| Introdução |
Os transtornos mentais são grandes contribuintes para a carga global de doenças, tendo impactos tanto no nível individual quanto societal e econômico. Quando se investiga os seus impactos, o foco geralmente tem sido o indivíduo diretamente afetado. No entanto, está bem estabelecido que os membros da família também são negativamente afetados. Achados sugeriram que os efeitos prejudiciais se estendem além desses, abrangendo também amigos e pares por meio das redes sociais.
Investigar a transmissão de transtornos mentais é especialmente importante na infância e adolescência. Esses são períodos de desenvolvimento chave em que o início de muitos transtornos ocorre com maior probabilidade e quando redes de contato e comportamentos duradouros são estabelecidos. Compreender o papel dos efeitos dos pares também ofereceria ferramentas para medidas de prevenção e intervenção mais bem-sucedidas, reduzindo assim a carga dos transtornos mentais.
Ao analisar associações em redes, surge uma dificuldade devido à tendência das pessoas de se conectarem com outros que possuem características semelhantes. Esse viés de auto-seleção (ou homofilia) pode ser mitigado usando redes impostas institucionalmente, como as turmas escolares, que não são formadas endogenamente pelos alunos escolhendo colegas semelhantes. Na Finlândia, os pais também não podem escolher diretamente a escola de ensino fundamental de seus filhos; em vez disso, a escola é selecionada com base na proximidade do local de residência.
Por isso, Alho e colaboradores (2024) usaram registros nacionais interligados da Finlândia para examinar se os transtornos mentais são transmitidos dentro das redes de pares formadas por adolescentes que estavam na mesma turma no nono ano do ensino fundamental.
| Métodos |
Foram incluídos dados de todos os cidadãos finlandeses nascidos entre 1º de janeiro de 1985 e 31 de dezembro de 1997, cujas informações demográficas, de saúde e escolares foram vinculadas a partir de registros nacionais. Os membros da coorte foram acompanhados a partir de 1º de agosto do ano em que completaram o nono ano do ensino fundamental (aproximadamente aos 16 anos) até o diagnóstico de transtorno mental, emigração, morte ou 31 de dezembro de 2019, o que ocorresse primeiro. A análise dos dados foi realizada entre 15 de maio de 2023 e 8 de fevereiro de 2024.
| Resultados |
Entre os 713.809 membros da coorte, 50,4% eram do sexo masculino. A idade mediana no início do acompanhamento foi de 16,1 anos. Durante 7,3 milhões de anos-pessoa de acompanhamento, com uma mediana de 11,4 anos, 167.227 membros da coorte (25,1%) foram diagnosticados com um transtorno mental, correspondendo a uma taxa de incidência de 2.283 por 100.000 anos-pessoa em risco.
Ter mais de um colega de classe diagnosticado com qualquer um dos transtornos mentais examinados foi associado a um risco 5% maior de diagnóstico subsequente. O desvio padrão dos interceptos aleatórios para as escolas foi de 0,12, indicando que alunos de uma escola que estava 1 DP acima da média tinham 13% mais chance de serem diagnosticados com um transtorno mental.
Análises específicas de diagnóstico revelaram associações positivas para transtornos de humor, ansiedade e alimentares, assim como para a categoria de transtornos internalizantes, mesmo com apenas um colega de classe diagnosticado. Para transtornos comportamentais e emocionais, assim como para a categoria de externalizantes, os achados foram significativos apenas com mais de um colega de classe diagnosticado.
Sendo assim, o risco foi mais pronunciado no primeiro ano de acompanhamento e mostrou uma relação dose-resposta, com um risco maior quando havia múltiplos indivíduos diagnosticados na rede de pares.
| Conclusão |
Com base em uma coorte nacional de mais de 700.000 indivíduos finlandeses, os resultados sugeriram uma associação dose-resposta entre o número de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais na mesma rede de pares durante a adolescência. A associação foi mais evidente para transtornos de humor, ansiedade e alimentares. Consequentemente, medidas de prevenção e intervenção que considerem influências potenciais dos pares sobre a saúde mental precoce podem reduzir substancialmente a carga de doenças mentais na sociedade. Pesquisas adicionais são necessárias para esclarecer os mecanismos que explicam essas associações observadas.