Em uma palestra na Pumphandle Lecture na London School of Hygiene & Tropical Medicine, Cesar Victora, destacou que é possível produzir ciência relevante sem sair do país, apresentando um panorama de 40 anos de sua pesquisa sobre saúde e nutrição infantil em Pelotas, Brasil.
Sua carreira provou amplamente essa ideia, desde trabalhos sobre aleitamento materno exclusivo sob uma ditadura militar até a elaboração dos padrões de crescimento infantil da Organização Mundial da Saúde (OMS), passando pela construção de uma ambiciosa série de coortes de nascimento e pelo monitoramento global da equidade. Sua lição de vida foi: viver em um lugar ajuda a ter boas ideias.
Em um cenário em que a confiança no sistema global de saúde, construído ao longo dos últimos 25 anos, enfrenta fragilidades, as palavras de Cesar Victora foram uma inspiração. No entanto, é preciso reconhecer que o passado não garante o futuro. Os avanços que ajudaram a reduzir pela metade a mortalidade infantil abaixo de cinco anos ao longo de duas décadas podem ser revertidos. Diante disso, surge uma questão essencial: como será o futuro da saúde global? E o que podemos fazer para moldá-lo?
Carlo Masala, especialista em segurança internacional, alertou em seu livro If Russia Wins: A Scenario (2025) que imaginar futuros e cenários possíveis é essencial para evitar complacência intelectual. Ele defendeu que simulações e cenários ampliam nossa visão e ajudam a planejar estratégias realistas. Essa lógica também se aplica para a área da saúde, por exemplo, a pandemia da COVID-19 mostrou como o sistema falhou ao focar apenas em modelos baseados na gripe, ignorando coronavírus, um erro que custou milhões de vidas.
Alarmantemente, continua-se cometendo os mesmos erros hoje ao não considerar cenários amplos para futuras ameaças. Pouco se discute sobre riscos como uma pandemia de Nipah ou estratégias para construir confiança pública antes da próxima crise.
Há sinais positivos com estudos como a Série do The Lancet sobre doença de Alzheimer e a Comissão EAT–Lancet que já utilizam cenários para orientar políticas, mostrando que abordagens diferentes levam a ações distintas. A mensagem central da palestra foi que o futuro precisa ser tratado como uma variável independente no planejamento em saúde. Antecipar riscos e oportunidades é essencial porque é no futuro que a justiça para a saúde será definida.