual e lenta da dose, orientações dietéticas específicas, aconselhamento sobre hidratação adequada e revisões clínicas constituem ferramentas práticas essenciais para otimizar a tolerabilidade e a manutenção do paciente no tratamento.
Além disso, distúrbios das vias biliares e da vesícula biliar demandam atenção e aconselhamento clínico proativo. Dados provenientes de revisões sistemáticas e meta-análises revelaram que a utilização de agonistas de receptores de GLP-1 está associada a um risco aumentado de doenças biliares e da vesícula biliar, sobretudo quando em uso de doses mais elevadas, por períodos prolongados de tratamento ou quando aplicados especificamente para a perda ponderal. Esse aumento de risco pode decorrer da própria velocidade da perda de peso, de alterações na motilidade da vesícula biliar induzidas pela droga, ou da convergência de ambos os fatores.
Adicionalmente, a pancreatite aguda figura como uma preocupação histórica associada a essa classe terapêutica. Embora a relação de causalidade direta ainda seja objeto de debate acadêmico, episódios de dor abdominal intensa e persistente com irradiação para o dorso, acompanhados ou não de vômitos, devem sempre motivar uma investigação clínica imediata.
Outro aspecto prático de alta relevância clínica envolve os cuidados perioperatórios. Devido à ação farmacológica dos agonistas de receptores de GLP-1 em retardar o esvaziamento gástrico, surgem preocupações pertinentes quanto à presença de resíduos alimentares no estômago e ao consequente risco de aspiração pulmonar durante procedimentos que necessitem de anestesia geral ou sedação profunda. Conselhos e diretrizes de múltiplas sociedades médicas recomendaram a realização de avaliações de risco altamente individualizadas para esses pacientes, dedicando atenção especial àqueles em fase ativa de titulação de dose, com sintomas gastrointestinais persistentes ou portadores de outras condições clínicas predisponentes ao retardo do esvaziamento gástrico.
O planejamento reprodutivo e a gestação também requerem aconselhamento específico de alta relevância nas consultas médicas. As informações de prescrição da semaglutida recomendam fortemente a descontinuação prévia do medicamento antes de uma gravidez planejada, ao passo que as diretrizes da tirzepatida orientam a suspensão imediata da terapia assim que a gestação for confirmada, ressaltando o princípio clínico de que a perda ponderal ativa não é recomendada durante o período gestacional.
Outra preocupação relevante no tratamento em longo prazo diz respeito à composição corporal, especificamente à perda de massa magra. Embora a perda de peso substancial acarrete uma redução desejável na massa gorda, ela frequentemente cursa com uma redução concomitante da massa magra. Esse fenômeno assume uma gravidade clínica particular em idosos, indivíduos com fragilidade física preestabelecida ou pacientes portadores de obesidade sarcopênica. Evidências científicas demonstram que a associação de intervenções dietéticas com programas de exercícios físicos estruturados desempenha papel crucial na melhora da função física e na preservação da integridade da massa muscular. Os médicos prescritores devem, portanto, recomendar a prática de exercícios, orientar para ingestão proteica adequada e monitorar continuamente seus pacientes, prevenindo que melhorias nos biomarcadores metabólicos ocorram às custas de declínio na força muscular ou agravamento da fragilidade.
Por fim, em pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2, o aprimoramento rápido do perfil glicêmico traz duas repercussões práticas imediatas. A primeira refere-se ao risco de hipoglicemia, o que frequentemente demanda a redução profilática e o ajuste cuidadoso das doses de insulinas ou de secretagogos de insulina (como as sulfonilureias) conforme o controle glicêmico e o aporte alimentar se modifiquem. A segunda diz respeito à evolução da retinopatia diabética. A melhora acentuada e abrupta da glicemia tem sido associada à piora transitória inicial da retinopatia em pacientes suscetíveis, sobretudo naqueles que apresentavam péssimo controle glicêmico basal e retinopatia pré-existente documentada. Nesses casos, o acompanhamento oftalmológico periódico e rigoroso deve ser instituído ao iniciar tratamentos potentes de redução glicêmica.
