Arte & Cultura

Publicado el 6 de marzo de 2026

História das mulheres na medicina

Pioneiras da saúde: o legado feminino que moldou a medicina

De sacerdotisas egípcias e médicas gregas a cirurgiãs do século XVII e líderes científicas dos séculos XX–XXI, a trajetória feminina na medicina atravessa exclusões acadêmicas, avanços regulatórios e revoluções tecnológicas.

Autor/a: Julianna Veltri

Historicamente, a trajetória das mulheres na medicina foi marcada por uma profunda desigualdade de gênero, fundamentada na crença cultural de que os homens possuíam uma superioridade intelectual inata por "direito natural", enquanto às mulheres era sistematicamente negado o acesso à educação e à cultura. Durante séculos, elas foram marginalizadas. No entanto, registros históricos de diversas culturas sempre confirmaram a aptidão natural feminina para o cuidado e para questões relacionadas à saúde.

A contestação desses preconceitos começou a ganhar força com pensadores como o teólogo e professor português Luís António Verney que, em 1746, defendeu vigorosamente a necessidade de instrução para as mulheres. Mais tarde, no século XIX, essa defesa avançou especificamente para o campo médico com José Joaquim Barbosa de Araújo Júnior, que em 1879 elogiou a capacidade intelectual feminina e defendeu o seu acesso ao ensino superior, destacando a medicina como um campo apropriado para elas.

Essa evolução demonstra que a conquista de liberdade de pensamento e de ação foi indispensável para a formação e afirmação profissional das mulheres. O que antes eram exemplos isolados de superação de barreiras sociais e legais transformou-se, na atualidade, em um sucesso exponencial de mulheres que ocupam posições de destaque global nas áreas da ciência e da saúde.

Antiguidade

As civilizações egípcia e grega oferecem registros valiosos sobre a participação feminina na saúde. No Antigo Egito, a medicina era uma responsabilidade da casta sacerdotal e, como as mulheres gozavam de igualdade de direitos, as sacerdotisas participavam do serviço divino e prestavam assistência aos enfermos. Já na Grécia, a prática médica esteve vinculada por séculos aos templos de Esculápio, onde as mulheres faziam parte do serviço divino e o cuidado médico era uma responsabilidade de ambos os sexos. Essas sacerdotisas eram numerosas e altamente respeitadas.

A transição da medicina mística para a racional nas Escolas Filosóficas Gregas não excluiu as mulheres. Pelo contrário, Aristóteles e Platão reconheciam a aptidão natural feminina para a medicina e a filosofia. No Corpus Hipocraticum, já existia uma clara distinção entre as parteiras e as médicas. O renomado médico Sorano de Éfeso defendia que a mulher deveria ser versada em todas as partes da medicina, incluindo cirurgia e farmacêutica, sendo capaz de julgar fenômenos clínicos com precisão. Além disso, nos "Gineceus" (espaços exclusivos para mulheres), a entrada de médicos homens era proibida, ficando o cuidado de saúde totalmente sob a responsabilidade de médicas mulheres.

Durante o domínio romano, a presença de médicas tornou-se ainda mais expressiva, impulsionada pela concessão de cidadania a estrangeiros instruídos por Júlio César, o que atraiu muitas profissionais gregas para Roma.

O reconhecimento social era tamanho que médicos como Octavius Horatianus dedicaram livros inteiros de suas obras a colegas mulheres, como a médica Victória, reconhecendo que em certas especialidades, como a concepção, o conhecimento delas superava o dos homens. Por fim, com a ascensão do cristianismo, mulheres como Santa Fabíola mantiveram essa tradição, sendo ela a fundadora do primeiro hospital na Itália.

Idade média

Neste período, a prática médica estava intrinsecamente ligada à visão cristã, na qual a doença e a cura eram atribuídas a Deus, e os profissionais de saúde atuavam como agentes da caridade divina. Nesse cenário, a tradição médica escrita era preservada em bibliotecas monásticas e catedrais, ambientes onde figuras como Santa Hildegarda de Bingen (1098–1179) se destacaram. Hildegarda foi uma intelectual de espírito independente e inteligência superior, cujas obras, como Causae et Curae e Physica, demonstraram um conhecimento avançado para a época sobre plantas medicinais e conceitos fisiológicos surpreendentes, incluindo percepções sobre a circulação sanguínea e o papel do cérebro como centro regulador da vida.

