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Publicado el 6 de septiembre de 2026

Aborto espontâneo

Uso de antidepressivos na gravidez e risco de aborto espontâneo

Estudo de coorte com mais de 1 milhão de gestações avaliou a segurança do uso de antidepressivos no primeiro trimestre da gestação e demonstrou que o tratamento não esteve associado a um aumento clinicamente relevante do risco de aborto espontâneo.

Autor/a: Martin, F. Z. et al.

Fuente: British Journal of General Practice 2025; 75 (761): e843-e852. First trimester antidepressant use and miscarriage: a population-based cohort study using Clinical Practice Research Datalink GOLD

Introdução

O uso de antidepressivos durante a gestação é frequente, alcançando mais de 8% das gestantes em alguns países. Embora esses medicamentos não sejam formalmente contraindicados na gravidez, persistem dúvidas sobre sua segurança devido à associação com desfechos obstétricos adversos, incluindo aumento do risco de aborto espontâneo.

Do ponto de vista biológico, essa associação é plausível, uma vez que os antidepressivos podem inibir os transportadores de serotonina nas plaquetas, favorecendo eventos hemorrágicos. Todavia, a interpretação dos resultados é complexa, uma vez que as próprias condições psiquiátricas, como depressão e ansiedade, também estão associadas a complicações gestacionais, caracterizando um potencial confundimento por indicação (confounding by indication).

Diante das incertezas da literatura e das divergências entre diretrizes internacionais, Florence e colaboradores (2026) investigaram a associação entre o uso de antidepressivos no primeiro trimestre da gestação e o risco de aborto espontâneo, buscando distinguir os efeitos do tratamento daqueles relacionados à condição psiquiátrica subjacente e fornecer evidências mais robustas para a tomada de decisão clínica.

Métodos

O estudo utilizou dados do Clinical Practice Research Datalink (CPRD) GOLD, no Reino Unido, e incluiu gestantes com pelo menos uma gravidez entre 1996 e 2018, com acompanhamento clínico adequado antes e durante a gestação. A exposição foi definida como o uso de antidepressivos durante o primeiro trimestre da gestação.

As análises foram ajustadas para múltiplos potenciais fatores de confusão, incluindo idade materna, ano da gestação, nível socioeconômico, tabagismo, paridade, histórico de aborto espontâneo, gravidade da doença mental, uso concomitante de medicamentos e antecedentes de depressão e ansiedade.

A associação entre o uso de antidepressivos e o risco de aborto espontâneo foi avaliada por meio de modelos de riscos proporcionais de Cox, com estimativas ajustadas de riscos relativos e absolutos. Para minimizar o confundimento por indicação e pela gravidade da condição psiquiátrica, os autores realizaram análises em mulheres com depressão ou ansiedade prévias, análises estratificadas segundo a gravidade desses transtornos, comparação entre gestações expostas e não expostas da mesma mulher (análise de gestações discordantes para exposição) e pareamento por pontuação de propensão.

Também foram conduzidas análises segundo classe terapêutica, dose e padrão de uso dos antidepressivos, além de diversas análises de sensibilidade para avaliar a robustez dos resultados.

Resultados

Entre as 1.021.384 gestações elegíveis, 7,2% tiveram prescrição de antidepressivos no primeiro trimestre. As gestantes expostas apresentavam maior frequência de idade avançada, obesidade, consultas médicas, uso de outros medicamentos psiquiátricos e histórico de depressão, ansiedade ou doença mental grave.

Na análise principal, o aborto espontâneo ocorreu em 14,6% das gestações expostas e em 12,3% das não expostas. Após ajuste para fatores de confusão, essa diferença foi substancialmente atenuada, com riscos absolutos ajustados de 13,6% e 13,1%, respectivamente. Resultados semelhantes foram observados em análises restritas a mulheres com depressão, ansiedade ou doença psiquiátrica grave, bem como quando a exposição foi definida por pelo menos duas prescrições no primeiro trimestre.

Entre as mulheres que utilizavam antidepressivos antes da gravidez, não houve diferença no risco de aborto espontâneo entre aquelas que mantiveram o tratamento durante o primeiro trimestre e aquelas que o interromperam antes da gestação.

Na análise de gestações discordantes para exposição, observou-se associação entre uso de antidepressivos e aborto espontâneo. Entretanto, essa relação ocorreu apenas quando a primeira gestação da sequência era a exposta, desaparecendo quando a exposição ocorria em gestações subsequentes, sugerindo influência da ordem gestacional ou de fatores de confusão variáveis ao longo do tempo.

Os resultados do pareamento por pontuação de propensão foram consistentes com a análise principal. Nas análises secundárias, apenas o uso incidente de antidepressivos permaneceu associado ao aborto espontâneo após ajuste, enquanto o uso prevalente não apresentou aumento de risco. Com exceção dos antidepressivos tricíclicos, as demais classes apresentaram pequenas elevações de risco, e somente as doses baixas e intermediárias permaneceram associadas ao desfecho.

Conclusão

Os resultados de Florence e colaboradores (2026) sugeriram que o uso de antidepressivos durante o primeiro trimestre da gestação não está associado a um aumento substancial do risco de aborto espontâneo, fornecendo evidências que reforçam a segurança de sua utilização quando clinicamente indicada. Embora tenha sido observado um discreto aumento de risco entre mulheres que iniciaram o tratamento recentemente, esse incremento foi pequeno em termos absolutos e pode estar relacionado a outros fatores não totalmente controlados. Dessa forma, os achados contribuem para uma tomada de decisão mais informada e equilibrada entre profissionais de saúde e gestantes, considerando os benefícios do tratamento da saúde mental materna durante a gravidez.