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Principais pontos · Obesidade: O manejo dietético envolve a restrição calórica individualizada (redução de 500-750 kcal/dia, mas não abaixo de 1200 kcal para mulheres e 1500 kcal para homens), alimentação regular e consumo de alimentos saudáveis como verduras, frutas e cereais integrais, evitando gorduras saturadas e trans. · Proteínas: Dietas proteicas podem auxiliar na prevenção da obesidade e síndrome metabólica, reduzindo massa corporal, gordura e triglicerídeos, mas o consumo excessivo de proteína animal pode aumentar a mortalidade por DCV. · Carboidratos: A qualidade dos carboidratos é essencial, com recomendação de 45-60% da ingestão total de energia e pelo menos 25g de fibra por dia. · Fibras: A ingestão de 27-40g de fibra por dia é benéfica para a saúde cardiovascular. · Gorduras: Limitar gorduras saturadas e trans, e aumentar o consumo de gorduras poli-insaturadas (ômega-3 e ômega-6) é recomendado para reduzir o risco de DCV. · Antioxidantes: O consumo de frutas, vegetais, nozes e sementes, ricos em antioxidantes, contribui para a redução do risco de obesidade, doenças cardíacas, hipertensão e aterosclerose. · Dieta Mediterrânea (DM): Auxilia na perda de peso e está associada à redução do risco de obesidade e DCV, além de diminuir a ocorrência de eventos cardiovasculares graves. · Dislipidemia: O controle dos níveis de LDL e triglicerídeos é crucial, com a substituição de gorduras saturadas por mono ou poli-insaturadas, e a priorização de carboidratos complexos (55% da energia total) em detrimento dos simples (máximo de 10%). · Hipertensão: A dieta DASH e a DM são recomendadas para o controle da pressão arterial, evitando o consumo excessivo de sal e álcool. |
| Introdução |
A doença cardiovascular (DCV) é uma das principais causas de deterioração da saúde em todo o mundo. Eventos, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), bem como condições crônicas como hipertensão, são uma das causas mais comuns de morte.
Como o estilo de vida é o principal fator determinante da saúde cardiovascular, é crucial introduzir práticas de estilo de vida saudáveis, incluindo hábitos nutricionais, para reduzir o risco dessas condições. Alguns comportamentos alimentares podem aumentar o risco de principais fatores de risco de DCV, como obesidade, hipertensão ou dislipidemia, enquanto outros podem preveni-los efetivamente. Portanto, intervenções dietéticas com nutrientes específicos e consumo de alimentos funcionais são partes importantes da prevenção da doença cardiovascular.
Como os fatores de risco da DCV estão altamente relacionados à dieta, Mazur e colaboradores (2024) realizaram uma revisão com as principais estratégias alimentares para a prevenção de fatores de risco dessas doenças, como obesidade, hipertensão e dislipidemia.
| Obesidade |
A obesidade associada à resistência à insulina, dislipidemia, doença de Parkinson, hipertensão e apneia obstrutiva do sono, que estão associadas a um risco aumentado de DCV. Embora o índice de massa corporal (IMC) seja comumente usado para o seu diagnostico, a circunferência da cintura (CC) e a relação cintura-quadril (RCQ) são melhores indicadores da distribuição de gordura e podem identificar a obesidade central. Uma CC de mais de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres está associada a um risco maior de DCV e aumento da mortalidade, mas existem muitos fatores, como idade e histórico de mudança de massa corporal ao longo da vida, que também impactam o risco dessas doenças.
