O câncer de mama é o segundo tipo mais comum no mundo e a principal causa de morte por neoplasias em mulheres no Brasil. Apesar da melhora nas taxas de sobrevida ao longo dos anos, o câncer de mama ainda enfrenta desafios significativos no país – cerca de 40% dos casos são diagnosticados em estágios avançados (III-IV), com variações regionais que afetam os desfechos clínicos. Além disso, apesar das recomendações para tratamento multimodal, apenas 58% dos pacientes recebem mais de uma modalidade terapêutica, evidenciando dificuldades no acesso a um tratamento adequado.
No estado de São Paulo, o registro de câncer, mantido com alta qualidade desde 2000, permitiu análises detalhadas dos tratamentos e do estadiamento, revelando lacunas na sobrevida, na adesão às diretrizes e no acesso à saúde. Considerando que mais da metade dos novos casos de câncer de mama ocorrem em países de baixa e média renda, onde diagnósticos tardios e disparidades comprometem a sobrevida, é essencial fortalecer a vigilância epidemiológica e ampliar o acesso a tratamentos baseados em evidências no Brasil.
Por isso, Verduzco-Aguirre e colaboradores (2025) analisaram a distribuição dos estágios e as tendências temporais dos pacientes diagnosticados com câncer de mama invasivo no estado de São Paulo, além de avaliar os desfechos de sobrevivência conforme o estágio do diagnóstico. Os autores também investigaram a utilização do tratamento de acordo com a classificação da doença e compararam os padrões observados com estimativas de modelos publicados, ajustadas à distribuição local.
O estudo analisou todos os casos entre 2000 e 2019, utilizando o registro público da Fundação Oncocenter (FOSP). O banco de dados, composto por 81 registros hospitalares em mais de 40 municípios, reuniu informações detalhadas sobre estadiamento, características demográficas, modalidades de tratamento e desfechos dos pacientes. Foram excluídos casos com dados incompletos, além de Carcinoma Ductal In Situ (DCIS) e Carcinoma Lobular In Situ (LCIS). Além disso, as análises abrangeram tendências temporais de diagnóstico, intervalos entre confirmação médica e início do tratamento, utilização das modalidades terapêuticas e sobrevida global.
Foram avaliados 125.005 casos, com idade mediana de 55 anos no momento do diagnóstico e seguimento mediano de 7,4 anos. A distribuição dos pacientes por estágio foi de 23,7% no estágio I, 38,6% no estágio II, 27,4% com doença localmente avançada (III) e 10,2% com doença metastática (IV). O intervalo mediano entre o diagnóstico e o início do tratamento foi de 57 dias, e 47,9% dos pacientes tiveram início terapêutico após 60 dias, o que impactou a sobrevida global mediana, estimada em11,6 anos – variando de 20,8 anos em estágio I a 2,0 anos em estágio IV.
Na análise multivariada, o avanço do estágio e as modalidades de tratamento foram os principais fatores associados à sobrevida, evidenciando riscos de morte cada vez maiores conforme progressão da doença. Ao longo dos períodos analisados, observou-se uma pequena migração dos casos do estágio III para o IV e uma redução discreta no uso de quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Além disso, o intervalo entre diagnóstico e tratamento aumentou de 32 para 76 dias, elevando a proporção de tratamentos iniciados após 60 dias de 26,8% para 61,8%.
Comparações com estimativas de modelos terapêuticos revelaram discrepâncias significantes: para os estágios I e II, apenas 86% dos pacientes foram submetidos à cirurgia – número inferior ao esperado – e somente 60,1% dos pacientes em estágio I receberam radioterapia. Ainda que a prescrição de quimioterapia em estágio I se aproximasse do previsto, as demais modalidades, principalmente a terapia endócrina, ficaram abaixo do estipulado. Esses dados refletiram desafios na adesão às diretrizes e sugeriram uma limitação da capacidade do sistema, evidenciada pela estabilidade no número absoluto de cirurgias mesmo com o aumento dos casos.
Em resumo, apesar das melhorias na sobrevida decorrentes da detecção precoce e dos avanços terapêuticos, o estudo de Verduzco-Aguirre e colaboradores (2025) revelou lacunas significativas na prática oncológica em São Paulo. Foram identificados intervalos cada vez maiores entre diagnóstico e início do tratamento, bem como uma subutilização de modalidades recomendadas, especialmente da radioterapia, e discrepâncias em relação aos modelos terapêuticos ideais para cirurgia, quimioterapia e terapia endócrina. Os resultados evidenciam barreiras sistêmicas que comprometem a adesão às diretrizes, destacando a necessidade de ampliar a infraestrutura e o acesso a cuidados baseados em evidências, fundamentais para melhorar os desfechos do câncer de mama em regiões com recursos limitados.