Um dos capítulos mais brilhantes para as mulheres nesse período ocorreu na Escola de Salerno, no sul da Itália. Diferente de outras instituições, Salerno possuía um caráter secular e uma abertura intelectual que favoreceu a inclusão de mulheres no estudo e na prática da medicina. Historiadores registram nomes de médicas e escritoras formidáveis vindas desta escola, como Abella, Mercuriade e Rebecca Guarna, que escreveram tratados sobre febres, feridas e embriologia. A figura mais emblemática desse período, no entanto, foi Trotula, conhecida como a "mulher sapientíssima" de Salerno. A ela são atribuídos manuscritos fundamentais como o De Passionibus Mulierum, dedicado à saúde da mulher e ao parto, contendo a primeira descrição de uma episiorrafia após laceração perineal.

Contudo, a partir do século XII, a ascensão das universidades e a formalização das escolas médicas trouxeram um novo paradigma de exclusão. À medida que a medicina se tornava uma profissão acadêmica regulamentada por órgãos seculares e municipais, as mulheres começaram a ser marginalizadas da prática oficial. No século XIV, a Igreja chegou a excomungar médicas, e casos como o de Jacobe Félice exemplificam essa perseguição: ela foi condenada pela Faculdade de Medicina de Paris, apesar do testemunho favorável de seus pacientes que elogiavam sua competência superior à dos médicos certificados. Apesar dessas barreiras, muitas mulheres continuaram a exercer a medicina de forma empírica, aprendendo através da prática e do estudo individual, resistindo como "mestras médicas" ou cirurgiãs em um sistema que buscava, cada vez mais, centralizar o exercício profissional na esfera masculina.

Século XVI

Com o avanço para o século XVI, o cenário da medicina foi profundamente impactado pelo Renascimento, que resgatou o estudo de textos clássicos originais e valorizou a observação direta dos fenômenos. Nesse período, a primeira linha de assistência à saúde era predominantemente doméstica, exercida pelas mulheres da casa que preparavam alimentos, bebidas e compostos medicinais seguindo as prescrições da época. Registros históricos destacam a prudência, o discernimento e a dedicação dessas, especialmente as nobres, que cuidavam de familiares e amigos como um dever social, religioso ou como forma de afirmação intelectual.

Uma figura de destaque nesse contexto foi Lady Grace Mildmay, que não apenas praticava a medicina e a cirurgia como um ato de caridade cristã, mas também organizou bibliotecas médicas e compilou receitas e histórias clínicas detalhadas de seus pacientes. Sua prática baseava-se na medicina galênica, que buscava o equilíbrio dos humores para a saúde física e espiritual, e utilizava terapias alopáticas com plantas medicinais, minerais e compostos químicos. Simultaneamente, a assistência ao parto começou a passar por um processo de formalização. A partir de meados do século XV, conselhos municipais passaram a instituir licenças formais para parteiras, exigindo critérios de competência e caráter moral.

Contudo, o século XVI também consolidou barreiras significativas, com a medicina acadêmica reafirmando a exclusão das mulheres das escolas médicas e da prática clínica oficial. Com o aumento da profissionalização e a preferência por profissionais certificados, as regulamentações que proibiam mulheres de tratar pacientes tornaram-se mais rígidas.

Século XVII

No século XVII, a medicina viveu um período de transição e desafios, marcado pela descoberta da circulação sanguínea por William Harvey em 1628 e pelo desenvolvimento de teorias fundamentadas nas ciências exatas e na anatomia. Com a introdução do método indutivo de Bacon e a ascensão da iatrofísica e da iatroquímica, a prática médica tornou-se mais complexa. Para as mulheres, foi uma era de contrastes: ao mesmo tempo que a imprensa facilitava a disseminação de conhecimentos médicos em línguas vernáculas, as universidades tornavam-se ambientes mais restritos, exigindo testes religiosos e proibindo formalmente o treinamento feminino, embora certificações episódicas ainda ocorressem.

A assistência à saúde continuou fortemente centrada no ambiente doméstico, onde esposas de nobres e clérigos desempenhavam um papel vital, oferecendo conselhos, alimentos e tratamentos aos necessitados. Economicamente, as mulheres frequentemente participavam dos negócios de seus maridos, na Companhia de Barbeiros de Londres, por exemplo, as viúvas tinham permissão para continuar o ofício, um direito que, curiosamente, era negado às viúvas de cirurgiões. Na Alemanha, diversas mulheres se destacaram pela produção intelectual, como Elisabeth Marguerite Keil, autora de um manual de obstetrícia, e Margarite Sibylle von Loeser, que memorizou tratados médicos complexos para suas experiências terapêuticas.