As terapias baseadas em incretinas ultrapassaram seu papel original como medicamentos para redução da glicose e perda de peso e estão se tornando cada vez mais relevantes no tratamento de doenças orgânicas relacionadas à obesidade. No entanto, a robustez das evidências varia conforme a condição clínica, e a contribuição relativa dos mecanismos dependentes e independentes da perda de peso ainda não está completamente esclarecida. Portanto, essas terapias devem ser incorporadas aos fluxos de cuidado de doenças crônicas para pacientes selecionados, com atenção criteriosa à seleção dos mesmos, tolerabilidade, necessidade de tratamento em longo prazo, monitoramento de segurança, custo, acesso e abordagem multidisciplinar do cuidado.
Publicado el 26 de agosto de 2026
Terapias baseadas em incretinas
Além da perda de peso: Terapias incretínicas na modificação de doenças orgânicas associadas à obesidade
Descubra as evidências científicas sobre o papel da semaglutida e da tirzepatida na modificação direta de doenças cardiovasculares, renais, hepáticas e da apneia obstrutiva do sono associadas à obesidade.
Autor/a: Devarsh Joshi
Fuente: Cureus, v. 18, n. 7, 2026 From Weight Loss to Organ-Specific Disease Modification: A Narrative Review of Incretin-Based Therapies in Obesity-Related Cardiometabolic Disease, Chronic Kidney Disease, Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis, and Obstructive Sleep Apnoea
A obesidade é uma doença crônica complexa cujos efeitos patológicos e fisiológicos transcendem significativamente a simples elevação do peso corporal. O acúmulo de tecido adiposo acarreta prejuízos profundos em níveis teciduais, orgânicos e sistêmicos, afetando a saúde global do indivíduo. Clinicamente, esse cenário é de extrema relevância, pois pacientes que apresentam obesidade raramente manifestam a condição de maneira isolada. Embora as orientações de mudança no estilo de vida permaneçam como a base essencial do cuidado, elas costumam se mostrar insuficientes para mitigar o risco e tratar as comorbidades de pacientes que apresentam complicações orgânicas estabelecidas.
Diante dessa lacuna terapêutica, o advento das terapias baseadas em incretinas redefiniu radicalmente as possibilidades de tratamento. Originalmente desenvolvidos para o controle glicêmico no diabetes tipo 2, os agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1 RAs) demonstraram eficácia robusta ao mediar a secreção de insulina dependente de glicose, suprimir a secreção inadequada de glucagon, retardar o esvaziamento gástrico e modular vias centrais associadas ao apetite e à ingestão alimentar. Mais recentemente, essa classe farmacológica consolidou-se no centro do tratamento farmacológico da obesidade, um campo expandido pela introdução da tirzepatida, um coagonista duplo dos receptores do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do GLP-1, que é capaz de produzir reduções ponderais e melhorias glicêmicas substanciais.
A evolução das evidências clínicas que corroboram o uso desses fármacos tem avançado em ritmo acelerado. Estudos clínicos demonstraram reduções de peso corporal altamente significativas com o uso semanal de semaglutida na dose de 2,4 mg ou de tirzepatida nas dosagens de 5 mg, 10 mg e 15 mg. Ao mesmo tempo, dados provenientes de estudos de descontinuação e manutenção reforçaram a necessidade de terapia contínua e de longo prazo para preservar as melhorias cardiometabólicas alcançadas, visto que a suspensão do tratamento tipicamente resulta em recuperação substancial do peso.
