A vigilância ativa (VA) é uma estratégia amplamente adotada para o manejo do câncer de próstata (CP) de risco baixo a intermediário, com o objetivo de evitar tratamentos invasivos em pacientes com doença indolente. Os protocolos tradicionais incluem monitoramento com antígeno prostático específico (PSA), exame digital retal, biópsias e exames de imagem. Apesar da eficácia, a adesão às biópsias tende a diminuir com o tempo, e muitos pacientes optam por tratamento mesmo sem evidência de progressão. A personalização do tratamento, baseado em parâmetros individuais da doença, pode melhorar a adesão e reduzir o abandono.
Nesse contexto, a ressonância magnética multiparamétrica (RMmp) tem se destacado como uma ferramenta promissora, permitindo decisões mais precisas sobre a necessidade de biópsias — com base em alterações na imagem ou na densidade do PSA — e a identificação de lesões suspeitas. Estudos mostraram que a visibilidade da ressonância magnética (RM), em combinação com a pontuação de Gleason (GS), um sistema usado para classificar o CP com base na aparência das células cancerosas, foram associadas à progressão, reforçando o papel da RMmp na estratificação de risco e na condução segura da VA. Diante disso, Englman e colaboradores (2025) apresentaram uma atualização da coorte, que praticamente dobrou de tamanho desde a análise anterior.
O estudo envolveu 1150 pacientes com câncer de próstata de risco baixo a intermediário que iniciaram vigilância ativa entre 2000 e 2023. Os critérios de inclusão foram: GS (3 + 3 ou 3 + 4) com PSA < 20 ng/ml, concordância entre biópsia e RM, e pelo menos duas RMmp. O acompanhamento incluiu dosagem regular de PSA, exames de RM em intervalos definidos e biópsias conforme indicação clínica. Progressão radiológica ou histológica motivava discussão sobre tratamento ativo. O objetivo principal foi avaliar a sobrevida livre de eventos (EFS), definida como a progressão histológica para GS ≥4 + 3 ou a transição para tratamento.
A mediana de seguimento foi de 64 meses por paciente, totalizando mais de 4.400 exames de RM e 569 biópsias de acompanhamento.
Dos pacientes incluídos, 64% e 36% apresentavam GS 3 + 3 e 3 + 4, respectivamente, na avaliação inicial, sendo que o grupo de menor proporção apresentou uma frequência significativamente maior de lesão visível na RM. Ao longo do tempo, observou-se uma mudança no perfil da coorte, com predominância crescente de casos GS 3 + 4 visíveis na RM entre os que iniciavam VA.
A EFS foi de 87% em 3 anos, 77% em 5 anos e 57% em 10 anos. Os pacientes com GS 3 + 4 visível na RM apresentaram as menores taxas.
A progressão radiológica ocorreu em 59% dos pacientes em 10 anos, sendo mais frequente nos casos com doença visível na RM. A progressão histológica para GS 4 + 3 foi observada em 10% dos pacientes, com forte correlação entre progressão radiológica e histológica.
A taxa de progressão para padrão primário GS 4 foi maior entre os pacientes com GS 3 + 4 visível na ressonância magnética. Especificamente, as taxas de progressão histológica para GS 4 + 3 foram de 1,2% em 5 anos e 6,1% em 10 anos para GS 3 + 3 não visível, comparadas a 17% e 43% para GS 3 + 4 visível, respectivamente.
Ao todo, 375 pacientes iniciaram tratamento: 48% receberam manejo radical (prostatectomia, radioterapia ou braquiterapia), 46% com terapia focal e 6% com bloqueio androgênico isolado. A maioria dos casos tratados apresentava progressão radiológica ou histológica confirmada.
O estudo destacou que apenas 3% dos pacientes iniciaram tratamento com doença estável (sem alterações em PSA, RM ou biópsia), valor significativamente inferior aos 15–25% observados em protocolos tradicionais com biópsias programadas por tempo.
A sobrevida global em 10 anos foi de 97%, sem registros de óbitos por CP. A progressão para metástases foi rara e restrita a pacientes que não seguiram as recomendações clínicas quanto à realização dos exames de monitoramento.
Em resumo, Englman e colaboradores (2025) demonstraram que mesmo em pacientes com perfil de risco elevado, a progressão para doença agressiva foi baixa e a monitorização baseada em RM e PSA mostrou-se segura e eficaz, reduzindo biópsias desnecessárias. Os resultados reforçaram o potencial dessa abordagem personalizada, que será validada em estudos multicêntricos futuros.
Published on July 31, 2025
Tratamento personalizado
Vigilância ativa com ressonância magnética no câncer de próstata
Estudo de coorte demonstrou segurança e eficácia da abordagem personalizada com RMmp e PSA em pacientes de risco baixo a intermediário.
