O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) consolidou-se como um problema crítico de saúde pública, com uma prevalência que atinge 14,7% da população adulta nos Estados Unidos e com perspectivas de crescimento para as próximas décadas. Estima-se que mais de um terço dos adultos e um quinto dos adolescentes vivam com pré-diabetes, uma condição que eleva substancialmente o risco de evolução para o DM2. Anualmente, entre 5% e 10% dos indivíduos com pré-diabetes progridem para o diagnóstico de diabetes, e o risco cumulativo ao longo da vida para essa população chega a aproximadamente 70%. Além do risco de progressão, o pré-diabetes está intrinsecamente ligado a diversas complicações de saúde, incluindo obesidade, doenças hepáticas, neuropatia periférica, doenças cardiovasculares (DCV), doença renal crônica (DRC), doenças oculares e mortalidade precoce.
Diante do seu impacto na saúde, diversas pesquisas têm buscado caracterizar os fatores que contribuem para a transição do pré-diabetes para o DM2. Estudos identificaram que o risco aumenta com níveis basais elevados de hemoglobina glicada (HbA1c), índice de massa corporal (IMC), glicemia de jejum, triglicerídeos e circunferência abdominal, além do uso de anti-hipertensivos e histórico de doenças pancreáticas. No entanto, a incidência dessa progressão não é uniforme entre os diferentes grupos demográficos, variando conforme a idade, o sexo, a etnia e o status socioeconômico. Pesquisas indicaram que idades mais jovens e o sexo feminino podem estar associados a um maior risco, além de condições específicas como a síndrome dos ovários policísticos (SOP).
Embora programas de prevenção demonstrem que a progressão para o DM2 pode ser evitada ou retardada por meio de mudanças no estilo de vida e intervenções farmacológicas, ainda existe uma necessidade premente de compreender melhor os fatores de risco no cenário do "mundo real". Por isso, Dunn e colaboradores (2026) realizaram um estudo de caso-controle para identificar preditores de progressão para o DM2 entre pacientes com pré-diabetes, avaliando subgrupos específicos.
Para isso, os autores utilizaram dados de sinistros médicos (IQVIA PharMetrics® Plus) vinculados a registros eletrônicos de saúde (AEMR) e dados de atributos do consumidor (Cx) para capturar informações de raça e etnia, abrangendo o período de 1º de janeiro de 2016 a 31 de janeiro de 2024.
A população do estudo foi dividida em dois grupos: os casos, definidos como pacientes com pré-diabetes que evoluíram para o DM2, e os controles, que mantiveram o diagnóstico de pré-diabetes sem progressão durante o período analisado. O diagnóstico de DM2 foi identificado por meio de códigos da CID-10-CM ou resultados laboratoriais confirmatórios, como HbA1c ≥6,5%, glicemia de jejum ≥126 mg/dL ou glicemia de 2 horas ≥200 mg/dL.
Todos os participantes tinham pelo menos 18 anos e um diagnóstico documentado de pré-diabetes no período basal de um ano antes da data de índice. A condição foi definida seguindo critérios rigorosos: código CID-10-CM específico, glicemia de jejum entre 100-125 mg/dL, glicemia de 2 horas em teste de tolerância oral (75g) entre 140-199 mg/dL ou HbA1c entre 5,7% e 6,4%. Além disso, exigiu-se a manutenção contínua do plano de saúde durante esse ano basal para garantir a integridade dos dados clínicos e demográficos coletados.
Os pesquisadores avaliaram uma ampla gama de variáveis durante o ano anterior à progressão, incluindo características demográficas (idade, sexo, raça/etnia e tipo de pagador), o Índice de Comorbidade de Charlson (CCI) e uma lista extensa de condições clínicas, como obesidade, doenças cardiovasculares, esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH) e apneia obstrutiva do sono (AOS). Também foi monitorado o uso de medicamentos antidiabéticos, como metformina e agonistas do receptor de GLP-1.
Para a análise estatística, utilizou-se a regressão logística multivariada para identificar preditores independentes de progressão. Foram estimados cinco modelos diferentes: um para a população geral e quatro para subgrupos específicos (mulheres, pacientes com obesidade, pacientes com dados de raça/etnia e pacientes com dados laboratoriais completos). Os modelos foram ajustados para evitar a colinearidade entre variáveis, e os resultados foram reportados em razões de chances (OR) com intervalos de confiança de 95%, considerando-se estatisticamente significativos valores de p < 0,05.
Os resultados do estudo, que contou com uma amostra robusta de 39.281 casos de progressão para DM2 e 58.751 controles, traçaram um perfil detalhado dos fatores que antecedem o diagnóstico. Embora as médias de idade e a distribuição por sexo fossem equilibradas entre os grupos no início, a análise estatística multivariada identificou que a idade adulta intermediária foi um dos preditores demográficos mais consistentes. Pacientes nas faixas etárias de 35–44 anos, 45–54 anos e 55–64 anos apresentaram chances significativamente maiores de evolução para o diabetes em comparação com a faixa de 18 a 34 anos. Em contrapartida, aqueles com 75 anos ou mais apresentaram chances reduzidas de progressão. Quanto à etnia, pacientes pretos e hispânicos demonstraram um risco elevado em relação aos brancos.
Do ponto de vista clínico, a presença de múltiplas comorbidades no ano anterior ao diagnóstico foi um marcador determinante. Indivíduos com um CCI de 3 ou mais tiveram um aumento nas chances de progressão variando entre 30% e 48%. Entre as condições de saúde específicas, as DCVs, a obesidade, a MASH e a AOS destacaram-se como os preditores clínicos mais fortes. Além disso, o uso prévio de medicamentos como metformina e agonistas do receptor de GLP-1 também foi associado à progressão, sugerindo que esses pacientes já eram identificados pela prática clínica como de maior risco.
Os dados laboratoriais reforçaram a importância da monitorização glicêmica e lipídica rigorosa. Pacientes com HbA1c entre 6,0% e 6,4% no período basal tiveram chances quase 11 vezes maiores de progredir para o DM2 em comparação com aqueles no limite inferior do pré-diabetes. O impacto do peso foi igualmente evidente, com uma relação progressiva conforme a classe de obesidade. No perfil lipídico, níveis elevados de triglicerídeos foram associados a um maior risco de progressão, enquanto níveis mais altos de colesterol HDL mostraram-se um fator protetor. Esses padrões de risco clínico e laboratorial foram amplamente consistentes nas análises de subgrupos, incluindo mulheres e pacientes com diagnóstico prévio de obesidade.
Em suma, a identificação precoce de indivíduos com pré-diabetes em alto risco é fundamental para a adoção de estratégias preventivas que evitem a progressão para o DM2. Os dados evidenciaram que a meia-idade (35–64 anos), as etnias preta e hispânica e uma maior carga global de comorbidades no ano anterior ao diagnóstico foram fatores determinantemente associados à transição para a patologia. Além disso, condições específicas como obesidade, doenças cardiovasculares, apneia obstrutiva do sono, MASH e neuropatia consolidaram-se como preditores clínicos robustos. Em última análise, essas evidências permitem que os profissionais de saúde aprimorem a estratificação de risco e o planejamento terapêutico personalizado, otimizando a tomada de decisão clínica para retardar ou impedir a evolução do quadro glicêmico em populações vulneráveis.