O manejo dietético da obesidade inclui vários princípios, como: limitação da ingestão calórica, implementação de uma dieta individualizada e equilibrada, juntamente com alimentação regular e monitoramento do progresso. Para alcançar a perda de peso, é necessário manter um déficit calórico. É recomendado uma redução diária de 500 a 750 kcal, mas não inferior a 1200 kcal para mulheres e 1500 kcal para homens. Aconselha-se comer muitas verduras, frutas, produtos de cereais integrais, carne magra e produtos lácteos com baixo teor de gordura. Por outro lado, recomenda-se evitar ácidos graxos saturados (AGS) e ácidos graxos trans. Em relação aos comportamentos alimentares, sugere-se fazer pelo menos 3 refeições principais por dia e 2-3 lanches para manter um suprimento constante de energia e evitar comer demais. Finalmente, é importante monitorar regularmente a massa corporal e o progresso da perda de peso para ajustar a dieta e a atividade física.
> Proteína
A incorporação de proteína na dieta desempenha um papel importante na manutenção da saúde, afetando processos metabólicos relacionados às sensações de saciedade, controle do apetite e regulação do metabolismo energético. Estudos sugeriram que o consumo regular de dietas proteicas pode ajudar a prevenir a obesidade e a síndrome metabólica, e levar a uma redução na massa corporal, gordura corporal e níveis de triglicerídeos. Entretanto, um estudo demonstrou que uma maior ingestão de proteína foi associada a uma maior mortalidade por todas as causas. A análise mostrou que a principal fonte dessa associação foi o consumo de proteína animal, que está associado ao aumento da mortalidade por DCV.
> Carboidratos
Diversos estudos sugeriram que melhorar a qualidade dos carboidratos é crucial para a redução do risco de DCV, em vez de necessariamente reduzir a sua quantidade consumida. Fontes de carboidratos de alta qualidade, como produtos de grãos integrais, vegetais e frutas, podem ser valiosos para a prevenção dessas doenças.
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos concluiu que atualmente não há evidências científicas suficientes para recomendar limitar ou aumentar a ingestão de carboidratos na dieta. Recomendou-se manter um equilíbrio e consumir carboidratos dentro da faixa de 45% a 60% da ingestão total de energia das refeições. Além disso, recomendou-se consumir pelo menos 25 g de fibra por dia, o que pode trazer benefícios à saúde.
> Fibra alimentar
A ingestão de fibra recomendada pela OMS, de 27-40 g por dia, é benéfica para a saúde cardiovascular. Esse carboidrato ajuda a regular os níveis de colesterol no sangue, previne a obesidade e reduz o risco de DCV. Ela atua retardando a digestão no trato digestivo, prolongando o tempo de saciedade Zhang e colaboradores (2022) descobriram que uma maior densidade e ingestão total de fibra alimentar estão associadas a um menor risco de DCV a longo prazo. Os resultados sugeriram que indivíduos de 20 a 59 anos que consumiram mais fibra alimentar tiveram um menor risco de DCV aterosclerótica. Em particular, notou-se que indivíduos mais jovens podem obter maiores benefícios para a saúde.
> Gorduras
Limitar o consumo de gorduras, especialmente AGS e ácidos graxos trans, bem como a ingestão inadequada de ácidos graxos poli-insaturados (AGPI), pode contribuir para a redução do risco de DCV. Pesquisadores confirmaram que uma dieta rica em AGPI, como ácidos graxos ômega-3 e ômega-6, pode ajudar a prevenir DCV. Enquanto isso, o consumo de AGS e ácidos graxos trans aumentou o risco dessas doenças.
> Agentes antioxidantes
Produtos como frutas, vegetais, nozes e sementes são ricos em nutrientes que ajudam a neutralizar os radicais livres e prevenir danos às células do corpo. Como resultado, eles podem potencialmente reduzir o risco de obesidade, doença cardíaca coronária, pressão alta e aterosclerose. Incluí-los na dieta diária pode possivelmente melhorar os resultados cardiovasculares.
> Dieta mediterrânea
Diferentes modelos alimentares podem ser usados para o tratamento da obesidade, mas a Dieta Mediterrânea (DM) parece ser uma das soluções mais eficazes para a redução de peso a longo prazo. Esta é baseada principalmente no consumo de grandes quantidades de vegetais, frutas, grãos integrais, peixe, azeite de oliva e nozes. Estudos mostraram que pessoas que aderem a essa dieta têm um menor risco de obesidade e DCV.
