Estudos sugeriram que a exposição precoce a antibióticos poderia estar associada ao desenvolvimento de doenças respiratórias obstrutivas, como a asma. Recém-nascidos prematuros, especialmente os de muito baixo peso ao nascer (VLBW), apresentam maior vulnerabilidade devido à imaturidade pulmonar, necessidade de ventilação invasiva, déficits nutricionais e risco aumentado de infecções recorrentes.
Esses pacientes podem ser expostos a antibióticos em diferentes momentos: antes do nascimento, durante o parto e após o nascimento, por suspeita de sepse nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs)— onde mais de 85% dos VLBW receberam antibióticos empíricos.
Apesar do se papel essencial na prática neonatal, o uso excessivo desses medicamentos pode levar à disbiose intestinal, inflamação sistêmica e possíveis impactos negativos no desenvolvimento pulmonar.
Por isso, Fortmann e colaboradores (2025) investigaram se exposições sequenciais a antibióticos durante uma fase crítica de desenvolvimento entre microbiota e sistema imunológico foram associadas a alterações na função pulmonar na infância.
O estudo de coorte multicêntrico da Rede Neonatal Alemã (GNN) incluiu 16.232 recém-nascidos prematuros internados em 58 UTINs na Alemanha entre 2009 e 2017. Uma amostra aleatória de 3.820 crianças foi reavaliada entre 5 e 7 anos de idade por meio de espirometria padronizada — exame que avalia a função pulmonar — incluindo o Volume Expiratório Forçado no Primeiro Segundo (VEF1) e a Capacidade Vital Forçada (CVF), além de triagem auditiva e visual, e questionário parental sobre histórico respiratório, desenvolvimento e reinternações. Dos participantes, 49,0% eram do sexo feminino e 36,2% provenientes de gestação múltipla.
Para análise, foram incluídas crianças nascidas por cesariana, estratificadas em três grupos: o de baixo risco (EAR I) foi exposto exclusivamente à profilaxia antimicrobiana cirúrgica (PAS) administrada à mãe antes da cesariana. O de risco intermediário (EAR II) foi exposto ao PAS materno e ao tratamento antibiótico pós-natal do neonato, enquanto o de alto risco (EAR III) foi adicionalmente exposto ao tratamento materno antenatal.
Os grupos I, II e III incluíram, respectivamente, 292, 1.329 e 1.488 crianças. A exposição pré-natal a antibióticos foi de 47,9%, e 90,6% receberam antibióticos pós-natais por suspeita ou confirmação de sepse. A mediana da idade gestacional foi de 27,8 semanas e o peso ao nascer de 970 g.
O desfecho primário foi função pulmonar reduzida (VEF1 < 80%), e os secundários incluíram episódios de chiado, bronquite e reinternações no último ano. Dos 3.109 participantes, 415 apresentaram dados ausentes de função pulmonar, principalmente devido à pandemia da COVID-19 (46,3%), comprometimento cognitivo (22,4%) e limitações físicas (15,7%).
Observou-se uma associação significativa entre maior exposição a antibióticos e pior função pulmonar, com queda progressiva nas pontuações z de VEF, refletindo pior função pulmonar à medida que aumentava o nível de exposição a antibióticos. Comparado ao grupo de baixo risco, os participantes do II e III apresentaram reduções significativas nas pontuações de VEF1. A exposição sequencial também foi associada à redução da CVF, maior chance de VEF1 < 80% do previsto e aumento de exacerbações de asma na infância.
Em resumo, o estudo de Fortmann e colaboradores (2025) identificou que múltiplas exposições a antibióticos em neonatos VLBW estiveram associadas à pior função pulmonar e maior risco de chiado na infância. Além disso, alteração da microbiota, inflamação sistêmica e fatores da prematuridade contribuíram para esse quadro. Embora fatores como complexidade clínica, predisposição genética e uso de antibióticos sejam difíceis de modificar, a identificação precoce de grupos vulneráveis permite orientar os pais e adotar medidas preventivas, como uso racional de antibióticos, aleitamento materno, vacinação e acompanhamento pós-alta. A criação de programas baseados em evidências é essencial para preencher lacunas no cuidado e promover o desenvolvimento pulmonar em crianças prematuras.