Recentemente, estudos validaram a utilidade clínica de terapias incretínicas no tratamento de complicações graves ligadas à adiposidade disfuncional, 6incluindo a insuficiência cardíaca com fração de seção preservada (ICFEP), a doença renal crônica, a esteatohepatite associada à disfunção metabólica (MASH) e a apneia obstrutiva do sono (AOS). Nesse contexto, Joshi (2026) realizou uma revisão para abordar como as terapias baseadas em incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, evoluíram de simples tratamentos para diabetes e perda de peso para intervenções que modificam doenças em diversos órgãos.
Os benefícios clínicos associados às terapias baseadas em incretinas superam o que seria esperado unicamente a partir de uma redução na ingestão calórica. Os GLP-1 RAs desempenham suas ações biológicas por meio de múltiplos sistemas, envolvendo vias pancreáticas, gastrointestinais, neurais e, possivelmente, renais e cardiovasculares. Em termos pancreáticos, esses agentes regulam a secreção de insulina de forma dependente de glicose e atenuam a liberação inadequada de glucagon, enquanto suas ações neurais centrais e gastrointestinais atuam de forma coordenada para diminuir o apetite, reduzir o tamanho das refeições, limitar a recompensa alimentar e diminuir a ingestão energética total.
Uma questão de grande relevância clínica consiste em determinar em que medida esses benefícios orgânicos decorrem diretamente do emagrecimento ou de efeitos intrínsecos do medicamento. As evidências científicas apontaram para um panorama misto. Certos desfechos benéficos parecem ser predominantemente mediados pela perda ponderal, o que inclui as melhorias observadas na ICFEP, MASH e AOS. Por outro lado, há repercussões clínicas que sugerem ações cardiovasculares e renais diretas e independentes da perda ponderal, como a redução significativa de eventos cardiovasculares maiores demonstrada em indivíduos obesos sem diabetes e as melhorias consistentes na albuminúria e no risco cardiorrenal global.
Sob a perspectiva fisiológica, a perda de adiposidade visceral promove melhorias indiretas cruciais em nível sistêmico, minimizando a resistência à insulina, reduzindo a pressão arterial, mitigando a inflamação de baixo grau, diminuindo o acúmulo de gordura no parênquima hepático, otimizando as condições de carga ventricular e melhorando as propriedades mecânicas das vias aéreas superiores. No entanto, a atividade protetora dessas terapias é mais complexa, englobando também impactos diretos na inflamação de caráter vascular, na função endotelial, no estímulo à natriurese, na redução da albuminúria e na própria biologia das placas ateroscleróticas.
O estudo STEP 1, que avaliou o uso da semaglutida semanal na dose de 2,4 mg, demonstrou que ao final de 68 semanas, o grupo da intervenção registrou uma redução média de peso corporal de 14,9%, enquanto o placebo obteve uma redução de apenas 2,4%, fornecendo evidências robustas sobre a viabilidade de alcançar perdas de peso clinicamente significativas por vias farmacológicas. Aumentando ainda mais o patamar de eficácia ponderal, o estudo SURMOUNT-1 avaliou a tirzepatida em adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, evidenciando uma variação de peso corporal em 72 semanas de -15,0%, -19,5% e -20,9% para as doses de 5 mg, 10 mg e 15 mg, respectivamente, frente a uma redução de apenas 3,1% observada no braço placebo.
A durabilidade a longo prazo dessas reduções ponderais assume papel crítico na condução clínica, uma vez que a obesidade é uma patologia crônica e a recuperação do peso após a suspensão da medicação é altamente prevalente. No estudo de extensão do ensaio STEP 1, a descontinuação da semaglutida levou a uma recuperação substancial do peso corporal perdido e à reversão parcial de diversos benefícios cardiometabólicos. De forma equivalente, o ensaio SURMOUNT-4 confirmou esse princípio biológico com a tirzepatida: pacientes que mantiveram o tratamento de forma contínua consolidaram e ampliaram a perda de peso original, enquanto aqueles que foram submetidos à substituição do fármaco ativo por placebo voltaram a ganhar peso.
