A dor crônica é uma preocupação significativa entre pessoas com osteoartrite (OA), impactando negativamente a qualidade de vida, a funcionalidade física e o bem-estar mental dos pacientes. Embora ainda não existam terapias aprovadas para modificar o curso da doença, o tratamento da dor é um campo em constante evolução. Diversas organizações têm publicado diretrizes atualizadas para incorporar as evidências mais recentes sobre tratamentos, abrangendo intervenções educacionais, comportamentais, psicossociais, físicas, mente-corpo e farmacológicas para a OA.
Nesse contexto, Richard e colaboradores (2023) conduziram uma revisão narrativa sobre os produtos farmacêuticos utilizados no manejo da OA, com o objetivo de oferecer uma visão concisa sobre o estado atual das recomendações para o tratamento da doença.
| Anti-inflamatórios não esteroides orais (AINEs) |
Os anti-inflamatórios não esteroides orais são amplamente utilizados para tratar a dor relacionada à osteoartrite, apesar de seu potencial de toxicidade. Diretrizes de organizações como OARSI, ACR/Arthritis Foundation, AAOS, EULAR e ESCEO recomendam esses medicamentos, mas com ressalvas baseadas no perfil de risco do paciente, especialmente para aqueles com comorbidades cardiovasculares, renais ou gastrointestinais. A combinação de AINEs não seletivos com inibidores de bomba de prótons é frequentemente sugerida para reduzir efeitos adversos. Além disso, recomenda-se doses mínimas e períodos de tratamento limitados, particularmente para pacientes frágeis.
Contudo, a escolha do AINE deve considerar características farmacocinéticas, como meia-vida e metabolismo hepático, que variam entre as substâncias. Os AINEs apresentam riscos significativos, incluindo toxicidade gastrointestinal, cardiovascular e renal. Complicações como úlceras gástricas, hemorragia, nefrotoxicidade e eventos cardiovasculares graves são mais prováveis em pacientes com condições preexistentes ou com uso prolongado.
| AINEs tópicos |
Os anti-inflamatórios não esteroides tópicos são amplamente preferidos às formulações orais devido à menor toxicidade e exposição sistêmica reduzida. Diretrizes como as da OARSI e EULAR recomendam fortemente AINEs tópicos para osteoartrite de joelho e mão, especialmente em pacientes com comorbidades gastrointestinais, cardiovasculares ou em situação de fragilidade, devido aos benefícios modestos na redução da dor e reações adversas mínimas, como irritações cutâneas leves e transitórias. É crucial monitorar o uso combinado de AINEs tópicos e orais para evitar exceder a dose máxima recomendada. A combinação de eficácia localizada com baixa toxicidade torna os AINEs tópicos uma escolha estratégica para o manejo da dor na OA, especialmente em pacientes vulneráveis.
| Inibidores da COX-2 |
Os inibidores seletivos da COX-2, recomendados condicionalmente pela OARSI para osteoartrite de joelho, quadril ou poliarticular sem comorbidades, oferecem uma alternativa mais segura aos AINEs não seletivos, especialmente em pacientes com comorbidades gastrointestinais. Essa classe de medicamentos preserva a citoproteção gástrica, reduzindo os efeitos adversos gastrointestinais. No entanto, seu uso não é recomendado em pacientes com comorbidades cardiovasculares devido ao risco elevado de eventos cardiovasculares, como trombose, infarto do miocárdio e hipertensão.
A combinação de inibidores da COX-2 com inibidores da bomba de prótons pode ser vantajosa em cenários específicos, oferecendo um perfil de segurança superior. Do ponto de vista farmacocinético, os inibidores da COX-2, como o celecoxibe, são rapidamente absorvidos, metabolizados pelo fígado e excretados como metabólitos inativos, com baixa excreção inalterada na urina ou fezes.
| Duloxetina |
A duloxetina é recomendada condicionalmente pelas diretrizes da OARSI e ACR para o tratamento de osteoartrite, particularmente em pacientes com depressão generalizada e OA de joelho, devido à sua capacidade de inibir a recaptação de serotonina e norepinefrina, modulando a dor centralmente. A duloxetina pode ser utilizada isoladamente ou em conjunto com AINEs, sendo considerada uma alternativa aos opioides fracos em casos de sintomas persistentes e graves. No entanto, não se recomenda o uso em pacientes sem comorbidades ou com condições gastrointestinais ou cardiovasculares devido a potenciais eventos adversos. Apesar das limitações, a duloxetina também é amplamente empregada no manejo da dor neuropática associada à OA.