Além do mais, Romaguera e colaboradores (2010) enfatizaram a importância da DM na DCV. Eles demonstraram que participantes com alto risco de doença cardiovascular que seguiram essa dieta, suplementada com azeite de oliva extra virgem ou nozes, com alta ingestão de gordura, tiveram uma menor a ocorrência de eventos cardiovasculares graves ao longo de 4,8 anos de observação em comparação com o grupo controle designado para uma dieta com baixo teor de gordura.
| Dislipidemia |
Distúrbios lipídicos são outro fator associado ao aumento do risco de DCV. Níveis elevados de LDL e triglicerídeos são reconhecidos como fatores de risco de DCV. Em alguns casos, o perfil lipídico pode ser resultado de distúrbios genéticos, como a hipercolesterolemia familiar, no entanto, na maioria dos casos, uma dieta inadequada impacta esse perfil.
Ao considerar uma dieta, os distúrbios lipídicos geralmente estão ligados à ingestão de gordura, no entanto, outros aspectos da dieta, como carboidratos e consumo de álcool, também podem desempenhar papéis importantes em distúrbios específicos. Apesar da crença generalizada de que as dietas devem ser muito baixas em gordura, elas são essenciais para fornecer energia, vitaminas lipossolúveis e manter uma fisiologia corporal saudável. O aspecto importante da sua ingestão é a proporção qualitativa, ou seja, a ingestão de AGS e ácidos graxos insaturados, ou o consumo de ácidos graxos trans.
> Ácidos graxos saturados
Grandes quantidades de AGS nas membranas celulares e lipoproteínas levam à redução da funcionalidade. Tais lipoproteínas formam ligações estáveis com receptores de lipoproteínas celulares, o que pode resultar em transporte prejudicado de colesterol e levar ao desenvolvimento de dislipoproteinemias aterogênicas, aumentando o risco de aterosclerose. Acredita-se amplamente que o consumo de alimentos contendo AGS aumenta o risco de DCV, elevando o colesterol total e os níveis de LDL. Numerosos estudos confirmaram a ligação entre o aumento do consumo de AGS e uma maior incidência de doença arterial coronariana e piora das lesões ateroscleróticas nos vasos sanguíneos. Substituir ácidos graxos AGS por ácido graxo mono ou poliinsaturado leva a uma redução no colesterol total e LDL, enquanto minimamente reduz o HDL, resultando em uma menor proporção de colesterol total para HDL.
A fonte de AGS pode potencialmente também desempenhar um papel importante no risco geral de DCV. Por exemplo, a ingestão desses ácidos graxos provenientes do leite e de laticínios não demonstraram ser um grande fator de risco de DCV em comparação com o da carne. Mulheres que consumiram ≥ 36 g/dia de carne vermelha e experimentaram um aumento maior na L-carnitina tiveram um risco quase duas vezes maior de doença cardíaca coronária em comparação com aquelas com menor ingestão de carne vermelha e menos aumento na L-carnitina.
O fígado é o principal órgão metabólico para os ácidos graxos. A ingestão inadequada de AGS na dieta tem consequências na forma de composição lipídica celular anormal e acúmulo de lipídios tóxicos, levando à disfunção de organelas, danos celulares, inflamação e ocorrência de doenças.
> Ácidos graxos monoinsaturados
Os ácidos graxos monoinsaturados (AGMI) têm diversas funções biológicas, como: formação de membranas biológicas e participam da síntese de triglicerídeos. O consumo de ácido oleico, principal tipo de AGMI presente na dieta, pode proporcionar benefícios à saúde, como a redução dos níveis de colesterol e a redução do risco de doenças cardíacas. Substituir AGS por AGMI na dieta pode ajudar a reduzir os níveis de LDL.
