Artículos

Publicado el 28 de septiembre de 2026

Depressão e doença cardiovascular

A frequência de sintomas depressivos eleva o risco de doença cardiovascular?

Estudo com dados de 16.257 participantes do NHANES revelou que mesmo sintomas depressivos infrequentes ou subclínicos foram independentemente associados a um aumento escalonado e progressivo no risco de infarto, insuficiência cardíaca e doença coronariana a partir dos 50 anos.

Autor/a: Faizan Ahmed; Ali Imam Awan; Omar Kamel, ; Nida Waheed; Zaima Afzaal; Kainat Aman

Fuente: Prim Care Companion CNS Disord, V. 28, N. 2, 2026 Depression and Cardiovascular Burden in Aging Populations: Insights From the National Health and Nutrition Examination Survey 2010–2020 on Symptom Frequency, Sociodemographic Disparities, and Modifiable Risk Factors

Evidências demonstraram a coexistência entre a depressão e as doenças cardiovasculares (DCVs). Diversos mecanismos biológicos e comportamentais têm sido propostos para justificar essa interrelação. Do ponto de vista fisiopatológico, destacam-se a presença de inflamação sistêmica de baixo grau, a disfunção do sistema nervoso autônomo e a desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. No campo comportamental, a presença de sintomas de humor correlaciona-se intimamente com hábitos de vida deletérios à saúde, tais como o tabagismo, o sedentarismo e comportamentos de baixa adesão às recomendações terapêuticas. Essas vias ganham relevância na população acima de 50 anos, uma vez que esses indivíduos costumam apresentar queixas somáticas e físicas sobrepostas que podem encobrir ou dificultar o diagnóstico do sofrimento psicológico subjacente.

Apesar do robusto corpo de evidências, nota-se que a maioria das pesquisas desenvolvidas concentrou-se em diagnósticos clínicos de depressão maior ou em pontuações de sofrimento psicológico global. Há uma escassez de estudos voltados a explorar o papel específico da frequência dos sintomas depressivos, uma abordagem que permite mapear diferentes níveis e gradações do distúrbio de humor na população geral. A frequência com que os sintomas se manifestam pode servir como um indicador clínico mais ágil e diretamente aplicável na rotina dos médicos.

Diante disso, Ahmed et al., (2026) realizaram um estudo com o objetivo de examinar a associação entre a carga de sintomas depressivos e a presença de DCV em adultos com idade igual ou superior a 50 anos. Para além de documentar os efeitos de gradiente de acordo com a frequência dos sintomas de humor, a pesquisa comparou indivíduos sintomáticos e assintomáticos para detalhar esses padrões de risco frente a desfechos cardiovasculares compostos e subtipos específicos de patologias cardíacas.

Para isso, eles realizaram uma análise transversal baseada em dados obtidos do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). A amostra inicial totalizava 65.253 participantes, mas após a aplicação dos critérios de exclusão, foram incluídos 16.257 indivíduos. A avaliação dos sintomas depressivos foi realizada a partir de uma única questão de autorrelato presente no questionário do NHANES: "Nas últimas duas semanas, com que frequência você se sentiu desanimado, deprimido ou sem esperança?". As opções de resposta fornecidas incluíam "nenhum dia" (ou "de forma alguma"), "vários dias", "mais da metade dos dias" e "quase todos os dias", além das categorias de não resposta "não sei" e "recusou". Essas duas últimas foram mantidas na análise para investigar se a recusa em responder ou a incerteza clínica poderiam correlacionar-se com o risco cardiovascular. As respostas foram tratadas como uma medida ordinal de frequência de sintomas depressivos, refletindo o aumento progressivo da carga de sintomas, mas os pesquisadores também empregaram uma classificação binária secundária para fins descritivos e comparativos, dividindo os participantes entre aqueles com sintomas depressivos (definidos como frequência de "vários dias" ou superior) e sem sintomas depressivos ou controle ("nenhum dia").

O histórico de DCV foi estabelecido por meio do relato dos próprios participantes sobre diagnósticos médicos prévios de doença arterial coronariana (DAC), infarto agudo do miocárdio (IAM), insuficiência cardíaca congestiva (ICC) ou angina pectoris. Para mitigar vieses e ajustar fatores de confusão clássicos da relação entre humor e DCV, o estudo coletou covariáveis demográficas e comportamentais. As primeiras abrangeram idade, sexo e raça/etnia. O índice de massa corporal (IMC) classificou os participantes em peso normal (IMC <25), sobrepeso (25–29,9) ou obesidade (IMC ≥30). O status de tabagismo foi classificado em fumante atual, ex-fumante ou indivíduo que nunca fumou.

A análise dos 16.257 participantes revelou que a maioria não relatou sintomas depressivos nas duas semanas anteriores (n = 12.336). Os demais se distribuíram entre sintomas presentes por "vários dias" (n = 658), "mais da metade dos dias" (n = 700) e "quase todos os dias" (n = 22), além de um contingente expressivo que não soube responder (n = 2.534) ou que se recusou a responder (n = 7). As mulheres constituíram 50,4% da amostra e mostraram maior representação nas categorias de frequência sintomática moderada, correspondendo a 61,2% do grupo que relatou sintomas em "vários dias" e a 57,0% na categoria "mais da metade dos dias". Em contrapartida, os homens predominaram tanto entre os indivíduos completamente assintomáticos (52,4%) quanto na categoria de frequência mais severa, representando 68,2% daqueles que manifestavam sintomas "quase todos os dias".

