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Publicado el 3 de septiembre de 2026

Transtornos mentais

Transtornos mentais e autolesão em jovens brasileiros: uma análise epidemiológica

Enquanto os transtornos de ansiedade lideram isoladamente como a principal causa de incapacidade não fatal na juventude, a mortalidade decorrente de autolesão exibe um salto preocupante, consolidando-se como a terceira principal causa de morte prematura a partir dos 15 anos de idade.

O Brasil tem avançado significativamente na formulação de políticas públicas voltadas às necessidades específicas de sua população jovem, destacando-se a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990 (para indivíduos até 18 anos) e, posteriormente, do Estatuto da Juventude, que estendeu essa cobertura para a faixa de 19 a 29 anos. Essas provisões legais estão refletidas na estrutura da rede pública de saúde mental comunitária brasileira, garantindo o direito à saúde e ao bem-estar emocional, ao mesmo tempo em que reconhecem que a juventude engloba marcos de desenvolvimento próprios, associados a forças e vulnerabilidades singulares.

Embora a juventude seja tradicionalmente associada a uma boa saúde física, ela é reconhecida como um período de alta suscetibilidade ao surgimento de transtornos mentais. Atualmente, a população jovem do Brasil, que totaliza cerca de 75 milhões de pessoas, enfrenta os impactos da pandemia da COVID-19, crises climáticas extremas e, além disso, mostram-se especialmente vulneráveis à violência e ao suicídio. No futuro, essa mesma geração arcará com o impacto de uma população em idade ativa reduzida para sustentar as necessidades sociais, inserindo-se em um mercado de trabalho dinâmico, porém marcado por relações de trabalho informais, precarizadas e pela exigência de alta qualificação profissional.

Diante desse cenário que exige ações urgentes de prevenção e tratamento para evitar a cronicidade dos transtornos mentais, a formulação de políticas eficazes no Brasil é historicamente dificultada pela escassez e fragmentação de dados epidemiológicos sistematizados sobre a saúde mental de crianças e adolescentes. Para preencher essa lacuna, os dados do estudo Global Burden of Disease (GBD) surgem como uma ferramenta analítica robusta, capaz de fornecer estimativas transversais de prevalência, mortalidade e impacto de incapacidade para uma ampla gama de condições médicas. Com base nisso, Buchweitz et al. (2026) utilizaram a iteração mais recente do GBD para analisar detalhadamente a carga atribuível aos transtornos mentais, transtornos por uso de substâncias e autolesão em cinco faixas etárias específicas que correspondem aos marcos regulatórios nacionais (5 a 9, 10 a 14, 15 a 19, 20 a 24 e 25 a 29 anos), conectando os resultados às necessidades e particularidades do cenário de saúde pública do Brasil.

Para a caracterização epidemiológica da saúde mental infantojuvenil no Brasil, o estudo mapeou as evidências disponíveis e identificou um total de 66 fontes de dados que cobriram a faixa etária de 5 a 29 anos, dentre as 77 fontes nacionais de dados sobre transtornos mentais e por uso de substâncias incluídas no GBD 2023. A análise detalhada dessas fontes revelou um padrão severo de desigualdade e concentração geográfica na produção de conhecimento científico no país. A grande maioria dos dados foi proveniente das regiões Sul e Sudeste, com os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul contribuindo para 41 e 37 estudos, respectivamente. Em contrapartida, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentaram escassa ou nenhuma representação em dados epidemiológicos locais.

No tocante às estimativas de prevalência, os resultados apontaram que cerca de 15,6 milhões de jovens, equivalendo a 20,91% da população brasileira entre 5 e 29 anos, preenchiam critérios para pelo menos um transtorno mental em 2023, afetando 6,9 milhões de homens e 8,7 milhões de mulheres. Paralelamente, 2,5 milhões de indivíduos, ou 3,36% da população nessa faixa, atendiam aos critérios diagnósticos para pelo menos um transtorno por uso de substâncias. Quando analisada de forma estratificada por faixa etária, a prevalência de transtornos mentais revelou um aumento contínuo e expressivo ao longo do desenvolvimento: inicia-se em 12,06% na infância (5 a 9 anos), passa para 18,81% na pré-adolescência e início da adolescência (10 a 14 anos), 23,58% na adolescência tardia (15 a 19 anos), 24,27% na transição para a idade adulta (20 a 24 anos) e alcança o pico de 24,95% no jovem adulto (25 a 29 anos). De forma semelhante, os transtornos por uso de substâncias registram uma escalada acentuada após os 10 anos, saltando de 0,22% (10 a 14 anos) para 3,18% (15 a 19 anos), 5,82% (20 a 24 anos) e 6,91% (25 a 29 anos).