Duas figuras exemplificam a competência técnica feminina neste século. Na Suíça, Marie de Colinet atuou como cirurgiã e parteira, trabalhando ao lado de seu marido, o renomado Fabricius Hildanus. Ela foi responsável por feitos cirúrgicos notáveis, como a extração de um corpo metálico do olho utilizando uma pedra magnética e a realização de uma cesariana. Na Inglaterra e Escócia, Lady Halkett dedicou-se ao cuidado dos pobres e feridos de guerra, como na Batalha de Dunbar, recebendo reconhecimento real por sua competência. Além dela, a Condessa de Kent, Elisabeth, publicou uma obra de grande sucesso intitulada "A choice manual or rare secrets in physick and chirurgery", que teve diversas edições e foi traduzida para o alemão, consolidando o papel da mulher na literatura médica da época.

Século XVIII

Na medicina, este século foi marcado pela expansão dos hospitais, o que melhorou as condições de aprendizado clínico e deu prioridade a áreas como a classificação nosológica das doenças, o controle de epidemias e a higiene pública. Embora as universidades estivessem se reformando para oferecer um ensino mais experimental, o acesso formal das mulheres a essas instituições permanecia, em regra, proibido. No entanto, o século XVIII foi palco de trajetórias femininas extraordinárias que desafiaram essas normas e deixaram legados perenes na ciência médica e na saúde pública.

Um dos focos centrais deste período foi o esforço para reduzir as altas taxas de mortalidade neonatal e infantil por meio da educação. Nesse cenário, destaca-se a francesa Angélique du Coudray, uma parteira de prestígio que, com o apoio do rei Luís XV, percorreu a França ensinando a arte do parto. Ela foi pioneira ao utilizar um modelo obstétrico em tamanho real para facilitar a compreensão das manobras necessárias durante o nascimento, além de publicar um livro ilustrado sobre o tema em 1759. Na Alemanha, ocorreu um marco histórico com Dorothea Christiane Leporin, que se tornou a primeira mulher a obter o grau de doutora em medicina no país. Com autorização especial de Frederico II da Prússia, ela estudou na Universidade de Halle e defendeu sua tese em 1754, exercendo a medicina com recomendações que permanecem atuais em certos aspectos.

A Itália, particularmente a Universidade de Bolonha, demonstrou uma abertura incomum para a época, graduando mulheres como Maria Mastellari e Maria Dalle Donne, para quem Napoleão Bonaparte criou a primeira cadeira de obstetrícia. Um destaque absoluto foi Anna Morandi Manzolini, que se tornou professora de anatomia e ganhou fama internacional por suas preparações anatômicas em cera. Ela foi a primeira a representar em cera estruturas minuciosas como nervos e vasos sanguíneos, executando seu trabalho com um detalhamento que despertou o interesse de diversas universidades europeias. Outras figuras, como as francesas Bihéron e Geneviève-Charlotte d’Arconville, também se destacaram em demonstrações anatômicas e estudos sobre a putrefação, enquanto Madame Necker fundou um hospital em Paris que serviu de modelo para reformas hospitalares e para a medicina legal.

Além da academia e da obstetrícia, as mulheres do século XVIII foram fundamentais na introdução de novas tecnologias e tratamentos. Na Inglaterra, Lady Montague foi uma defensora fervorosa e promotora da técnica de inoculação contra a varíola, conhecimento que trouxe de Constantinopla. Outro exemplo de sucesso foi Jeanne Stephens, cuja invenção para o tratamento de litíase urológica foi comprada pelo parlamento britânico por uma quantia considerável. Essas mulheres provaram que, mesmo sem o acesso facilitado ao ensino formal, a capacidade intelectual e a dedicação feminina foram indispensáveis para o progresso da medicina no século XVIII.

Século XIX

O século XIX representou um divisor de águas para a ciência médica, caracterizando-se pela individualização das especialidades e pelo surgimento de tecnologias diagnósticas fundamentais, como o estetoscópio de Laennec. Foi um período de intensa evolução teórica, com a afirmação da teoria celular e da patologia celular por Virchow, além da introdução da estatística como instrumento de análise clínica para a tomada de decisões terapêuticas. A cirurgia também viveu uma revolução sem precedentes com o desenvolvimento da anestesia, dos métodos físicos de hemostasia e, crucialmente, da introdução da assepsia e antissepsia defendidas por nomes como Pasteur e Lister, o que permitiu uma redução drástica na morbimortalidade pós-operatória.

