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Publicado el 15 de junio de 2026

Doença celíaca

Qual o real impacto da doença celíaca no dia a dia do paciente?

Estudo longitudinal demonstrou um aumento de afastamentos por doença e aposentadoria por invalidez em pacientes com doença celíaca.

Autor/a: Schovsbo S, Bjerregaard A, Riis M ...

Fuente: Gastro Hep Advances, 2026 Registered sick leave in celiac disease: A register-based nation-wide cohort study

A doença celíaca (DC) é uma condição crônica mediada pelo sistema imunológico que afeta aproximadamente 1% da população, embora uma parcela significativa de casos permaneça sem diagnóstico. A patologia é desencadeada por uma resposta imune anormal à ingestão de glúten em indivíduos geneticamente suscetíveis, comprometendo primariamente o intestino delgado.

Clinicamente, a doença apresenta um espectro variado de manifestações. Os sintomas clássicos incluem diarreia, perda de peso e déficit de crescimento, no entanto, muitos pacientes apresentam sinais inespecíficos, como anemia ferropriva, cefaleia e fadiga. Essa natureza vaga dos sintomas e a variabilidade na gravidade impõem desafios diagnósticos consideráveis, resultando frequentemente em atrasos diagnósticos.

Mesmo após o diagnóstico, os pacientes relataram uma carga de tratamento elevada, comparável a outras doenças crônicas, além de enfrentarem um risco aumentado de comorbidades. A carga da doença pode ser ainda mais acentuada em grupos vulneráveis, como pacientes com resposta inadequada ao tratamento ou em situações de desvantagem social.

Nesse contexto, a licença médica atua como um indicador objetivo da carga da doença tanto para o paciente quanto para a sociedade. No entanto, o conhecimento atual sobre o absenteísmo na DC é limitado por estudos com desenhos heterogêneos e resultados conflitantes. Diante dessa lacuna, Schovsbo e colaboradores (2026) realizaram um estudo com objetivo de avaliar as licenças médicas registradas e as pensões por invalidez nos cinco anos que antecederam e sucederam o diagnóstico da DC.

Para isso, os pesquisadores realizaram um estudo de coorte longitudinal de base populacional na Dinamarca, utilizando dados de diversos registros nacionais através do número de identificação pessoal único de cada cidadão. A base de dados principal foi composta pelo Registro Nacional de Pacientes (NPR), que contém dados de encontros clínicos e diagnósticos hospitalares, e pelo registro DREAM, que rastreia semanalmente todos os cidadãos que recebem benefícios sociais e auxílios-doença no país. A população do estudo incluiu indivíduos com idade entre 25 e 60 anos que receberam o diagnóstico de DC entre 2008 e 2017. Para garantir a especificidade diagnóstica, foram incluídos apenas pacientes com pelo menos dois registros hospitalares de DC (códigos CID-10 K90.0 ou CID-8 269.0), definindo a data do segundo encontro como a data de indexação. Para cada caso, foram selecionados 10 indivíduos da população geral, pareados por sexo e idade, que não possuíam diagnóstico da doença.

A análise foi conduzida de forma a padronizar o tempo em relação ao diagnóstico, permitindo um acompanhamento de cinco anos antes e cinco anos após a data de indexação. O desfecho de licença médica foi definido com base nos registros de benefícios por incapacidade temporária. No contexto dinamarquês, os empregadores são obrigados a custear os primeiros dias de afastamento (período que variou entre 14 e 30 dias durante o estudo), de modo que o registro no DREAM ocorre apenas quando a licença excede esse período e gera um reembolso governamental ao empregador. Dessa forma, o estudo capturou predominantemente episódios de afastamento de média e longa duração. Adicionalmente, avaliou-se a concessão de pensão por invalidez, geralmente outorgada após períodos prolongados de enfermidade e tentativas frustradas de reabilitação.

Para caracterizar a amostra e realizar análises de subgrupos, foram coletadas variáveis de posição social, como nível educacional, renda familiar e coabitação. Também foram identificadas comorbidades relevantes nos cinco anos anteriores ao diagnóstico, incluindo osteoporose, diabetes mellitus, doenças tireoidianas, doenças cardiovasculares, câncer e transtornos mentais. As análises estatísticas basearam-se no cálculo da proporção semanal de indivíduos em licença e na média de semanas de afastamento por ano, utilizando razões de risco (RR) e razões de médias para quantificar as diferenças relativas entre os pacientes com DC e o grupo de comparação.

Os resultados incluíram uma amostra total de 2.494 pacientes com DC pareados com 24.578 indivíduos do grupo controle, apresentando uma predominância do sexo feminino (73,9%) e idade mediana de 41 anos. Antes do diagnóstico formal, os pacientes com DC demonstravam uma carga de saúde mais elevada, evidenciada por uma maior prevalência de comorbidades nos cinco anos anteriores ao índice, com a maior diferença absoluta observada na prevalência de diabetes mellitus.

No que diz respeito à licença médica, a proporção de indivíduos afastados foi de 7,10% entre os celíacos cinco anos antes do diagnóstico, em comparação a 5,28% no grupo controle, o que representa uma razão de risco (RR) de 1,34. Essa disparidade acentuou-se ao longo do tempo, atingindo um pico de RR 1,58 dois anos após o diagnóstico e mantendo-se elevada (RR 1,48) até o fim do período de acompanhamento de cinco anos.

A análise da duração dos afastamentos revelou que a média de semanas de licença médica por ano foi sistematicamente superior no grupo com DC. Enquanto cinco anos antes do diagnóstico os pacientes celíacos registravam uma média de 4,04 semanas de afastamento (contra 2,73 no grupo controle), esse número subiu para 5,80 semanas no primeiro ano após o diagnóstico. Paralelamente, os dados sobre pensão por invalidez mostraram tendências semelhantes, com os pacientes com DC apresentando maior risco de aposentadoria por incapacidade em todos os pontos analisados.

Ao avaliar a distribuição dos afastamentos durante todo o período do estudo, observou-se que 60,9% dos pacientes com DC tiveram pelo menos um episódio de licença médica, comparado a 51% do grupo controle. Notavelmente, o grupo com DC teve uma representação maior em categorias de afastamento prolongado, superando 10 semanas de ausência.

As análises de subgrupo reforçaram a robustez desses achados: embora o absenteísmo fosse geralmente mais alto em pessoas com menor nível de escolaridade ou com comorbidades, os pacientes com DC mantiveram níveis de licença médica consistentemente superiores em todos os estratos.

Em conclusão, Schovsbo e colaboradores (2026) avaliaram o afastamento do trabalho por doença registrado e a aposentadoria por invalidez ao longo do tempo para obter insights mais objetivos sobre a carga da DC. Os pesquisadores observaram maiores proporções de indivíduos com afastamento por doença registrado e maior média de semanas de afastamento entre pacientes com DC, desde cinco anos antes do diagnóstico até cinco anos após. São necessários mais estudos para ampliar o conhecimento sobre grupos com risco especial de maior carga da doença, a fim de possibilitar futuras intervenções.