Atualmente, cerca de 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo. Com o envelhecimento populacional, esse número deve alcançar 153 milhões até 2050. A Comissão Lancet de 2024 destacou a poluição do ar como um dos quatorze fatores de risco potencialmente modificáveis, responsável por aproximadamente 3% dos casos globais.
Apesar de evidências mais limitadas sobre a relação entre poluição do ar e demência, em comparação com outras doenças como DPOC e cardiovasculares, o campo tem avançado rapidamente. O mecanismo por trás dessa associação ainda não é totalmente compreendido, mas algumas explicações incluem o aumento do risco de hipertensão, estresse oxidativo, resistência à insulina e inflamação devido à exposição a partículas finas.
No artigo publicado na The Lancet Healthy Longevity, Canning e colaboradores (2025) examinaram as associações entre a exposição à poluição do ar ao longo da vida e a cognição e estrutura cerebral na velhice utilizando dados da coorte britânica de 1946. Os autores descobriram que a maior exposição à poluição do ar entre as idades de 45 e 69 anos estava significativamente associada a desfechos cognitivos e estruturais cerebrais adversos. Especificamente, para cada aumento de intervalo interquartil na exposição ao dióxido de nitrogênio, a velocidade de processamento diminuiu 8,12 pontos em uma tarefa de recordação de quinze itens. A exposição a todos os poluentes foi associada a pior desempenho cognitivo do que nenhuma exposição. Por exemplo, maior exposição ao dióxido de nitrogênio foi associada a uma redução de 0,59 ponto nas pontuações do Addenbrooke’s Cognitive Examination III, uma avaliação cognitiva padronizada breve, aos 69 anos. Entre as idades de 69 a 71 anos, maior exposição a óxidos de nitrogênio foi associada a menor volume hipocampal (com uma redução média de 0,088 por unidade de aumento na exposição ao dióxido de nitrogênio), e maior exposição ao dióxido de nitrogênio e a partículas com diâmetro inferior a 10 μm foi ligada a volumes ventriculares maiores.
Os dados, que sugeriram que todos os poluentes do ar foram associados a piores desfechos cognitivos aos 69 anos, foram consistentes com a literatura anterior. Além disso, o estudo foi inovador por focar na exposição ao longo da vida e não apenas na meia-idade, fornecendo uma perspectiva de longo prazo sobre os efeitos da poluição na cognição e na estrutura cerebral.
A longa duração do estudo é um diferencial importante, já que muitos tiveram menos de 5 anos de seguimento — tempo insuficiente para captar associações entre exposição e desfecho. A relação entre partículas <10 μm e poluentes gasosos com alterações cerebrais, como aumento ventricular e redução do hipocampo, reforçou evidências já existentes.
É importante ressaltar que ainda há incertezas sobre a relação entre poluição do ar e cognição. Canning e colaboradores (2025) não incluíram dados sobre poluição interna, relevante para futuras pesquisas. Além da poluição externa, fontes como solventes, tabagismo, aparelhos domésticos e ambientes ocupacionais também contribuem para a exposição ao longo da vida. Essa é especialmente crítica em países de baixa renda — onde se concentra quase metade dos 7,3 bilhões de pessoas expostas a níveis inseguros de partículas finas (<2,5 μm).
A associação entre maior exposição à poluição do ar na meia-idade e declínio cognitivo sugeriu que a poluição do ar pode ser um fator de risco para demência. Embora a Comissão Lancet de 2024 tenha identificado a poluição como fator de risco tardio, os dados indicaram que seus efeitos podem começar mais cedo. Por isso, são necessários mais estudos para entender o momento e o impacto cumulativo da exposição ao longo da vida sobre o risco de demência.
Em resumo, o estudo de Canning e colaboradores (2025) fortaleceu as evidências de que a poluição do ar está ligada à piora da saúde cerebral. Pequenas reduções na sua exposição, mesmo na meia-idade, podem permitir melhorias na cognição e na saúde cerebral e conferir outros benefícios à saúde, enfatizando assim a importância de continuar os esforços globais para reduzir a poluição do ar. Realisticamente, a poluição do ar não pode ser reduzida por ações individuais, mas apenas por meio de abordagens de saúde pública. Essas incluem a implementação dos compromissos da Conferência Global da OMS sobre Poluição do Ar e Saúde, como o aumento do investimento em transporte sustentável, energia limpa e legislação para manter a poluição do ar dentro dos limites recomendados pela OMS.