Sob a perspectiva de gênero, observam-se distinções robustas: o sexo feminino apresentou maior prevalência de transtornos depressivos e alimentares a partir dos 10 anos, de transtornos de ansiedade na faixa de 25 a 29 anos, e do agregado de transtornos mentais nas faixas de 20 a 29 anos. Em contrapartida, o sexo masculino apresentou taxas significativamente maiores de abuso de álcool, drogas e de transtornos por uso de substâncias como um todo, com maior discrepância evidente nas faixas de 20 a 29 anos.

O impacto não fatal dessas condições na saúde pública foi expressivo, com os transtornos mentais figurando como a principal fonte de anos vividos com incapacidade (YLDs) em jovens brasileiros de 5 a 29 anos, acumulando 2,16 milhões de YLDs, enquanto os transtornos por uso de substâncias responderam por 265,8 mil YLDs em 2023. Em conjunto, essas condições representam 36,52% de toda a incapacidade estimada para o jovem brasileiro considerando a soma de todas as causas do GBD nessa faixa etária. No início da vida (5 a 14 anos), os meninos apresentaram uma carga absoluta de incapacidade por transtornos mentais superior à das meninas. Contudo, após essas idades, a carga feminina superou significativamente a masculina em todos os grupos etários, registrando um volume de incapacidade que mais do que dobrou na transição dos 10 para os 29 anos. Dentre todas as causas avaliadas, os transtornos de ansiedade consolidaram-se como o primeiro fator de incapacidade não fatal na juventude brasileira, liderando o ranking de YLDs em todas as cinco faixas etárias analisadas. No geral, de todas as 375 condições de saúde avaliadas pelo GBD, quatro transtornos mentais ou por uso de substâncias foram inseridos de forma consistente entre os dez principais contribuintes para a incapacidade em todas as faixas de idade estudadas.

Por fim, a mortalidade por autolesão, estimada para indivíduos a partir dos 10 anos de idade, refletiu um cenário de extrema gravidade, registrando 5.402 mortes anuais (4.149 em homens e 1.253 em mulheres), o que resultou em 361.631 anos de vida perdidos por morte prematura (YLLs) para ambos os sexos combinados. A autolesão despontou como o oitavo maior contribuinte para mortes prematuras na faixa de 10 a 14 anos e ascendeu de forma preocupante para a terceira posição entre todas as causas de morte prematura em todas as faixas etárias subsequentes (15 a 29 anos). A taxa de mortalidade por autolesão a cada 100 mil habitantes exibiu um padrão de crescimento exponencial conforme o avanço da idade, registrando 1,24 óbitos na faixa de 10 a 14 anos, elevando-se para 7,78 entre 15 e 19 anos, 12,37 no intervalo de 20 a 24 anos, e atingindo a marca de 13,43 óbitos por 100 mil habitantes no grupo de 25 a 29 anos. Esse avanço expressivo, aliado ao fato de que a mortalidade por causas externas e lesões foi substancialmente mais alta em homens nas faixas mais velhas.

Em suma, Buchweitz et al. (2026) revelaram um cenário epidemiológico alarmante de alta prevalência e carga de transtornos mentais, de uso de substâncias e de mortalidade por autolesão na juventude brasileira de 5 a 29 anos, o que ameaça diretamente o bem-estar e a produtividade dessa população na transição para a vida adulta. Diante disso, os autores argumentaram que a mitigação desse impacto exige priorizar intervenções precoces tanto no curso da vida quanto no desenvolvimento das patologias, adotando-se uma perspectiva de estágios clínicos diagnósticos capaz de acolher o sofrimento juvenil antes que ele evolua para quadros graves e crônicos. Na prática, isso requer expandir as portas de entrada do sistema de saúde para além das clínicas tradicionais, transformando as escolas em espaços comunitários de promoção de bem-estar e implementando redes de atendimento integradas de saúde física e mental voltadas especificamente para essa faixa etária. Embora a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a rede de CAPSi do SUS representem uma infraestrutura comunitária robusta para viabilizar esse avanço, o país ainda precisa superar gargalos crônicos, o que demanda a harmonização das políticas públicas com diretrizes baseadas em evidências para todo o curso de vida e maior transparência e controle na destinação de recursos financeiros ao sistema público. Por fim, torna-se imprescindível descentralizar as pesquisas epidemiológicas nacionais, corrigindo a grave escassez de dados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e a sub-representação de minorias altamente vulneráveis, como as populações indígenas, de modo a consolidar as estimativas do GBD como um ponto de partida analítico fundamental para fundamentar tomadas de decisão urgentes em prol do futuro dos jovens brasileiros.