Arte & Cultura

Publicado el 3 de noviembre de 2023

Novo livro do Dr. César Leo Kronwitter

Vento a favor

Este novo livro de contos é repleto de emoção do começo ao fim.

Autor/a: Dr. César Leo Kronwitter

Vento a favor

Análise

Hoje acordei renovado
talvez um sonho que não me lembro
Isso me deu um impulso.
É uma manhã esplêndida,
Sinto que tenho o vento a meu favor.
Eu abri minhas asas
Eu voo sobre o papel branco
Eu começo a escrever.

Este novo livro de contos é repleto de emoção do começo ao fim. Só a emoção mantém acesa aquela pequena chama interior que permite expressar em palavras o que pensa e sente, um momento espiritual propício para embarcar numa aventura narrativa e poética. A sua leitura tem um mapa, um caminho demarcado.

A primeira secção: Retratos, futebol e outras coisas leva-nos numa viagem por diferentes épocas e cenários históricos onde o desporto é o denominador comum nas histórias que são contadas. Personalidades do mundo esportivo desfilam nas páginas refletindo as paixões que marcaram suas vidas ou simplesmente destacando a humildade associada à sua grandeza que os eleva à categoria de ídolos. Os lugares comuns, o campo do bairro, o corredor do hospital, a bola fabricada, o orgulho pela cor da camisa, o abraço fraterno por um gol, refletem valores existenciais como a paixão, a lealdade, a amizade, o esforço, o aperfeiçoamento. Metáforas da própria vida.

Na segunda seção, um lugar para voltar, a história ou lenda retrata a paisagem do norte de Córdoba, onde o sol, a oliveira, a memória dos trens e a plataforma exercem um efeito mágico de encantamento.

Na terceira seção há mais para contar, histórias de vida e de amor que incorporam conflitos onde os personagens enfrentam situações existenciais com sua carga de aprendizado.

A poucos passos encontramos Rincón Breve onde as palavras ressoam em textos de apenas três versos. Uma ressonância ou vibração na sua leitura que provoca uma imagem que desperta, estimula, questiona e interroga.

Na última seção encontramos os Sinais, são os marcos, as marcas que indicam que estamos vivos. O cotidiano, a casa, o bar, os afetos navegam num universo profundo e maravilhoso: o das emoções.

Muitas vezes as palavras são evasivas, brincam de esconde-esconde e por mais que tentemos não conseguimos encontrá-las. É difícil entender, mas são justamente eles que decidem, que nos procuram e nos encontram onde querem e quando querem. Às vezes, no momento menos esperado, no local menos indicado, aparecem para iluminar, para orientar o caminho da escrita. Neste livro são palavras em voo e com o vento a seu favor.


As três copas

Três épocas. Três idades. Três copas.

Você tinha 17 anos e estava no último ano do ensino médio quando o décimo primeiro campeonato mundial estava sendo disputado em nosso país. Sob uma ditadura militar implacável, foi organizada a competição mais importante do futebol mundial. Muitas sombras cercavam o evento e a esperança de conquistar o nosso primeiro título era enorme. A bola rolava nos estádios novinhos e o alvoroço tomou conta de todos nós que estávamos do outro lado da dor e do terror. Nossa equipe, comandada pelo magrelo Menotti, apresentava um elenco de enormes jogadores e pela primeira vez trilhava um caminho sério de preparação para atingir o objetivo. “A seleção nacional deve ser uma prioridade”, disse o magrelo e tinha razão. Com sacrifício e muito futebol, subiu no torneio até chegar à final com a Holanda. Jogo duro e complicado em que um imparável Kempes aparece para marcar dois gols e se tornar o artilheiro e melhor jogador do torneio. A taça nas mãos do Capitão Passarela foi a realização de um sonho. Você saiu para comemorar na sua barba de velho com bandeiras, chapéus e tambores até altas horas da noite, mas a alegria, a festa, o futebol e até os jogadores ficaram para sempre manchados pela questão sociopolítica do país. Nosso primeiro drink foi envolto na mesma sombra daquela época. Injustamente um esquadrão suspeito. Injustamente, um elenco quase esquecido. Quero reivindicar nesta humilde história aquele punhado de jogadores que nos levaram pela primeira vez ao topo do futebol mundial com determinação e bom futebol. A história continua a cuidar do resto.

Aos 25 anos, já médico e no segundo ano de residência, você viu um gênio que fazia maravilhas com uma bola. No México, sob um calor opressivo, começou a décima terceira copa do mundo, a de Diego e companhia. Isso da mão de Deus. A do gol inigualável e maravilhoso contra o camisa dez inglês, montado em uma pipa cósmica. A da final com a Alemanha vencendo confortavelmente por 2 a 0, e depois empatando em 2 a 2 até a memorável jogada de Burruchaga, Burru, pela direita para marcar o terceiro antes da saída do goleiro alemão. Toda a comemoração do estádio Azteca foi maravilhosa. Diego já levanta a segunda taça com felicidade eterna e você comemora, envolto na bandeira, em Colón e General Paz entre uma multidão de estranhos que não conseguiram amenizar sua solidão. Depois o troféu, a varanda rosa, o presidente Alfonsín no alvorecer de uma democracia que renasceu.