Estes dados devem nortear diretamente a abordagem e o aconselhamento médico no consultório. A terapia incretínica não deve ser explicada ou sugerida como um tratamento de curta duração voltado a redefinir temporariamente o ponto de equilíbrio ponderal do organismo. Para uma parcela significativa de indivíduos, especialmente aqueles acometidos por comorbidades e lesões orgânicas relacionadas à adiposidade disfuncional, o tratamento precisará ser estruturado em longo prazo. Essa realidade implica em novos desafios referentes a custos financeiros, logística de abastecimento, vigilância de segurança e acompanhamento das expectativas dos pacientes. Fica claro, portanto, que a prescrição de farmacoterapia deve estar obrigatoriamente associada a uma base multidisciplinar contínua, contemplando suporte nutricional, treinamento de resistência física para atenuação da perda de massa magra, estratégias de intervenção comportamental e o tratamento otimizado das condições de saúde associadas.
Os benefícios cardiovasculares dos GLP-1 RAs foram inicialmente demonstrados em ensaios clínicos voltados a indivíduos com diabetes mellitus tipo 2. No estudo LEADER, a liraglutida reduziu significativamente os eventos cardiovasculares maiores em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. De maneira análoga, o estudo SUSTAIN-6 comprovou que a semaglutida reduziu desfechos cardiovasculares adversos nessa mesma população. Posteriormente, uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados reforçou a eficácia geral dessa classe de medicamentos na redução da mortalidade cardiovascular e de desfechos renais em pacientes diabéticos.
Essa trajetória científica passou por uma importante quebra de paradigma com a publicação do estudo SELECT. Este ensaio avaliou o uso da semaglutida na dose semanal de 2,4 mg especificamente em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, mas sem diabetes. Os resultados demonstraram que o fármaco reduziu o risco do desfecho composto de morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal em comparação ao placebo. Este achado foi de extrema relevância clínica, pois evidenciou que a substância reduziu eventos cardiovasculares em uma população selecionada pela presença de excesso de adiposidade e doença cardiovascular pré-existente, sem depender do estado de hiperglicemia.
Os mecanismos subjacentes a essa cardioproteção são provavelmente mistos e envolvem vias dependentes e independentes da redução de peso. Por um lado, o emagrecimento induz melhorias na pressão arterial, na resistência à insulina, na carga inflamatória sistêmica e no perfil lipídico. Por outro lado, os agonistas de GLP-1 também exercem ações diretas na inflamação vascular, na função endotelial, na albuminúria e na biologia das placas ateroscleróticas. Na prática, os pacientes com doença cardiovascular e excesso de adiposidade podem colher benefícios que vão muito além da perda de peso isolada.
Importa destacar que o uso de terapias incretínicas não substitui as estratégias de prevenção cardiovascular já consagradas, como o controle de lipídios com estatinas, controle de pressão arterial, cessação do tabagismo, terapia antiplaquetária, manejo do diabetes e modificações do estilo de vida. O papel emergente da semaglutida consolida-se como uma terapia complementar para pacientes cujo risco cardiovascular está intimamente associado ao excesso de adiposidade.
A ICFEP é uma síndrome na qual a obesidade frequentemente atua como um fator patogênico central, e não como mera comorbidade. Esse fenótipo de ICFEP associada à obesidade é caracterizado por um aumento do volume plasmático, inflamação sistêmica de baixo grau, resistência insulínica, deposição excessiva de gordura visceral e epicárdica, além de prejuízo na reserva de exercício e uma elevada carga de sintomas limitantes. Essa estreita relação fisiopatológica fornece uma justificativa clínica robusta para intervenções terapêuticas que tenham como alvo direto a adiposidade.