Author: Englman, C. et al.
Fuente: European Urology; V.88, I.2, Pg 167-175 (2025) Magnetic Resonance Imaging–led Risk-adapted Active Surveillance for Prostate Cancer: Updated Results from a Large Cohort Study
A vigilância ativa (VA) é uma estratégia amplamente adotada para o manejo do câncer de próstata (CP) de risco baixo a intermediário, com o objetivo de evitar tratamentos invasivos em pacientes com doença indolente. Os protocolos tradicionais incluem monitoramento com antígeno prostático específico (PSA), exame digital retal, biópsias e exames de imagem. Apesar da eficácia, a adesão às biópsias tende a diminuir com o tempo, e muitos pacientes optam por tratamento mesmo sem evidência de progressão. A personalização do tratamento, baseado em parâmetros individuais da doença, pode melhorar a adesão e reduzir o abandono.
Nesse contexto, a ressonância magnética multiparamétrica (RMmp) tem se destacado como uma ferramenta promissora, permitindo decisões mais precisas sobre a necessidade de biópsias — com base em alterações na imagem ou na densidade do PSA — e a identificação de lesões suspeitas. Estudos mostraram que a visibilidade da ressonância magnética (RM), em combinação com a pontuação de Gleason (GS), um sistema usado para classificar o CP com base na aparência das células cancerosas, foram associadas à progressão, reforçando o papel da RMmp na estratificação de risco e na condução segura da VA. Diante disso, Englman e colaboradores (2025) apresentaram uma atualização da coorte, que praticamente dobrou de tamanho desde a análise anterior.
O estudo envolveu 1150 pacientes com câncer de próstata de risco baixo a intermediário que iniciaram vigilância ativa entre 2000 e 2023. Os critérios de inclusão foram: GS (3 + 3 ou 3 + 4) com PSA < 20 ng/ml, concordância entre biópsia e RM, e pelo menos duas RMmp. O acompanhamento incluiu dosagem regular de PSA, exames de RM em intervalos definidos e biópsias conforme indicação clínica. Progressão radiológica ou histológica motivava discussão sobre tratamento ativo. O objetivo principal foi avaliar a sobrevida livre de eventos (EFS), definida como a progressão histológica para GS ≥4 + 3 ou a transição para tratamento.
A mediana de seguimento foi de 64 meses por paciente, totalizando mais de 4.400 exames de RM e 569 biópsias de acompanhamento.
Dos pacientes incluídos, 64% e 36% apresentavam GS 3 + 3 e 3 + 4, respectivamente, na avaliação inicial, sendo que o grupo de menor proporção apresentou uma frequência significativamente maior de lesão visível na RM. Ao longo do tempo, observou-se uma mudança no perfil da coorte, com predominância crescente de casos GS 3 + 4 visíveis na RM entre os que iniciavam VA.
A EFS foi de 87% em 3 anos, 77% em 5 anos e 57% em 10 anos. Os pacientes com GS 3 + 4 visível na RM apresentaram as menores taxas.
A progressão radiológica ocorreu em 59% dos pacientes em 10 anos, sendo mais frequente nos casos com doença visível na RM. A progressão histológica para GS 4 + 3 foi observada em 10% dos pacientes, com forte correlação entre progressão radiológica e histológica.
A taxa de progressão para padrão primário GS 4 foi maior entre os pacientes com GS 3 + 4 visível na ressonância magnética. Especificamente, as taxas de progressão histológica para GS 4 + 3 foram de 1,2% em 5 anos e 6,1% em 10 anos para GS 3 + 3 não visível, comparadas a 17% e 43% para GS 3 + 4 visível, respectivamente.
Ao todo, 375 pacientes iniciaram tratamento: 48% receberam manejo radical (prostatectomia, radioterapia ou braquiterapia), 46% com terapia focal e 6% com bloqueio androgênico isolado. A maioria dos casos tratados apresentava progressão radiológica ou histológica confirmada.
O estudo destacou que apenas 3% dos pacientes iniciaram tratamento com doença estável (sem alterações em PSA, RM ou biópsia), valor significativamente inferior aos 15–25% observados em protocolos tradicionais com biópsias programadas por tempo.
A sobrevida global em 10 anos foi de 97%, sem registros de óbitos por CP. A progressão para metástases foi rara e restrita a pacientes que não seguiram as recomendações clínicas quanto à realização dos exames de monitoramento.
Em resumo, Englman e colaboradores (2025) demonstraram que mesmo em pacientes com perfil de risco elevado, a progressão para doença agressiva foi baixa e a monitorização baseada em RM e PSA mostrou-se segura e eficaz, reduzindo biópsias desnecessárias. Os resultados reforçaram o potencial dessa abordagem personalizada, que será validada em estudos multicêntricos futuros.