> Ácidos graxos poliinsaturados
Incorporar ômega-3 em uma dieta melhora os níveis de triglicerídeos e, dessa forma, diminui o risco de DCV. Além disso, essa substância promove maior diversidade de microorganismos intestinais. Os ácidos graxos poliinsaturados (AGPI) do ômega-3 estão presentes principalmente em peixes, óleos marinhos e outros produtos do mar, e em algumas fontes vegetais. Em contraste, óleos vegetais, nozes, sementes, carne, aves e produtos de grãos são fontes ricas em AGPI ômega-6.
> Carboidratos
De acordo com as recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e da Associação Polonesa de Lipídios (PoLA), juntamente com o Painel Internacional de Especialistas em Lipídios para o tratamento da dislipidemia, os carboidratos complexos devem constituir 55% do fornecimento total de energia na dieta durante o dia, enquanto que os simples não devem constituir mais de 10% do fornecimento diário de energia. Também foi recomendado aumentar o fornecimento de fibra alimentar (em quantidades de cerca de 10g aos 5 anos, 15g aos 10 anos e 20g aos 15 anos), peixe marinho, vegetais, frutas, nozes e sementes, consumo de leite desnatado e possível introdução de esteróis e estanois vegetais na dieta recomendada até 2g/dia. O fornecimento de mono e dissacarídeos não deve exceder 10% da energia.
A atividade física regular também desempenha um papel importante na redução dos níveis de triglicerídeos, pois os músculos em funcionamento usam ácidos graxos como sua fonte de energia. Da mesma forma, a relação entre o consumo de álcool e os triglicerídeos foi comprovada, então o máximo de consumo moderado é tolerado, com abstinência total aconselhada.
| Hipertensão |
A pressão alta (PA) é um importante fator de risco de DCV, pois exerce pressão excessiva nas paredes dos vasos sanguíneos, o que pode levar a danos, aterosclerose e um risco aumentado de infarto do miocárdio, derrame e outras complicações cardiovasculares. As recomendações para o tratamento da hipertensão indicaram o papel do controle da massa corporal e, em caso de sobrepeso ou obesidade, sugeriram a redução do excesso de peso corporal por meio de uma dieta saudável e atividade física regular.
Tanto a DM quanto as abordagens dietéticas para combater a hipertensão (DASH) foram recomendadas para controlar a PA e reduzir outros fatores de risco de DCV. Acredita-se que a dieta mediterrânea pode reduzir o risco de DCV regulando os níveis de colesterol, PA e inflamação crônica de baixo grau.
A dieta DASH tem diferentes premissas sobre nutrientes e é baseada em quantidades recomendadas de ingredientes específicos, como magnésio ou potássio. Para atingir o objetivo do plano alimentar, é necessário seguir as recomendações apropriadas para a ingestão de ingredientes individuais. Em uma dieta amostral baseada em 2000 kcal por dia, é necessário consumir 6-8 porções de cereais e produtos de grãos todos os dias. Carne, aves e peixe devem ser consumidos em um máximo de 2 porções de 85 g cada. Além disso, recomenda-se comer 4-5 porções de vegetais e as mesmas porções de frutas todos os dias. Também deve ser incluído 2-3 porções de laticínios com baixo teor de gordura ou sem gordura, como leite, iogurte ou queijo em sua dieta. Gorduras e óleos devem ser consumidos na quantidade de 2-3 porções. A ingestão excessiva de sal deve ser evitada para diminuir ainda mais a PA. Além disso, também é importante incluir 4-5 porções de nozes, sementes, feijões secos e ervilhas por semana na dieta. O consumo de doces deve ser limitado a um máximo de 5 porções por semana para evitar a ingestão excessiva de açúcar.
O consumo regular de álcool pode levar a um aumento na PA, o que, por sua vez, aumenta o risco de sérios problemas de saúde, como doença cardíaca coronária, derrames e insuficiência renal. Por isso, recomendou-se limitar o consumo de álcool a um máximo de 8 unidades por semana para mulheres e 14 unidades por semana para homens.