O estudo STEP-HFpEF forneceu dados clínicos pioneiros ao demonstrar que a semaglutida na dose de 2,4 mg semanal melhorou significativamente os sintomas relacionados à insuficiência cardíaca, as limitações físicas, a função de exercício, a inflamação e o peso corporal em indivíduos com obesidade e ICFEP, em comparação ao placebo. Após 52 semanas de acompanhamento, a variação média no escore de resumo clínico do Questionário de Cardiomiopatia de Kansas City (KCCQ) foi de 16,6 pontos com a semaglutida frente a 8,7 pontos com o grupo placebo. Adicionalmente, o grupo intervenção obteve uma redução média de peso corporal de 13,3% contra 2,6% no grupo placebo, acompanhada por melhoras no teste de caminhada de seis minutos e reduções acentuadas na proteína C-reativa. O estudo subsequente STEP-HFpEF DM expandiu essas observações para pacientes com obesidade, ICFEP e diabetes tipo 2, demonstrando melhoras semelhantes em sintomas, limitações físicas, exercício e peso.
A tirzepatida também demonstrou eficácia robusta no manejo da insuficiência cardíaca relacionada à obesidade. No estudo SUMMIT, conduzido em indivíduos com ICFEP e obesidade, a substância reduziu significativamente o risco do desfecho composto por morte cardiovascular ou agravamento da insuficiência cardíaca, além de proporcionar melhorias robustas no estado de saúde geral dos pacientes. A melhora reportada no escore KCCQ às 52 semanas foi de 19,5 pontos com o uso da tirzepatida em comparação a 12,7 pontos com placebo. Os desfechos secundários corroboraram ainda melhorias substanciais no peso corporal, na distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos e nos marcadores inflamatórios.
A análise desses achados sugeriu que, embora os benefícios sejam parcialmente mediados pela perda de peso, a terapia incretínica atua de forma mais ampla, modificando diretamente o fenótipo inflamatório, hemodinâmico e funcional da ICFEP associada à obesidade.
Todavia, o manejo clínico desses pacientes deve permanecer estreitamente integrado ao arsenal clássico da ICFEP. O uso de diuréticos, inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (SGLT2), controle da fibrilação atrial, controle pressórico, reabilitação física supervisionada e tratamento adequado de AOS continuam sendo pilares indispensáveis de cuidado. A terapia incretínica adiciona uma opção direcionada e de grande valor prático, mas não remove a necessidade de uma abordagem integrada e abrangente para a insuficiência cardíaca.
A doença renal crônica (DRC) no contexto do diabetes mellitus tipo 2 está diretamente associada a taxas expressivas de eventos cardiovasculares adversos, progressão para falência renal e aumento da mortalidade global. Embora os GLP-1 RAs já tivessem demonstrado sinais altamente favoráveis em relação à redução da albuminúria e a desfechos renais secundários em análises de ensaios clínicos anteriores, a prática clínica ainda carecia de dados robustos provenientes de um estudo desenhado especificamente para avaliar desfechos renais primários.
O estudo FLOW forneceu essa evidência ao comprovar que o uso semanal de semaglutida na dose de 1,0 mg em pacientes portadores de diabetes tipo 2 e DRC reduziu de forma significativa os desfechos renais clinicamente importantes, bem como a mortalidade por causas cardiovasculares em comparação ao placebo. Esses achados consolidaram a posição da semaglutida como uma terapia eficaz na redução do risco cardiorrenal nessa população de alta complexidade clínica.
Em contrapartida, atualmente, as evidências de proteção renal associadas à tirzepatida são menos maduras. Em uma análise exploratória post hoc do ensaio clínico SURPASS-4, conduzido em pacientes com diabetes tipo 2 e risco cardiovascular elevado, a substância foi associada a uma taxa de declínio mais lenta da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e a uma menor ocorrência de um desfecho composto renal em comparação ao uso de insulina glargina. Contudo, é fundamental destacar que o estudo não foi um ensaio clínico dedicado exclusivamente a avaliar desfechos primários de doença renal crônica. Portanto, embora os dados referentes à tirzepatida tragam suporte clínico relevante, eles devem ser interpretados como menos definitivos do que as evidências geradas pelo estudo de desfecho renal da semaglutida.
