| Introdução |
A demência é caracterizada pela deterioração em múltiplos domínios cognitivos, causando grande impacto nos pacientes, cuidadores e na sociedade. O uso de medicamentos antidepressivos tem sido sugerido como contribuinte para a patologia através de seus efeitos anticolinérgicos e vasculares adversos, acelerando assim o declínio cognitivo. Os idosos podem ser mais suscetíveis a esses efeitos devido às alterações relacionadas à idade na farmacocinética e farmacodinâmica.
Apesar da prescrição frequente de antidepressivos, seus efeitos a longo prazo permanecem incertos, pois o acompanhamento a curto prazo em ensaios clínicos geralmente impede a investigação do uso crônico. Por isso, Hofe e colaboradores (2024) desenvolveram um estudo com o objetivo de estimar o efeito do uso de antidepressivos no risco de demência, no declínio cognitivo e na atrofia cerebral em um estudo de coorte populacional de longa data.
| Métodos |
Realizou-se um estudo de coorte prospectivo, incluindo 5.511 participantes sem demência (Exame do Estado Mental [MMSE] > 25) do Estudo de Rotterdam (57,5% mulheres, idade média de 70,6 anos). O uso de antidepressivos foi extraído dos registros de farmácias desde 1991 até a linha de base (2002–2008). A demência incidente foi monitorada desde a linha de base até 2018, com avaliações cognitivas repetidas e ressonância magnética (MRI) a cada 4 anos.
| Resultados |
No total de 5.511 participantes, 923 (16,7%) haviam usado antidepressivos no período de aproximadamente 10 anos antes do estudo, dos quais 227 (4,1%) estavam usando na linha de base. O uso do medicamento foi mais frequente entre mulheres e em indivíduos com menor escolaridade.
De todos os usuários em algum momento, 309 (33%) haviam usado apenas antidepressivos tricíclicos (TCAs), 335 (36%) inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSRIs), 45 (5%) outros antidepressivos e 233 (25%) uma combinação dos mencionados.
> Demência incidente
Durante um acompanhamento médio de 10,2 anos, 639 indivíduos (11,6%) desenvolveram demência.
O uso de antidepressivos não foi significativamente associado ao risco de demência.
Em relação à classe farmacológica, o uso de SSRI não foi associado ao risco de demência, enquanto o de TCAs foi correlacionado a um aumento leve a moderado. A combinação, por sua vez, não foi associada ao risco da doença.
> Cognição
O uso de antidepressivos não foi associado ao declínio no desempenho cognitivo global ao longo do tempo.
Para os testes cognitivos separados, não foram observados efeito do uso de antidepressivos no desempenho a longo prazo na tarefa de substituição de letras e dígitos, no teste de Stroop, no de fluência verbal e no de aprendizado de 15 palavras (recordação tardia). O uso de antidepressivos foi associado a uma redução mais lenta no desempenho no Teste de Pegboard de Purdue.
Nos participantes que usaram apenas TCAs, não foi observada associação com o declínio cognitivo, independentemente da dose e duração do uso. Resultados semelhantes foram observados nos que usaram apenas SSRIs ou suas combinações.
> Volume cerebral derivado de imagens
Dos 4912 participantes que realizaram ressonância magnética na linha de base, 3588 (73,0%) tiveram pelo menos uma avaliação repetida.
Na linha de base, não foram observadas diferenças no volume cerebral entre os participantes que haviam usado medicação antidepressiva durante o período de exposição e os que nunca usaram. O uso de TCA e SSRI não foi associado à redução em nenhuma das áreas de interesse.
| Conclusão |
O uso de antidepressivos não foi associado a efeitos adversos a longo prazo no risco de demência, declínio cognitivo ou atrofia cerebral em indivíduos mais velhos sem sinais claros de comprometimento cognitivo.