Apesar de sua eficácia, há preocupações com hepatotoxicidade, hipotensão ortostática, aumento da pressão arterial e outros efeitos adversos, como náusea, fadiga e tontura. O monitoramento cuidadoso é essencial, especialmente durante o início do tratamento e aumentos de dose.
| Ácido hialurônico intra-articular (IAHA) |
O ácido hialurônico intra-articular é uma opção terapêutica para osteoartrite, com diretrizes divergentes sobre sua eficácia e uso. A OARSI recomenda condicionalmente o IAHA para OA de joelho em todos os grupos de comorbidade, destacando sua segurança a longo prazo e benefícios na redução da dor além de 12 semanas de tratamento, especialmente em comparação com injeções de corticosteroides. Por outro lado, a ACR e a AAOS não recomendam o IAHA para OA de joelho, mão ou quadril, devido à inconsistência nas evidências de eficácia e ao pequeno efeito em comparação com placebo.
Embora o IAHA não altere a progressão da OA, pode melhorar a viscoelasticidade e a integridade estrutural da articulação, agindo também como uma molécula sinalizadora que influencia processos inflamatórios e de remodelação tecidual. Assim, o IAHA pode ser considerado uma alternativa terapêutica para OA de joelho em casos específicos, desde que avaliados os riscos e benefícios individualmente.
| Paracetamol |
O paracetamol, amplamente utilizado para o manejo da dor em osteoartrite inicial, apresenta recomendações variadas nas diretrizes devido a preocupações com eficácia e segurança. A AAOS recomenda fortemente seu uso para OA de joelho, enquanto a ACR sugere o paracetamol apenas condicionalmente para OA de joelho, quadril ou mão, destacando sua ineficácia como terapia única de longo prazo. A ESCEO e a EULAR são cautelosas, recomendando o paracetamol apenas para manejo de curto prazo (<3 g/dia), especialmente em pacientes sem alternativas farmacológicas viáveis. A OARSI, por sua vez, não recomenda seu uso, citando baixa eficácia e potencial hepatotoxicidade. Assim, o paracetamol é mais indicado para casos específicos, como opção temporária para dor leve, quando contraindicações limitam outros tratamentos.
| Tramadol |
O tramadol, um opioide sintético e inibidor da recaptação de serotonina/norepinefrina, é recomendado condicionalmente pela ACR para pacientes com osteoartrite de joelho, quadril ou mão, principalmente em casos em que alternativas, como AINEs ou cirurgia, não são viáveis. Contudo, a AAOS desencoraja o uso de tramadol para OA de joelho devido a sua baixa eficácia e alto risco de efeitos adversos. Para OA de mão, o EULAR considera o tramadol uma opção alternativa, embora com evidências limitadas. O tramadol deve ser reservado para situações específicas, pois seus benefícios são modestos, e o potencial de eventos adversos, como náusea, tontura e constipação, exige monitoramento cuidadoso. Seu uso, portanto, deve ser limitado a pacientes cuidadosamente selecionados, com doses ajustadas e sob supervisão rigorosa para mitigar os riscos associados.
| Capsaicina |
A capsaicina tópica é usada ocasionalmente como analgésico para osteoartrite, com recomendações divergentes entre as diretrizes. O ACR recomenda condicionalmente seu uso para OA de joelho, mas contraindica para OA de mão devido à eficácia limitada e aos frequentes efeitos adversos locais, como sensação de queimação e ardência. Da mesma forma, o EULAR não recomenda seu uso para OA de mão, enquanto o OARSI não recomenda a capsaicina para OA de joelho, citando preocupações quanto à baixa eficácia e segurança. Apesar dessas limitações, a capsaicina pode ser considerada para alívio sintomático em pacientes selecionados, desde que os benefícios superem os desconfortos locais.
| Conclusão |
Em conclusão, o tratamento farmacológico da osteoartrite é um campo em constante evolução, com o surgimento de terapias promissoras e o declínio de medicamentos anteriormente convencionais, como o paracetamol. Nesse contexto, é fundamental que os clínicos se mantenham atualizados com as recomendações e as evidências científicas mais recentes, garantindo decisões informadas e a otimização dos planos de tratamento para atender às necessidades individuais dos pacientes com osteoartrite.