Já passou muito tempo e muito rápido. Aos 61 anos, três filhos e um neto, você vive a vigésima segunda Copa do Mundo que acontece em um pequeno país do continente asiático. Vestindo a camisa da seleção e envolto na bandeira, você tem o enorme privilégio de ver e curtir outro monstro, outro gênio, porém mais próximo, mais comum, mais terreno. Lionel Messi acompanhado por um grupo de jogadores, a maioria muito jovens, incluindo a comissão técnica, que compreenderam como poucos o valor da união por detrás de um gol. Com humildade e um futebol eficaz, tático e às vezes letal, eles colocaram o torneio no bolso para coroá-lo com a melhor e mais dramática final de todos os tempos. Como você sofreu. A festa louca no estádio e nas ruas de todos os cantos do país. Um país que precisa de alguma alegria, mesmo que seja o futebol, que perdurará no tempo com a foto do capitão erguendo a taça e a terceira estrela estampada no peito.

A mesma paixão. A mesma sensação em azul claro e branco.


Dor silenciosa

A vida sempre dá vingança. Ele só soube disso muitos anos depois, quando a lembrança daquele dia estava embaçada, cinzenta, mas ainda doloroso. Ele nunca pediu explicações ou esperou um pedido de desculpas. Apenas um vislumbre chegou tarde demais, quando eu não precisava deles. O estrago já estava feito.

Naquela manhã, no frio mês de julho, o telefone tocou insistentemente às cinco. Miguel respondeu, quase dormindo:

- Venha agora! Temos uma emergência – avisaram do outro lado.

Ele voou pelas ruas congeladas e desertas. Quando chegamos, estava tudo pronto na sala de cirurgia. Na maca, uma mulher com gravidez a termo e sangramento incontrolável jazia angustiada sob a luz intensa. Apesar da velocidade e das mãos experientes, nada pôde ser feito. A placenta havia se descolado completamente, não deixando nenhuma chance de sobrevivência do pequeno. Miguel não teve uma única oportunidade de reanimá-lo. Foi assim que ele explicou ao pai que o ouviu sem expressão.

-Sinto muito, disse ele.

Miguel saiu andando lentamente pelo corredor com o pesado e avassalador fardo da frustração. O golpe foi certeiro, por trás, traiçoeiro. A queda repentina, sem a menor tentativa de defesa. Seu rosto caiu no chão. Atordoado, ele se sentou com o nariz e a boca sangrando. Ele procurou os olhos daquele homem que o insultava furiosamente. Ela olhou para ele com pena e consternação. O silêncio foi sua única resposta.

As feridas físicas sararam, porém as demais não tiveram o mesmo destino. Miguel simplesmente não aguentou e abandonou a profissão de neonatologista. Dedicou-se a trabalhar em algumas áreas herdadas da família. Seu novo tempo passou entre campos e currais, mas a vida às vezes insistia em lembrá-lo de quem ele era, ou melhor, de quem havia sido. Como naquela tarde em que voltava em sua caminhonete por uma estrada de terra e ao sair de uma curva viu um carro capotado, semidestruído e prestes a pegar fogo. Ele parou imediatamente e pôde ver o motorista preso, inconsciente, ensanguentado. Ele o resgatou com esforço antes que o veículo fosse carbonizado. Com manobras de reanimação consegui trazê-lo de volta a este mundo. Ele ficou ao lado dela até a chegada da ambulância que havia solicitado.

- Agradeça ao seu anjo da guarda! -Disseram-lhe quando o colocaram na ambulância já estabilizado e mais consciente- Se não fosse o médico….

Só naquele momento eles perceberam isso. Seus olhares se encontraram pela segunda vez e eles se reconheceram, apesar dos anos que se passaram.

- Desculpe – disse ele gaguejando, mas quase ninguém o ouviu.

O olhar de Miguel era o mesmo daquela outra vez.

Sua resposta também.


Biografia do autor

César Leo Kronwitter nasceu na cidade de Cruz del Eje, província de Córdoba, em 1961. É médico formado pela Universidade Católica de Córdoba. Especialista em pediatria e neonatologia, formou-se como residente no Hospital Infantil de Córdoba, onde também atuou como professor de pós-graduação. Leitor apaixonado, principalmente de autores latino-americanos. Escritor por necessidade, atualmente faz parte do grupo literário “Locos de la Estación” da cidade de Cruz del Eje.

Publicações:

  • Sofie – novela (2011)
  • Soñar…todavía- novela (2013)
  • Médico de Niños-relatos (2015)
  • Cuando ya nada importe-novela (2016)
  • Lo imborrable-novela (2018)
  • Tu palabra, mi voz-Cuentos y relatos (2020)
  • De barro y cielo-novela (2021)
  • Antologías: I y II del grupo literario Locos de la Estación.
  • Rumor de Pueblo, Destellos de Sol y Rieles,
  • Córdoba entre aromas y voces. Encuentro de
  • Escritores locales (2020-2021)

Contato: c-leok@hotmail.com