| Definição |
A síndrome de dor regional complexa (SDRC) é uma condição crônica que afeta tipicamente as extremidades e caracteriza-se por dor regional persistente, desproporcional ao evento inicial. Difere-se de outras síndromes de dor crônica pela presença de sinais de alterações autonômicas e inflamatórias proeminentes na região dolorosa, sendo diagnosticada com base nos critérios de Budapeste:
1. Dor contínua desproporcional a qualquer evento desencadeante.
2. Relato de ao menos um sintoma em três das quatro categorias:
• Sensorial: hipersensibilidade e/ou alodínia.
• Vasomotora: assimetria de temperatura e/ou alterações de cor.
• Sudomotora/edema.
• Motora/trófica: diminuição de amplitude de movimento e/ou disfunção motora (fraqueza, tremor, distonia) e/ou mudanças tróficas (pele, unhas, pelos).
3. Presença de ao menos um sinal em duas ou mais categorias no exame:
• Sensorial: evidência de hiperalgesia (picada) e/ou alodínia (toque leve, pressão profunda).
• Vasomotora: assimetria de cor e/ou temperatura.
• Sudomotora/edema: evidências de sudorese ou edema assimétrico.
• Motora/trófica: limitação de movimento e/ou disfunção motora e/ou alterações tróficas.
4. Ausência de outro diagnóstico que explique melhor os sinais e sintomas.
A infecção por herpes-zóster (HZ) apresenta-se com lesões vesiculobolhosas em distribuição dermatomal, resultantes da reativação do vírus varicela-zóster (VZV). Essa reativação nos gânglios da raiz dorsal leva ao desenvolvimento do herpes-zóster, uma erupção cutânea localizada acompanhada de dor neuropática.
| Apresentação do caso |
Um paciente do sexo masculino, 20 anos, com histórico de herpes-zóster em C5 há 1 mês, apresentou dor no membro superior direito. Inicialmente avaliado como possível nevralgia pós-herpética, recebeu gabapentina, tramadol e Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), mas, após um mês, voltou com piora da dor e múltiplas vesículas brilhantes na mão direita, associadas a sudorese excessiva. Negou trauma, convulsões ou fraqueza muscular.
No exame físico, observou-se dor e queimação intensa (EVA 7/10), alodínia, alterações de temperatura e sudorese acentuada, excedendo em quase 80% o lado contralateral, com miliária cristalina na mão e antebraço direitos. O exame motor das extremidades superiores e inferiores estava preservado, assim como os exames laboratoriais, de imagem e eletroneuromiografia estavam normais.
O diagnóstico de SDRC pós-herpes-zóster no membro superior direito foi confirmado pelos critérios de Budapest em conjunto com neurologista, que iniciou carbamazepina e pregabalina 75 mg duas vezes ao dia, com melhora progressiva em um mês.
Embora a SDRC limitada à mão seja rara (≈12%), deve ser considerada em dor pós-HZ persistente e refratária, sobretudo na presença de alterações tróficas, sensoriais e autonômicas. Hipóteses patogênicas incluem sensibilização simpático-nociceptiva, inflamação viral precoce e sinapses aberrantes, evidenciadas por sinais inflamatórios já no primeiro mês.
A SDRC deve ser suspeitada em pacientes pós-herpes-zóster que não respondem ou pioram apesar do tratamento precoce, especialmente quando há dor associada a alterações tróficas, sensoriais e motoras. Esse caso foi relatado para chamar atenção à ocorrência tardia da SDRC após herpes-zóster, frequentemente subdiagnosticada como nevralgia pós-herpética.

Tabela 1. Diferenças entre SDRC e nevralgia pós-herpética (PHN). Tabela adaptada de Sinha P. e colaboradores (2024).