| Introdução |
Atualmente, os sistemas de saúde na Europa, especialmente na Itália, enfrentam desafios crescentes para fornecer cuidados médicos a um número cada vez maior de refugiados e sem-teto, que vivem nas ruas, em centros de acolhimento ou em coabitação. Dados mostram que, somente em 2021, quase 1,5 milhão de refugiados chegaram à Itália. Como consequência, há uma significativa escassez de informações sobre doenças e infecções tropicais negligenciadas, além da falta de educação sobre epidemiologia e as características clínicas e patológicas de condições dermatológicas.
É sabido que infecções cutâneas raras, como sarna, leishmaniose, micose e distúrbios neoplásicos da pele, são relativamente comuns nessa população. Nesse contexto, Sammain e colaboradores (2024) investigaram a carga de doenças, padrões de diagnóstico e tratamento em refugiados e moradores de rua, além de avaliarem a qualidade de vida relacionada à saúde (HrQoL).
| Métodos |
Este estudo prospectivo, observacional e não controlado, realizado em Roma, Itália, incluiu refugiados e moradores de rua que buscaram atendimento no Instituto Dermatológico San Gallicano (IRCCS) entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2022. A pesquisa avaliou a carga de doenças, os padrões de diagnóstico e tratamento, além da qualidade de vida relacionada à saúde. Para medir o impacto das consultas e dos tratamentos na HrQoL dos pacientes, foram utilizadas pesquisas específicas, permitindo uma análise mais detalhada sobre as melhorias proporcionadas pela assistência médica oferecida.
| Resultados |
No total, foram analisados 210 pacientes com histórico de imigração ou situação de sem-teto durante este estudo observacional. Desses, 148 foram atendidos pela primeira vez, enquanto 62 retornaram para consultas de acompanhamento. As condições de pele mais frequentes entre os pacientes eram de natureza infecciosa ou associadas a inflamações secundárias, além de alguns casos raros de condições neoplásicas cutâneas.
Escabiose foi diagnosticada em 18,1% das consultas, enquanto 10,7% dos pacientes apresentavam dermatite alérgica de contato. Acne foi a razão de 9,0% das consultas, e 7,9% dos pacientes foram atendidos devido à dermatite seborreica. Outros 7,9% dos pacientes apresentaram micose, enquanto 6,8% sofriam de psoríase e 6,2% de dermatite atópica. Além disso, foram identificados 10 casos de eczemas não especificados e 9 casos de verrugas virais. Outros diagnósticos, com incidência inferior a 5%, incluíram vitiligo, doenças sexualmente transmissíveis, queloides, carcinoma espinocelular, alopecia, lipoma, dermatite de estase venosa, infecções por herpes simplex , doenças de pele associadas ao diabetes (coceira), acantose nigricans, e um caso cada de acrocórdon, lúpus eritematoso, melasma, doença de Darier, urticária e fotodermatite.
Além desses diagnósticos, foi registrado um caso de doença de Madelung, um distúrbio raro do metabolismo lipídico que resulta no acúmulo anômalo de depósitos de gordura subcutânea ao redor do pescoço, ombros, tronco, quadris, braços e coxas.
> Qualidade de vida (QoL) relacionada à saúde
A melhoria na qualidade de vida relacionada à saúde foi avaliada por meio de um questionário de QoL validado, contendo 10 perguntas e uma pontuação somatória de 0 a 30, onde 30 representa a pior HrQoL. A avaliação foi realizada na primeira consulta e quatro semanas após o início do tratamento. No geral, a HrQoL apresentou uma melhora estatisticamente significativa de 7 pontos, passando de uma pontuação média de 16 para 9. Os maiores ganhos na HrQoL foram observados em pacientes que viviam em centros de recepção (melhora de 7,82 pontos), seguidos por aqueles que viviam nas ruas (melhora de 7,17 pontos) e, por último, entre os que residiam em coabitação (melhora de 6,08 pontos).
| Conclusão |
Aumentar a conscientização e o conhecimento dos médicos sobre as variações morfológicas observadas neste estudo é um passo fundamental para enfrentar as disparidades de saúde entre diferentes populações ao redor do mundo. Além disso, é crucial reduzir as barreiras ao acesso aos cuidados de saúde, incluindo a prevenção e o tratamento de condições dermatológicas, especialmente para as populações mais vulneráveis. Isso deve ser uma prioridade nos sistemas de saúde pública e social.
Por fim, o programa de apoio social destinado a essa população facilitou o acesso a consultas dermatológicas, resultando em melhorias não apenas na condição clínica dos pacientes, mas também em sua qualidade de vida, quatro semanas após a consulta e o início do tratamento.