| Fisiopatologia da osteoartrite (OA) |
Do ponto de vista molecular, a OA é uma doença degenerativa, inflamatória e crônica com alguns fatores de risco como estresse mecânico e obesidade. O estado inflamatório é mediado por enzimas proteolíticas (metaloproteinases da matriz 3 [MMP-3], por exemplo) e citocinas (interleucinas [IL] 1, 6 e 8, principalmente), responsáveis pela diminuição do conteúdo de glicosaminoglicanos (GAGs), que normalmente mantêm a integridade e a função articular.1 Entre os GAGs, o ácido hialurônico (AH) é um componente importante na homeostase da cartilagem e do líquido sinovial, conferindo propriedades mecânicas de lubrificação e higroscopia (capacidade da cartilagem em absorver e manter água como componente reológico e ter elasticidade, viscosidade e plasticidade).2 O AH também tem ação biológica, interagindo com receptores CD44, promovendo analgesia prolongada e diminuindo a cascata inflamatória, causadora da degeneração articular; ele estimula a produção do próprio AH (endógeno) e melhora a viscosidade do líquido sinovial. Como a OA vem se tornando mais prevalente por causa do envelhecimento populacional, é importante termos opções de tratamento para minimizar a destruição da cartilagem e do AH.
| O hialurônico injetável na OA |
Muitos trabalhos mostram resultados conflitantes com o uso do AH injetável, sendo favoráveis a Cochrane, em uma revisão atualizada em 2014,3 o grupo eurovisco4 e o Consenso Brasileiro de Viscosuplementação.5 A American Academy Orthopaedic Surgeons (AAOS) é contra o AH injetável, mas recomenda a reposição oral de SySADOA (symptomatic slow-acting drugs for osteoarthritis).
Nos estudos que recomendam o uso de AH, seja por via intra-articular ou oral, notam-se uma melhora da dor e redução da rigidez em pacientes com OA.
| O hialurônico oral na OA |
Um estudo de 2008 com AH oral marcado com tecnécio (Tc99) mostrou que, após administração oral de dose única em ratos Wistar e cães Beagle, havia a presença de AH nas articulações após 24 horas.6 Esse relatório apresenta a primeira evidência de captação e distribuição para os tecidos conjuntivos de AH de alto peso molecular administrado por via oral.
Em 2012, Tashiro et al. conduziram um estudo clínico com 60 pacientes portadores de OA graus 2 e 3 de Kellgren-Lawrence, divididos em dois grupos: um recebendo 200 mg de AH oral/dia e outro grupo recebendo placebo.7 O estudo foi conduzido com avaliações bimestrais. Assim que tolerados pelo paciente, exercícios de fortalecimento de quadríceps eram recomendados para aumentar o tônus muscular. O desfecho foi avaliado pelo Japanese Knee Osteoarthritis Measures (JKOM) score,8 um WOMAC (Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index) que leva em consideração o estilo oriental de vida.
Na figura 1 podemos observar que a melhora dos scores de qualidade de vida fica mais evidente no grupo que recebeu o AH oral.7 Em outro estudo, comparou-se a eficácia do AH intra-articular com a reposição oral de 300 mg de AH. A conclusão do trabalho foi de que, apesar dos resultados sinérgicos, o AH intra-articular teve melhor resultado em menores de 70 anos de idade e o AH oral, em maiores de 70 anos de idade, sugerindo que o tratamento seja combinado para aumentar o efeito e a durabilidade.9

Figura 1. Comparação de ácido hialurônico oral e placebo em 60 pessoas com osteoartrite graus 2 e 3 de Kellgren-Lawrence. Adaptada de: Tashiro T, et al. ScientificWorldJournal. 2012;2012:167928.7
| Efeito sinérgico da reposição oral |
O AH oral pode ser associado com outros nutracêuticos que auxiliem no tratamento da cartilagem, como colágeno não hidrolisado tipo II ou colágeno hidrolisado, para cobrir todas as deficiências observa[1]das em um paciente com OA.10
| Conclusão |
O AH oral tem comprovação de que se deposita nas cartilagens,6 tem boas respostas clínicas nos critérios de melhora de vida diária, menor rigidez e redução do índice de dor pela Escala Visual Analógica (EVA), seja avaliado pelo WOMAC ou pelo JKOM.8 A associação do AH oral com outras substâncias tem poucos efeitos colaterais e efeitos sinérgicos, que permitem seu uso prolongado, pois sabemos que a classe de reposição oral (SySADOA) pode demorar mais de 3-4 semanas para ter efeito, mas, como mostrado nos trabalhos citados anteriormente, pode ter efeitos duradouros por mais de um ano se o paciente mantiver a aderência ao tratamento.7 É lógico que os outros fatores como obesidade, sarcopenia, entre outros, devem ser tratados, mas a melhora da dor é fundamental para dar ânimo para o paciente querer emagrecer, fortalecer-se, ou seja, para devolver qualidade de vida para todos aqueles acima de 45 anos de idade que tenham OA, pois uma hora será a nossa vez de fazer esses tratamentos.

