Doenças que requerem tratamento cirúrgico são estimadas como responsáveis por um terço da carga global de doenças. Ademais, suas complicações são uma causa significativa de morte e problemas de saúde a longo prazo.
A América Latina permanece sub-representada na pesquisa perioperatória, resultando em uma lacuna substancial na compreensão da atividade cirúrgica desta região, o que limita a formulação de políticas de saúde. A maioria de seus países enfrenta sistemas de saúde subfinanciados, investimento inconsistente em saúde pública e distribuição desigual da força de trabalho. Embora o impacto desses sistemas de saúde subfinanciados e fragmentados sobre os resultados de saúde tenha sido descrito, seus efeitos específicos sobre os resultados cirúrgicos permanecem obscuros, ressaltando a necessidade de dados mais abrangentes.
Por isso, o Grupo do Estudo de Resultados Cirúrgicos da América Latina (LASOS) realizaram a pesquisa com o objetivo de fornecer uma perspectiva sobre os resultados pós-operatórios no continente com uma das maiores disparidades de renda do mundo.
Os autores realizaram um estudo de coorte de sete dias em 17 países da América Latina com adultos (com idade ≥18 anos) submetidos à cirurgia hospitalar. O resultado primário foi complicações pós-operatórias intra-hospitalares dentro de 30 dias após o procedimento. Os secundários foram mortalidade intra-hospitalar, duração da internação e admissão em unidade de terapia intensiva dentro de 30 dias após a cirurgia.
Os pacientes foram divididos conforme o sistema de classificação de estado físico ASA. Esse teve como objetivo avaliar e informar comorbidades médicas pré-anestésicas do paciente. O sistema de classificação isolado não prevê os riscos perioperatórios, mas usado com outros fatores pode ser útil na predição de riscos perioperatórios.
Entre 1º de junho de 2022 e 30 de abril de 2023, foram coletados dados de 22.126 pacientes em 284 hospitais. Devido à falta de dados, 21.469 e 21.746 foram analisados na análise primária de complicações intra-hospitalares e na análise secundária da mortalidade por todas as causas, respectivamente. Os hospitais tinham uma mediana de 188 leitos, oito salas de cirurgia e 23 leitos de unidade de terapia intensiva. A capacidade mediana de terapia intensiva (razão de leitos de terapia intensiva para o total de leitos hospitalares) foi de 12,6. Ademais, 201 hospitais tinham programas de residência e 147 tinham certificação de acreditação.
Dos hospitais, 154 forneciam apenas assistência médica financiada pelo governo, 107 apenas assistência médica financiada de forma privada e 23 foram financiados por ambas as fontes. Dos 22.126 pacientes, a maioria era do sexo feminino (58,1%), jovens (idade média de 49,7 anos) e brancos (46,0%) com baixo risco perioperatório e foram submetidos a cirurgias eletivas (67,5%). As especialidades mais comuns foram ortopedia e cirurgia gastrointestinal. Apenas 9,2% fizeram cirurgia cesariana. A anestesia geral foi a técnica anestésica predominante e as suas complicações foram incomuns, sendo a intubação falhada a mais frequente (0,2%).
Complicações pós-operatórias ocorreram em 3.163 dos pacientes, resultando em 477 óbitos. A mortalidade em pacientes que desenvolveram complicações foi de 15,1%. Além disso, 2.978 e 1.028 foram admitidos em uma unidade de terapia intensiva imediatamente após a cirurgia e durante 30 dias em relação ao pós-cirúrgico, respectivamente. No entanto, 180 pacientes que morreram não foram admitidos em terapia intensiva em nenhum momento durante a internação.
Dentre os pacientes com complicações, 1.584 apresentavam grau ASA III ou superior, 1.604 foram submetidos a cirurgia não eletiva e 1.342 foram submetidos a cirurgias de grande porte. As complicações infecciosas foram as mais frequentes, afetando 8,2% desses. As complicações cardiovasculares ocorreram em 2,9% e foram associadas à maior mortalidade. A duração mediana da internação para aqueles que desenvolveram complicações foi de 8 dias, em comparação com 2 dias para aqueles sem complicações.
Em relação as complicações pós-operatórias e mortalidade, foram identificados alguns fatores fixos associados: idade, aumento do grau ASA, urgência da cirurgia, extensão da cirurgia (ou seja, intermediária, maior), cirrose, doença pulmonar obstrutiva crônica ou asma e as especialidades de cirurgia gastrointestinal, vascular, neurocirurgia, torácica e cardíaca.
Em conclusão, o estudo revelou uma taxa de complicações semelhante à de países de alta renda. No entanto, a maior proporção de pacientes que morreram de complicações sugeriu falha no atendimento pós-operatório. Esses pacientes geralmente têm estadias hospitalares prolongadas em ambientes com recursos de terapia intensiva insuficientes. Pesquisas futuras devem avaliar minuciosamente os fatores que contribuem para resultados cirúrgicos adversos nos complexos sistemas de saúde da América Latina. As amplas variações na infraestrutura de saúde, na política de saúde e no impacto de fatores socioeconômicos, que criam contextos muito diferentes para o atendimento cirúrgico, devem ser levadas em consideração.