Do ponto de vista fisiopatológico, os múltiplos benefícios renais das terapias baseadas em incretinas parecem decorrer de um conjunto de fatores integrados. Os mecanismos propostos envolvem a melhoria do controle glicêmico, a perda de peso corporal, a redução dos níveis de pressão arterial, a diminuição direta da albuminúria, efeitos anti-inflamatórios sistêmicos e potenciais ações diretas sobre o parênquima renal. Na realidade, é improvável que um único mecanismo isolado explique todas as melhorias observadas. De fato, para o argumento clínico central, a proteção renal parece refletir uma combinação sinérgica de melhorias metabólicas, hemodinâmicas, anti-inflamatórias e possíveis vias renais diretas, em vez de ser puramente mediada pela perda de peso isolada.
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) está intimamente correlacionada a fatores como obesidade, resistência à insulina, dislipidemia e diabetes mellitus tipo 2. Diretrizes enquadram a condição como uma doença hepática de natureza cardiometabólica e enfatizam a necessidade de uma triagem diagnóstica ativa para a detecção de fibrose em indivíduos que apresentem fatores de risco cardiometabólicos, sobretudo aqueles com obesidade ou diabetes tipo 2. A MASH representa o estágio inflamatório e progressivo desse espectro de doenças hepáticas, desempenhando papel crucial na progressão clínica para fibrose avançada, cirrose, insuficiência hepática, carcinoma hepatocelular e óbito relacionado ao fígado. Dado que a redução significativa de peso corporal é capaz de melhorar tanto a esteatose quanto a própria inflamação hepática, as terapias baseadas em incretinas configuram-se como intervenções biologicamente plausíveis e muito promissoras no arsenal terapêutico.
Nesse cenário, a tirzepatida demonstrou benefícios histológicos de grande relevância no estudo SYNERGY-NASH, que avaliou pacientes diagnosticados com MASH e fibrose de grau moderado ou grave tratados durante 52 semanas. Os resultados evidenciaram que a substância foi significativamente superior ao placebo em atingir a resolução histológica da MASH sem que ocorresse a piora clínica da fibrose hepática. Esse resultado indicou que a dupla estimulação dos receptores de GIP e de GLP-1 atua reduzindo de forma expressiva a inflamação hepática e a lesão metabólica no órgão, provavelmente por meio de uma combinação favorável de perda de peso, melhora substancial da sensibilidade à insulina e redução do acúmulo de gordura no parênquima hepático.
Paralelamente, o uso de semaglutida também obteve progressos marcantes no tratamento da MASH. No ensaio clínico de fase 3 ESSENCE, o tratamento com semaglutida na dose semanal de 2,4 mg demonstrou melhoras robustas em desfechos histológicos críticos, os quais incluíram tanto a resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose quanto a redução da fibrose hepática sem o agravamento da esteato-hepatite. Esses dados reforçaram o papel das terapias incretínicas na modificação ativa da biologia da doença hepática inflamatória.
Apesar do otimismo clínico com essa área em rápida evolução, os médicos devem manter a cautela. Embora os desfechos histológicos avaliados nos estudos de fase 3 sirvam como importantes marcadores substitutos, desfechos clínicos consolidados de longo prazo ainda demandam um maior tempo de acompanhamento clínico. Além disso, a conduta na MASH não deve ser isolada das demais metas de saúde do paciente, exigindo uma abordagem de redução de risco metabólico global que envolva o controle rigoroso do diabetes, o manejo otimizado de dislipidemias, a avaliação do consumo de álcool, o monitoramento periódico da fibrose hepática e estratégias preventivas de cunho cardiovascular. As terapias incretínicas surgem como pilares centrais e de grande utilidade prática no cuidado da MASH, mas devem atuar integradas às prioridades mais amplas de saúde cardiometabólica do paciente.