A idade mediana da coorte diferiu de forma estatisticamente significativa entre as categorias de sintomas, estendendo-se de 62,0 anos no grupo de participantes com sintomas em "mais da metade dos dias" até 68,5 anos naqueles com sintomas "quase todos os dias". Do ponto de vista étnico-racial, os indivíduos brancos não hispânicos representaram a maior parcela do estudo (42,8%), ao passo que os negros não hispânicos compuseram 23,5% da coorte (com discreta maior representação em faixas de sintomas moderados) e os mexicano-americanos totalizaram 11,8% da amostra (com frequências de sintomas proporcionalmente mais elevadas).

No que tange à carga cardiovascular, a prevalência autorrelatada de qualquer tipo de DCV foi de 8,5%. Quando os participantes foram classificados de forma binária, aqueles que apresentavam sintomas depressivos exibiram taxas de prevalência significativamente maiores para todos os subtipos de DCV em comparação aos indivíduos assintomáticos. Ao analisar de forma detalhada pela frequência escalonada dos sintomas de humor, observou-se um aumento progressivo e em padrão de degraus para todos os desfechos cardíacos avaliados. Especificamente, a prevalência de DAC elevou-se de 7,3% no grupo de referência ("nenhum dia") para 10,6% ("vários dias"), 10,9% ("mais da metade dos dias") e atingiu o ápice de 18,2% nos indivíduos com queixas de humor "quase todos os dias". De forma análoga, a prevalência de angina variou de 3,7% a 8,5%, 7,7% e 13,6% conforme a frequência dos sintomas aumentava; a prevalência de IAM comportou-se de forma semelhante, registrando 7,0%, 13,5%, 11,4% e 13,6% nas respectivas categorias; e as taxas de ICC foram de 5,1%, 12,3%, 7,1% e 4,5% nos respectivos grupos de frequência.

Adicionalmente, a sobreposição de múltiplas condições cardiovasculares mostrou-se mais prevalente entre os indivíduos com sintomatologia depressiva. Entre os pacientes com DAC diagnóstica, 68% daqueles que apresentavam sintomas de humor também relataram angina concomitante, em comparação a 57% dos que não tinham sintomas de humor. De forma semelhante, entre os portadores de ICC, 71% dos participantes deprimidos reportaram histórico de IAM prévio, frente a 62% entre os controles, sendo essas sobreposições patológicas ainda mais acentuadas na faixa etária igual ou superior a 65 anos.

Além disso, as análises revelaram uma relação consistente entre a presença de sintomas de humor e parâmetros antropométricos elevados em todas as subdivisões clínicas de DCV. Pacientes acometidos por DAC que reportaram sintomas depressivos apresentaram uma mediana de IMC significativamente superior em relação aos controles (30,8 kg/m² versus 27,3 kg/m²). Esse mesmo perfil de disparidade foi identificado nos subgrupos com angina pectoris (mediana de IMC de 30,5 kg/m² contra 27,8 kg/m²), ICC (mediana de 31,3 kg/m² contra 28,4 kg/m²) e IAM (mediana de 30,7 kg/m² contra 27,9 kg/m²).

Para além das análises de peso isoladas, os modelos de regressão multivariável ponderados expuseram um impacto sinérgico expressivo e cumulativo ao associar a depressão a outros fatores de risco cardiometabólicos clássicos. Indivíduos que apresentavam simultaneamente sintomas depressivos e obesidade tinham chances 3,2 e 3,1 vezes maiores de serem mais propensos a possuírem um diagnóstico de DAC ou angina e ICC ou IAM, respectivamente, quando comparados aos participantes de peso normal e livres de sintomas depressivos. De maneira igual, a associação entre tabagismo ativo e queixas depressivas aumentou drasticamente o risco cardiovascular. Os fumantes atuais que reportaram sintomas depressivos apresentaram uma chance 3,6 e 3,5 vezes maior de manifestar DAC ou angina e ICC ou IAM, respectivamente, em comparação com os indivíduos que nunca fumaram e não apresentavam sintomatologia de humor.

Em conclusão, Ahmed et al., (2026) demonstraram que a frequência dos sintomas depressivos foi independentemente associada a um risco elevado de DCVs em indivíduos com 50 anos ou mais, mesmo quando os sintomas foram infrequentes ou não atingiram os critérios clássicos para um diagnóstico clínico fechado de depressão. Essa associação tornou-se dramaticamente mais severa quando combinada a fatores de risco cardiometabólicos modificáveis, como a obesidade ou o tabagismo ativo. Para a prática médica, esses resultados reforçaram a necessidade premente de ir além dos limiares diagnósticos tradicionais, adotando ferramentas de rastreamento rápidas, simples e escalonáveis para avaliar a frequência de sintomas de humor na rotina de avaliação de risco cardiológico.