| Introdução |
Os alimentos ultraprocessados (UPF) são produtos comestíveis que contêm ingredientes que prolongam a palatabilidade, lucratividade e vida útil. Eles abrangem formulações com substâncias de uso culinário raro e aditivos cosméticos, como estabilizantes, corantes, realçadores de sabor, emulsificantes ou adoçantes.
Podem promover doenças cardiovasculares (DCV) por meio de vários mecanismos. Tipicamente, esses alimentos contêm calorias em excesso, açúcares adicionados, sódio e gorduras não saudáveis, todos associados a um maior risco de DCV. Além da baixa qualidade nutricional, são fontes de compostos gerados durante a produção e embalagem, que estão associados a distúrbios no metabolismo glicêmico, alterações da microbiota, inflamação, maior risco de diabetes, anomalias endoteliais, apolipoproteínas pró-aterogênicas, aterosclerose e danos ao tecido cardíaco.
Apesar das evidências crescentes sobre UPF e DCV, ainda existe uma lacuna significativa no conhecimento. Para fornecer mais evidências, Mendonza e colaboradores (2024) estimaram a associação entre o consumo total e específico de grupos desses alimentos com doenças cardiovasculares, doença cardíaca coronária (DCC) e acidente vascular cerebral (AVC) em três grandes coortes prospectivas de adultos dos EUA. Também conduziram uma revisão sistemática para atualizar as evidências das associações entre o consumo total de UPF e esses desfechos.
| Métodos |
A ingestão de UPF foi avaliada por meio de questionários de frequência alimentar no Nurses' Health Study (NHS; n = 75.735), Nurses' Health Study II (NHSII; n = 90.813) e Health Professionals Follow-Up Study (HPFS; n = 40.409). A regressão de Cox estimou associações específicas de cada coorte entre a ingestão total e específica de grupos de UPF com o risco de DCV (casos = 16.800), DCC (casos = 10.401) e AVC (casos = 6.758), sendo posteriormente combinadas por meio de modelos de efeito fixo. Meta-análises de efeitos aleatórios combinaram as descobertas prospectivas existentes sobre a associação UPF-DCV identificadas no Medline e Embase até 5 de abril de 2024, sem restrições de idioma. O risco de viés foi avaliado com a Escala de Newcastle–Ottawa, gráficos em funil e testes de Egger, e as evidências meta-analíticas foram avaliadas usando o NutriGrade.
| Resultados |
A média de idade na linha de base foi de 50,8, 36,7 e 53,4 anos para o NHS, NHSII e HPFS, respectivamente. A proporção de participantes de raça branca foi de 97,7%, 96,4% e 94,9% no NHS, NHSII e HPFS, respectivamente. A contribuição calórica média total dos UPF variou de 15,3–20,8% no Q1 e 42,8–49,6% no Q5, sendo que o NHSII apresentou o maior consumo. Entre as coortes, os três principais contribuintes de UPF para a ingestão de energia (mediana) foram pães e cereais, lanches doces e sobremesas e pratos prontos para comer/aquecer. Os participantes com maior ingestão total de UPF (em comparação aos de menor ingestão) apresentaram maior consumo de energia, menores pontuações no Alternative Healthy Eating Index (AHEI) e maior prevalência de tabagismo e obesidade.
A mediana do seguimento foi de 31,9, 26,0 e 29,7 anos para NHS, NHSII e HPFS, respectivamente. A proporção de mortes por causas não relacionadas a DCV durante o período de seguimento foi de 20,3%, 2,7% e 24,3% para cada estudo, respectivamente. Os participantes do NHSII apresentaram o maior risco para DCV e DCC em comparação com o NHS e o HPFS.
Bebidas adoçadas com açúcar ou artificialmente e carnes foram associadas a um risco maior de DCV e DCC. Em contrapartida, salgadinhos ultraprocessados, cereais frios e sobremesas lácteas apresentaram associação inversa com o risco de DCV e DCC. Pães ultraprocessados e cereais frios foram associados a um menor risco de AVC, e destilados a um menor risco de DCC. Isso sugere que grupos de UPFs têm contribuições diferenciais para o risco cardiovascular. Isso pode explicar o maior risco de DCV e DCC no NHSII em comparação com as outras duas coortes. De fato, a ingestão calórica total diária dos participantes desse estudo apresentava níveis mais altos de bebidas adoçadas e carnes processadas, e níveis mais baixos de sobremesas lácteas e cereais frios.
Para a meta-análise, a triagem de 2.540 publicações resultou em 19 estudos de coorte que atenderam aos critérios de inclusão. Os estudos compreenderam 1.261.040 adultos e 63.666 casos de DCV. A faixa etária dos participantes variou de 18 a 91 anos, e a duração do seguimento foi de 5,2 a 32,0 anos. Desses, nove estudos tiveram medidas repetidas de ingestão de UPF, nove foram conduzidos nos EUA e 13 utilizaram métodos de amostragem probabilística. Nas meta-análises comparando a maior vs. menor ingestão total de UPF, os riscos combinados para DCV, DCC e derrame foram 1,17, 1,23 e 1,09, respectivamente.
| Conclusão |
Os achados deste estudo reforçam a associação adversa entre o consumo de alimentos ultraprocessados (UPF) e o risco de doenças cardiovasculares (DCV) e doença cardíaca coronariana (DCC). Evidências robustas de grandes coortes e análises meta-analíticas demonstram que uma maior ingestão de UPFs está consistentemente associada a maiores riscos cardiovasculares, em especial no caso de bebidas adoçadas, carnes processadas e alimentos com aditivos cosméticos, como estabilizantes e adoçantes artificiais. Por outro lado, certos grupos de alimentos, como cereais frios e sobremesas lácteas, apresentaram uma associação inversa com o risco cardiovascular, sugerindo que nem todos os ultraprocessados possuem impacto homogêneo.
Dado o impacto significativo do consumo de UPFs na saúde cardiovascular, esses resultados salientam a importância de políticas de saúde pública voltadas para a redução do consumo de alimentos ultraprocessados, bem como o incentivo ao consumo de alimentos mais saudáveis e menos processados.