A AOS é uma condição altamente prevalente em adultos com obesidade. Historicamente, o manejo do peso corporal sempre foi considerado um pilar baseado em evidências no tratamento de adultos com sobrepeso ou obesidade acometidos por AOS, atuando de maneira complementar às terapias padrão, que incluem a pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), dispositivos de avanço mandibular, terapia posicional e intervenções cirúrgicas selecionadas. Contudo, até recentemente, as opções farmacológicas direcionadas especificamente para a AOS relacionada à obesidade eram extremamente escassas.
Nesse cenário clínico, o estudo SURMOUNT-OSA trouxe contribuições pioneiras ao avaliar o uso da tirzepatida em adultos que apresentavam obesidade e AOS de intensidade moderada a grave. Os achados demonstraram que a substância reduziu significativamente o índice de apneia-hipopneia (IAH), o peso corporal, a carga hipóxica, as concentrações de proteína C-reativa de alta sensibilidade e a pressão arterial sistólica, além de promover uma melhora expressiva nos desfechos relatados pelos próprios pacientes no que tange à qualidade do sono. Esses resultados foram fundamentais para a posterior chancela regulatória da tirzepatida como uma alternativa farmacológica para o tratamento da AOS moderada a grave nessa população de pacientes.
Outras terapias incretínicas também demonstram relevância clínica por meio de sua capacidade de indução de perda ponderal. Por exemplo, a liraglutida na dose de 3,0 mg demonstrou redução do IAH em comparação ao placebo no estudo SCALE Sleep Apnea. Entretanto, a semaglutida ainda não dispõe de dados comparáveis em ensaios clínicos de fase 3 voltados especificamente para desfechos de apneia obstrutiva do sono.
O mecanismo que esses medicamentos agem é principalmente através do excesso de adiposidade. A redução do tecido adiposo é capaz de mitigar a colapsabilidade das vias aéreas superiores, otimizar os volumes pulmonares, atenuar o deslocamento de fluidos em direção rostral e diminuir o estresse inflamatório e cardiometabólico do paciente. No entanto, os prescritores devem compreender que o tratamento farmacológico não deve ser encarado como um substituto universal para o uso do CPAP. Para uma parcela expressiva de pacientes, em especial aqueles que mantêm doença residual moderada a grave, hipoxemia noturna severa ou elevado risco cardiovascular, a manutenção do suporte ventilatório contínuo com dispositivos pressóricos continuará sendo necessária.
Os eventos adversos da increatinas relatados com maior frequência são de natureza gastrointestinal, englobando náuseas, vômitos, diarreia, constipação, desconforto abdominal e redução do apetite, ocorrendo predominantemente durante as fases de escalonamento de dose. Embora a intensidade desses sintomas varie geralmente de leve a moderada, eles exercem um impacto na adesão ao tratamento e representam causas frequentes de descontinuação farmacológica. Estratégias como a titulação gradual e lenta da dose, orientações dietéticas específicas, aconselhamento sobre hidratação adequada e revisões clínicas constituem ferramentas práticas essenciais para otimizar a tolerabilidade e a manutenção do paciente no tratamento.
Além disso, distúrbios das vias biliares e da vesícula biliar demandam atenção e aconselhamento clínico proativo. Dados provenientes de revisões sistemáticas e meta-análises revelaram que a utilização de agonistas de receptores de GLP-1 está associada a um risco aumentado de doenças biliares e da vesícula biliar, sobretudo quando em uso de doses mais elevadas, por períodos prolongados de tratamento ou quando aplicados especificamente para a perda ponderal. Esse aumento de risco pode decorrer da própria velocidade da perda de peso, de alterações na motilidade da vesícula biliar induzidas pela droga, ou da convergência de ambos os fatores.
