A rosácea é uma dermatose inflamatória crônica que acomete principalmente a região central da face, caracterizada por eritema persistente, pápulas, pústulas, telangiectasias e, em estágios avançados, espessamento cutâneo. Afeta cerca de 5% da população adulta, com início geralmente após os 30 anos, e apresenta curso clínico variável, com períodos de exacerbação e remissão.
Segundo a classificação da National Rosacea Society, a doença é dividida em quatro subtipos principais: rosácea eritematotelangiectásica, papulopustulosa, fimatosa e ocular — que podem coexistir ou evoluir entre si. O último tipo, frequentemente subdiagnosticado, pode comprometer a visão em casos graves.
A patogênese envolve múltiplos fatores, incluindo disfunção da imunidade inata, ativação de receptores Toll-like tipo 2 (TLR-2), produção exacerbada de catelicidinas, inflamação neurogênica mediada por canais receptores vaniloides do potencial transitório tipo 1 (TRPV1), alterações da microbiota cutânea e intestinal, além de fatores ambientais e alimentares.
O papel da dieta e da microbiota intestinal tem ganhado destaque, com implicações terapêuticas relevantes. Alimentos, seus metabólitos e o uso de probióticos podem modular a resposta inflamatória e influenciar a evolução clínica, sendo essenciais para estratégias terapêuticas mais eficazes e personalizadas.
A microbiota intestinal influencia a saúde da pele por meio da interação bidirecional com os sistemas imunológico, neuroendócrino e metabólico. O chamado “eixo intestino-pele” descreve essa conexão, mediada por mecanismos imunológicos que regulam a inflamação sistêmica. Ele está associado a doenças como acne vulgar, psoríase, dermatite atópica e hidradenite supurativa, sugerindo que alterações na microbiota intestinal influenciam processos inflamatórios cutâneos.
Na acne vulgar, observou-se menor diversidade microbiana intestinal, com redução de Firmicutes e aumento de Bacteroides. Probióticos do gênero Lactobacillus demonstram melhora clínica da pele acneica, com redução de características cutâneas inflamatórias.
Diversas comorbidades gastrointestinais — como infecção por H. pylori, doença inflamatória intestinal (DII), incluindo doença de Crohn e colite ulcerativa, e supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO) — foram associadas à rosácea, sugerindo uma base inflamatória sistêmica e disfunção da barreira intestinal. A erradicação do SIBO pode melhorar os sintomas cutâneos, enquanto a relação com H. pylori permanece controversa, com benefícios atribuídos possivelmente aos efeitos anti-inflamatórios dos antibióticos. Estudos populacionais indicaram risco aumentado de DII em pacientes com rosácea. Por isso, sintomas gastrointestinais persistentes devem levantar suspeita de comorbidades associadas.
A dieta exerce influência significativa na fisiopatologia e no manejo da rosácea, atuando por meio de mecanismos imunológicos, neurovasculares e da interação intestino-pele. Alimentos como álcool, comidas picantes, produtos ricos em histamina e compostos como cinamaldeído e niacina podem agravar sintomas ao estimular canais Transient Receptor Potential (TRP) e promover vasodilatação. Por outro lado, nutrientes como zinco, vitamina A, fibras, laticínios e cafeína (em especial do café) demonstram potencial terapêutico ao modular a inflamação e a microbiota intestinal.
O tratamento da rosácea continua sendo um desafio devido às recaídas frequentes e sintomas persistentes. Nesse contexto, os probióticos surgiram como uma opção terapêutica complementar promissora, com poucos efeitos colaterais. Esses microrganismos vivos atuam no eixo intestino-pele, ajudando a modular a resposta imunológica, reduzir a inflamação neurogênica, melhorar a função da barreira cutânea e diminuir a vasodilatação, o edema e a liberação de mediadores inflamatórios como o TNF-α.
O uso oral de probióticos — como Lactobacillus, Bifidobacterium, Escherichia coli Nissle e Saccharomyces boulardii — em associação com terapias convencionais, pode levar à melhora significativa dos sintomas, maior frequência de remissão clínica e redução da perda de água transepidérmica, além de melhorar a hidratação da pele. Formulações tópicas também têm demonstrado benefícios, como redução do eritema, da densidade de Demodex e melhora da função da barreira cutânea.
Em resumo, a modulação da microbiota intestinal e cutânea por meio da dieta, probióticos, prebióticos e simbióticos representa uma abordagem promissora e inovadora para o manejo da rosácea. Embora cepas específicas como Lactobacillus, Bifidobacterium e Saccharomyces demonstrem potencial anti-inflamatório, a falta de estudos clínicos robustos e padronização limita sua incorporação ao tratamento convencional. A orientação nutricional, especialmente com dietas ricas em fibras e vitamina A, pode contribuir significativamente para a melhora dos sintomas e prevenção de crises, reforçando a importância de estratégias integrativas no cuidado com a rosácea.