No campo da saúde pública e assistência, mesmo antes do domínio completo da microbiologia, figuras como Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale transformaram o ambiente hospitalar. Enquanto Semmelweis focou na redução da febre puerperal através da higiene, Nightingale reestruturou os serviços de enfermagem, introduziu a termometria sistemática e estabeleceu modelos de gestão hospitalar que priorizavam as condições sanitárias, tornando-se uma referência mundial na área. No final do século, a descoberta dos raios X por Roentgen e as pesquisas pioneiras de Marie Curie sobre radioatividade abriram novos horizontes para o diagnóstico por imagem e o tratamento de neoplasias, com Curie tornando-se a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a dirigir unidades móveis de radiografia durante conflitos mundiais.

Para as mulheres, o século XIX marcou a conquista definitiva do acesso ao ensino médico formal, embora sob forte resistência institucional. Em 1848 a primeira escola de medicina para mulheres, o Boston Female Medical College, foi inaugurada para doze alunas. Entretanto, o seu criado, Samual Gregory não era um defensor do feminismo, mas acreditava que era “antinatural” que médicos homens atendesses mulheres durante o parto. Em poucos anos, a instituição expandiu seu escopo para além da obstetrícia e se tornou o New England Female Medical College. Quase 20 outras escolas de medicina para mulheres foram criadas nos Estados Unidos entre 1850 e 1895, impulsionadas em parte pelo crescente movimento feminista no país. Porém, em 1910, apenas duas permaneceram, devido em parte ao aumento do número de escolas médicas tradicionalmente masculinas que passaram a aceitar mulheres.

Elizabeth Blackwell tornou-se a primeira médica graduada nos Estados Unidos em 1849, enfrentando discriminações prévias até ser aceita pelo corpo discente masculino do Geneva Medical College. Na época, os estudantes homens concordaram em aceitá-la na instituição pois acharam que seu pedido era brincadeira. Após se formar, Blackwell cofundou o New York Infirmary for Indigent Women and Children, em Manhattan, para atender pacientes de baixa renda e apoiar a formação de médicas. Na Europa, marcos semelhantes foram estabelecidos por Elizabeth Garrett Anderson no Reino Unido e Madeleine Brès na França, a primeira francesa a obter o título em seu país após o Conselho de Ministros deliberar a seu favor. Outro exemplo de resiliência foi Sophie Jex-Blake, que liderou o grupo conhecido como "as sete de Edimburgo" e fundou escolas de medicina para mulheres após enfrentar batalhas legais contra a recusa das universidades britânicas em graduá-las.

Em 1864, Rebecca Lee Crumpler, tornou-se a primeira mulher negra nos Estados Unidos a receber um diploma de medicina. Na época, quase todas as escolas médicas proibiam a entrada de estudantes negros e, entre 54.500 médicos no país, apenas 300 eram mulheres. Crumpler, inspirada pelo cuidado que uma tia dedicava a vizinhos enfermos, trabalhou primeiro como enfermeira antes de tentar ingressar na faculdade de medicina. Ela acabou sendo admitida no New England Female Medical College, em Boston, depois que médicos que conheciam seu trabalho enviaram cartas elogiando suas habilidades. Após a Guerra Civil, Crumpler passou um período atendendo pessoas anteriormente escravizadas na Virgínia, onde enfrentou racismo e sexismo, mas ainda assim se sentiu ainda mais motivada a cuidar daqueles que mais precisavam.

No contexto brasileiro e lusófono, este período também trouxe avanços significativos. No Brasil, destaca-se a figura de Marie Josephine Mathilde Durocher, que em 1871 tornou-se a primeira mulher a ser admitida como membro da Academia Imperial de Medicina; embora diplomada em artes de partejar, sua vasta competência clínica, publicações científicas e relatórios médico-legais garantiram-lhe um prestígio equivalente ao dos médicos da época. Em Portugal, as irmãs Aurélia e Laurinda Morais Sarmento fizeram história ao se graduarem juntas em medicina e cirurgia no ano de 1891, estabelecendo consultórios dedicados à saúde materno-infantil e utilizando instrumental avançado para a época. Essas trajetórias demonstram que, apesar das restrições legais e culturais, a determinação feminina foi fundamental para a modernização da prática médica global no século XIX.

