Nos últimos 20 anos, o número de suicídios por ingestão de medicamentos no Brasil tem crescido de forma acelerada. Segundo um estudo publicado em julho na revista Frontiers in Public Health, o total de mortes autoprovocadas pelo consumo de remédios subiu de 253 casos em 2003 para 922 em 2022, representando um aumento de 2,6 vezes. As mortes por autoenvenenamento, que correspondiam a 3,2% dos suicídios no início da década passada, hoje representam 5,6%.
O crescimento desse fenômeno preocupa especialistas da área de saúde pública, como o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele observou, por exemplo, que em Manaus, a venda de medicamentos, incluindo os de uso controlado, ocorre de forma indiscriminada em feiras livres. Essa prática reflete a falta de controle sobre a comercialização de substâncias potencialmente letais.
| Sobre o estudo |
O estudo, realizado por Orellana e colaboradores (2024), utilizou dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde para caracterizar as mortes por suicídio com medicamentos em pessoas a partir dos 10 anos de idade. A pesquisa revelou um perfil predominante: a maioria das vítimas é composta por mulheres (55%), solteiras (52%) e autodeclaradas brancas (53,2%). A maior parte dos óbitos ocorre na região Sudeste (41,7%), seguida pelas Sul (22,8%) e Nordeste (21,6%).
Outro dado importante é que duas em cada três mortes acontecem em estabelecimentos de saúde, possivelmente porque o método não causa morte instantânea, permitindo a tentativa de socorro.
Embora o estudo tenha mostrado que as mulheres são a maioria dos casos de suicídio por medicamentos, no geral, a maior parte das vítimas de suicídio ainda é do sexo masculino. Nas Américas, a cada três homens que cometem suicídio, uma mulher tira a própria vida. Contudo, o estudo liderado pelo psiquiatra Renato Oliveira e Souza, da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), indicou um aumento mais acelerado nas taxas de suicídio feminino. Entre 2000 e 2019, as taxas de suicídio entre mulheres cresceram 1,25% ao ano, enquanto entre os homens esse aumento foi de 0,49% ao ano.
> Medicamentos envolvidos
Em 40% dos casos de suicídio com medicamentos, são utilizadas drogas que atuam no sistema nervoso central, como sedativos e medicamentos para tratar epilepsia e doença de Parkinson. No entanto, em 55% das ocorrências, o tipo de medicamento utilizado não é identificado.
> Fatores que contribuem para o suicídio
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 700 mil pessoas tiram a própria vida a cada ano no mundo. Nos países de alta renda, o suicídio está frequentemente associado a problemas de saúde mental, como depressão e abuso de álcool. Contudo, muitas vezes, as pessoas também se matam impulsivamente em momentos de crise, como após a perda de um ente querido, o término de um relacionamento, problemas financeiros ou abusos.
No Brasil, o estudo apontou que aumentos nas taxas de suicídio por autointoxicação medicamentosa coincidem com crises regionais e globais. As taxas aumentaram a partir de 2010 e atingiram um pico em 2022, influenciadas por eventos como a crise econômica, política e a pandemia da COVID-19.

Gráfico 1. Em ritmo acelerado: Taxa de suicídios por consumo de medicamentos cresceu mais rapidamente depois de 2010 e novamente a partir de 2016. Imagem adaptada de revista Pesquisa FAPESP (2024).
| Papel da Saúde Mental e da Prevenção |
Para enfrentar o sofrimento mental que pode levar ao suicídio, é essencial ter à disposição uma rede de saúde mental especializada, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A fé, segundo alguns estudos, pode exercer um efeito protetor ao proporcionar um sistema de crenças estruturado, mas é importante reconhecer que muitas vezes a religião também pode aumentar o estigma em torno do suicídio, desencorajando a busca por ajuda médica.
Desde 2003, o Brasil dedica o mês de setembro à prevenção do suicídio, mas especialistas alertam para a necessidade de um plano nacional mais estruturado, que inclua pesquisas regionais e estratégias adaptadas a diferentes realidades. A prevenção também não pode depender apenas de influenciadores e coaches, que podem agravar o sofrimento de pessoas vulneráveis.
O aumento das mortes por autointoxicação medicamentosa no Brasil reflete uma série de fatores sociais, econômicos e de saúde pública. A criação de um plano nacional de prevenção ao suicídio, somada a uma rede robusta de apoio à saúde mental, é fundamental para combater esse problema crescente.