A rosácea é uma dermatose inflamatória crônica que acomete principalmente a região central da face, mais comum em mulheres de pele clara entre 20 e 50 anos, embora homens tendam a evoluir com formas mais graves. As manifestações incluem eritema persistente ou episódico (flushing), telangiectasias, pápulas, pústulas, fimas e possível acometimento ocular. O diagnóstico é clínico e atualmente guiado pelo sistema fenotípico do Global Rosacea Consensus (ROSCO).
Sua fisiopatologia é multifatorial, envolvendo predisposição genética, alterações neurovasculares, ativação exacerbada da imunidade inata (com maior expressão de LL‑37, calicreínas e TLR‑2), disfunção da barreira cutânea e participação dos microbiomas cutâneo e intestinal, cuja relevância tem crescido. Fatores ambientais e comportamentais, como estresse, clima extremo, sol, álcool, bebidas quentes e alimentos picantes, também podem desencadear ou agravar o quadro.
A rosácea compromete significativamente a qualidade de vida e está associada a diversas condições sistêmicas, incluindo alterações neurológicas, psiquiátricas, gastrointestinais, cardiovasculares e síndrome metabólica. No Brasil, ainda há escassez de estudos abrangentes sobre perfil clínico, condições associadas, hábitos e impacto psicossocial da doença. Diante disso, o estudo de Bonamigo e colaboradores (2025) buscou caracterizar pacientes de diferentes regiões do país, avaliando aspectos clínicos e demográficos, condições associadas, hábitos alimentares, fatores de piora e repercussões na qualidade de vida.
O estudo transversal e multicêntrico foi conduzido entre março de 2022 e setembro de 2023 em serviços de Dermatologia credenciados pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) em diversas regiões do Brasil. Após consentimento, os pacientes responderam questionários padronizados sobre dados clínicos, demográficos, condições associadas, fatores agravantes, hábitos alimentares e qualidade de vida (avaliada pelo RosaQol‑BR). A gravidade foi classificada pelos sistemas IGA‑RSS e Rosacea Clinical Scorecard.
Foram avaliados 258 pacientes com rosácea, predominando mulheres, faixa etária de 35–65 anos e fototipos II–IV, com maior prevalência de III e IV. Fatores como sobrepeso/obesidade (67%) e ascendência europeia (83%) foram frequentes, assim como história familiar (32%). O tempo médio de doença foi de 11 anos, e muitos faziam uso de anti‑hipertensivos, antidepressivos, antidiabéticos e hipolipemiantes. A maioria apresentava rosácea leve a moderada pelo IGA‑RSS, com alta prevalência de flushing (84%), ardência (69%), pápulas/pústulas (73%), fimas (22%) e formas oculares (41%). Pela percepção dos pacientes, 89% classificaram a doença como leve a moderada.
No RosaQol‑BR, o domínio mais afetado foi sintomas, embora 75% tenham considerado a doença boa ou regular nas últimas semanas e 58% tenham relatado impacto leve a moderado na qualidade de vida. Fatores agravantes foram mencionados por 96% da amostra, com destaque para exposição ambiental, estresse emocional e exercício físico. Alimentos atuaram como gatilho em 28% dos casos, especialmente pimenta, condimentos e bebidas quentes; café, leite e derivados, tomate e frutas cítricas estavam entre os alimentos de consumo diário mais frequente. Condições associadas estiveram presentes em 89% dos pacientes, com maior frequência de condições gastrointestinais, endocrinológicas, cardiovasculares e psiquiátricas.
Em resumo, a amostra brasileira demonstrou maior prevalência de rosácea em fototipos III e IV e alta frequência de condições associadas, especialmente sobrepeso/obesidade e doenças cardiovasculares, psiquiátricas, neurológicas, gastrointestinais e endocrinológicas, reforçando a necessidade de abordagem integral. A elevada presença de sintomas gastrointestinais sustentou a relação entre rosácea, microbioma e o eixo intestino‑pele, enquanto o impacto psicossocial observado destacou a importância de avaliar qualidade de vida e saúde mental. Os dados multicêntricos apresentados no artigo de Bonamigo e colaboradores (2025) contribuíram para o desenvolvimento de estratégias de manejo mais abrangentes e contextualizadas para pacientes com rosácea no Brasil.