Séculos XX e XXI

O século XX consolidou a medicina baseada em evidências e transformou o prognóstico de inúmeras patologias através da descoberta da insulina (1921) e da penicilina (1928), que inaugurou a era dos antibióticos e reduziu drasticamente a mortalidade bacteriana pós-operatória. A evolução tecnológica trouxe dispositivos implantáveis, como marcapassos e próteses, além de revolucionar o diagnóstico com o desenvolvimento da tomografia computadorizada e ressonância magnética. Na genética, a identificação da estrutura da dupla hélice do DNA em 1953 e o sequenciamento completo do genoma humano em 2001 abriram caminho para a terapia gênica e a medicina personalizada. Mais recentemente, a cirurgia robótica, a impressão 3D e a Inteligência Artificial invadiram os serviços de saúde, otimizando o tempo de decisão clínica e permitindo procedimentos minimamente invasivos com recuperações mais rápidas.

Em 1915, fundou-se a primeira associação médica para mulheres. Quando a Medical Women’s National Association foi lançada, nem mesmo as médicas tinham certeza se queriam uma organização desse tipo. A fundadora, Bertha Van Hoosen decidiu seguir adiante mesmo assim, motivada em parte por sua frustração ao ser impedida de se tornar membro da sociedade local de obstetrícia e ginecologia. No início, a organização, hoje chamada de American Medical Women’s Association, atraiu apenas 153 das 6.000 médicas que existiam no país.

A Primeira Guerra Mundial impulsionou a importância da associação. Após ter seu pedido de serviço no Exército dos EUA negado, o grupo criou seu próprio esforço de ajuda humanitária e enviou cerca de 130 médicas, motoristas de ambulância e outras voluntárias para atuar na França, na Grécia e em outros locais.

Nesta época, destacou-se a Mary Edwards Walker, médica, defensora dos fireitos das mulheres e a única mulher na história dos Estados Unidos a receber uma medalha de honra. Apesar de inicialmente ter sido recusada para um cargo formal, sendo autorizada apenas a atuar como enfermeira, ela persistiu até se tornar a primeira cirurgiã do Exército dos EUA. Após a guerra, continuou a defender os direitos das mulheres, incluindo o sufrágio e a reforma do vestuário. Embora a Medalha de Honra de Walker tenha sido revogada em 1916, ela a usou com orgulho até sua morte, em 1919. A honraria foi restaurada legalmente em 1977, consolidando seu legado como pioneira tanto na medicina quanto no ativismo.

Ademais, neste cenário de inovação, figuras femininas foram responsáveis por estabelecer padrões mundiais de cuidado. Helen Brooke Taussig, pioneira na cardiologia pediátrica, dedicou-se ao estudo da "síndrome do bebê azul" e propôs a cirurgia corretiva que salvou milhares de crianças, tornando-se a primeira mulher a presidir a American Heart Association. Paralelamente, a anestesiologista Virginia Apgar transformou a neonatologia em 1952 ao introduzir o índice de Apgar, o primeiro método clínico padronizado para avaliar a saúde de recém-nascidos, prática utilizada até hoje em todos os hospitais do mundo.

A atuação feminina também expandiu as fronteiras da medicina para além do ambiente clínico tradicional. Mae Carol Jemison, médica e engenheira, tornou-se a primeira mulher afro-americana a ir ao espaço, onde conduziu experimentos sobre células ósseas e fertilização em gravidade zero, fundando posteriormente empresas focadas em telemetria para melhorar o atendimento médico em países em desenvolvimento. No campo da gestão e política de saúde global, destaca-se Ursula von der Leyen, médica de formação que ocupa a presidência da Comissão Europeia, tendo desempenhado um papel crucial na união dos estados membros durante a pandemia da COVID-19. No campo dos imunizantes, A bioquímica húngara Katalin Karikó dedicou sua carreira à pesquisa da tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) que permitiu o seu uso seguro em vacinas. Esse marco salvou milhares de vida e, por isso, ela recebeu o prêmio nobel da fisiologia ou medicina.

Recentemente, a pesquisadora Tatiana Sampaio ganhou destaque nacional, por liderar estudos sobre a polilaminina, uma substância experimental para o tratamento das lesões medulares. Ela foi condecorada como título de Benemérita do Estado do Rio de Janeiro.

Essas trajetórias demonstram que, ao longo dos séculos XX e XXI, as mulheres superaram a fase de busca por acesso básico à educação para se tornarem protagonistas na criação de tecnologias e políticas que definem a medicina contemporânea.