Adicionalmente, a pancreatite aguda figura como uma preocupação histórica associada a essa classe terapêutica. Embora a relação de causalidade direta ainda seja objeto de debate acadêmico, episódios de dor abdominal intensa e persistente com irradiação para o dorso, acompanhados ou não de vômitos, devem sempre motivar uma investigação clínica imediata.
Outro aspecto prático de alta relevância clínica envolve os cuidados perioperatórios. Devido à ação farmacológica dos agonistas de receptores de GLP-1 em retardar o esvaziamento gástrico, surgem preocupações pertinentes quanto à presença de resíduos alimentares no estômago e ao consequente risco de aspiração pulmonar durante procedimentos que necessitem de anestesia geral ou sedação profunda. Conselhos e diretrizes de múltiplas sociedades médicas recomendaram a realização de avaliações de risco altamente individualizadas para esses pacientes, dedicando atenção especial àqueles em fase ativa de titulação de dose, com sintomas gastrointestinais persistentes ou portadores de outras condições clínicas predisponentes ao retardo do esvaziamento gástrico.
O planejamento reprodutivo e a gestação também requerem aconselhamento específico de alta relevância nas consultas médicas. As informações de prescrição da semaglutida recomendam fortemente a descontinuação prévia do medicamento antes de uma gravidez planejada, ao passo que as diretrizes da tirzepatida orientam a suspensão imediata da terapia assim que a gestação for confirmada, ressaltando o princípio clínico de que a perda ponderal ativa não é recomendada durante o período gestacional.
Outra preocupação relevante no tratamento em longo prazo diz respeito à composição corporal, especificamente à perda de massa magra. Embora a perda de peso substancial acarrete uma redução desejável na massa gorda, ela frequentemente cursa com uma redução concomitante da massa magra. Esse fenômeno assume uma gravidade clínica particular em idosos, indivíduos com fragilidade física preestabelecida ou pacientes portadores de obesidade sarcopênica. Evidências científicas demonstram que a associação de intervenções dietéticas com programas de exercícios físicos estruturados desempenha papel crucial na melhora da função física e na preservação da integridade da massa muscular. Os médicos prescritores devem, portanto, recomendar a prática de exercícios, orientar para ingestão proteica adequada e monitorar continuamente seus pacientes, prevenindo que melhorias nos biomarcadores metabólicos ocorram às custas de declínio na força muscular ou agravamento da fragilidade.
Por fim, em pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2, o aprimoramento rápido do perfil glicêmico traz duas repercussões práticas imediatas. A primeira refere-se ao risco de hipoglicemia, o que frequentemente demanda a redução profilática e o ajuste cuidadoso das doses de insulinas ou de secretagogos de insulina (como as sulfonilureias) conforme o controle glicêmico e o aporte alimentar se modifiquem. A segunda diz respeito à evolução da retinopatia diabética. A melhora acentuada e abrupta da glicemia tem sido associada à piora transitória inicial da retinopatia em pacientes suscetíveis, sobretudo naqueles que apresentavam péssimo controle glicêmico basal e retinopatia pré-existente documentada. Nesses casos, o acompanhamento oftalmológico periódico e rigoroso deve ser instituído ao iniciar tratamentos potentes de redução glicêmica.
As terapias baseadas em incretinas ultrapassaram seu papel original como medicamentos para redução da glicose e perda de peso e estão se tornando cada vez mais relevantes no tratamento de doenças orgânicas relacionadas à obesidade. No entanto, a robustez das evidências varia conforme a condição clínica, e a contribuição relativa dos mecanismos dependentes e independentes da perda de peso ainda não está completamente esclarecida. Portanto, essas terapias devem ser incorporadas aos fluxos de cuidado de doenças crônicas para pacientes selecionados, com atenção criteriosa à seleção dos mesmos, tolerabilidade, necessidade de tratamento em longo prazo, monitoramento de segurança, custo, acesso e abordagem multidisciplinar do cuidado.