| Introdução |
A sarcopenia, caracterizada pela perda de força e massa muscular, é comum no envelhecimento e resulta não apenas de alterações funcionais, metabólicas e estruturais relacionadas à idade, mas também dos efeitos negativos de diversas doenças crônicas. Essas condições contribuem para a disfunção endócrina, alterações metabólicas e aumento da inflamação sistêmica.
Patologias cerebrais, como a doença de Alzheimer (DA), também comprometem a função motora, devido à neurodegeneração e atrofia muscular. O genótipo APOE ε4 foi associado à um pior desempenho motor, enquanto a redução da força muscular se relacionou ao maior risco de DA e declínio cognitivo, indicando uma conexão pouco compreendida entre músculo e cérebro.
Estudos investigaram a relação entre função motora e biomarcadores da DA, como beta-amiloide (Aβ), tau total (t-tau), tau fosforilada (p-tau), cadeia leve de neurofilamento e proteína ácida fibrilar glial (GFAP). A deposição cerebral de amiloide foi associada à menor velocidade de marcha e força, mas dados em líquor e sangue ainda são limitados.
Baixos níveis de Aβ42 no líquor foram associados à menor velocidade de marcha, enquanto tau e p-tau181 não mostraram associação significativa. No sangue, altos níveis de neurofilamento leve correlacionaram-se com menor força de preensão e maior declínio na marcha, além de piora nas pontuações de desempenho físico (SPPB).
Apesar desses dados, a relação entre biomarcadores sanguíneos da DA e força muscular em idosos sem demência permanece pouco investigada. Por isso, Ornago e colaboradores (2025) exploraram essa associação considerando também função cognitiva e fatores clínicos relevantes.
| Métodos |
O estudo utilizou dados do Swedish National Study on Aging and Care in Kungsholmen (SNAC-K), envolvendo 1.953 adultos com idade média de 70 anos, dos quais 39,9% eram homens, acompanhados por até 12 anos. Foram incluídos participantes sem demência, doença de Parkinson, esclerose múltipla ou institucionalização, com dados disponíveis de força muscular e biomarcadores sanguíneos relacionados à doença de Alzheimer.
Foram analisados sete biomarcadores: tau total, p-tau181, p-tau217, Aβ40, Aβ42, cadeia leve de neurofilamento e GFAP. O genótipo APOE foi determinado, classificando os participantes como portadores ou não do alelo ε4.
A força muscular foi avaliada por dois testes: preensão manual (dinamômetro) e levantar da cadeira (cinco repetições, tempo em segundos). Além disso, dados sociodemográficos, estilo de vida, doenças crônicas e função cognitiva (MMSE) foram coletados como covariáveis.
| Resultados |
A força muscular reduzida foi observada em 14,5% e 28,0% dos homens e das mulheres no teste de preensão manual, respectivamente, e em 25,3% dos homens e 35,5% das mulheres no teste de levantar da cadeira. Participantes com baixa força apresentaram maiores concentrações de p-tau181, p-tau217, tau total, neurofilamento leve e GFAP, além de menor razão Aβ42/Aβ40, indicando possível envolvimento de processos neurodegenerativos mesmo na ausência de demência.
Durante os 12 anos de acompanhamento, 12% dos participantes desenvolveram demência. Os resultados mostraram que níveis elevados de p-tau181, p-tau217 e neurofilamento leve estavam associados a maior declínio na força de preensão manual. Enquanto no teste de levantar da cadeira, além desses biomarcadores, o GFAP também esteve relacionado a pior desempenho funcional ao longo do tempo.
As mulheres apresentaram associações mais fortes entre biomarcadores (especialmente GFAP, tau total e neurofilamento) e declínio da força muscular, o que pode refletir diferenças hormonais, inflamatórias e metabólicas entre os sexos. Em participantes com níveis elevados de IL-6, as associações entre neurofilamento leve, GFAP e pior desempenho no teste de levantar da cadeira foram mais pronunciadas. Quanto ao genótipo APOE ε4, p-tau181 esteve mais associado ao declínio funcional em portadores, enquanto neurofilamento e GFAP mostraram maior impacto em não portadores. Essas associações foram mais evidentes em participantes mais jovens e fisicamente inativos.
| Conclusão |
Ornago e colaboradores (2025) destacaram o potencial dos biomarcadores sanguíneos relacionados à DA como ferramentas acessíveis para prever o declínio da força muscular em idosos. No entanto, mais pesquisas são necessárias para melhor compreensão dos mecanismos envolvidos e validar seu uso clínico na prevenção da sarcopenia e do comprometimento funcional.