A glândula tireoide é responsável pela síntese e secreção dos hormônios tireoidianos, tiroxina (T4) e triiodotironina (T3), os quais desempenham papel vital no funcionamento de todos os sistemas do corpo. A atividade tireoidiana é influenciada por diversos fatores, incluindo a dieta e a ingestão de micronutrientes.
Nos últimos anos, tem havido um interesse crescente em investigar como a nutrição pode afetar a função tireoidiana. Neste contexto, Shulhai e colaboradores (2024) sintetizaram achados recentes, destacando os mecanismos que ligam a nutrição, os micronutrientes, a microbiota e a saúde da tireoide.
Para esta análise, foi realizada uma busca bibliográfica abrangente em bases de dados como PubMed, Scopus e Mendeley, utilizando termos MeSH e palavras-chave específicas. Além disso, foram revisados sites oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de organizações internacionais europeias. Foram selecionados artigos relevantes com base no título e resumo, abrangendo estudos publicados entre 1986 e março de 2024. Finalmente, uma síntese narrativa foi realizada para organizar e interpretar os resultados encontrados.
| Nutrição, microbiota intestinal e função tireoide |
A microbiota intestinal exerce um papel fundamental na regulação do metabolismo e do equilíbrio energético, extraindo nutrientes dos alimentos e produzindo metabólitos que influenciam os processos do hospedeiro. Diversos estudos demonstraram que alterações na dieta afetam significativamente a composição da microbiota. A hipótese de um eixo intestino-tireoide tem ganhado força, sugerindo que a microbiota pode influenciar a função tireoidiana por meio de diversos mecanismos. Além de impactar a absorção de minerais essenciais para a função tireoidiana, como iodo, selênio, zinco e ferro, a microbiota participa do metabolismo endógeno e exógeno dos hormônios tireoidianos. A presença da enzima iodotironina desiodase, que converte a tiroxina (T4) em sua forma ativa, triiodotironina (T3), ou em T3 reverso (rT3), foi identificada na parede intestinal, influenciando os níveis totais de T3 no organismo.
A dieta desempenha um papel multifacetado na interação entre o epigenoma, a função tireoidiana e a microbiota intestinal, afetando esses sistemas de maneira direta e indireta. Modificações epigenéticas podem alterar a expressão de genes relacionados à síntese, metabolismo e sinalização dos hormônios tireoidianos, modulando, assim, a função da tireoide e a resposta hormonal. A microbiota intestinal, por sua vez, produz metabólitos capazes de promover alterações epigenéticas nas células hospedeiras, o que pode impactar indiretamente a função tireoidiana.
Estudos também mostraram que a suplementação com probióticos pode ter efeitos positivos sobre os níveis de hormônios tireoidianos e a função tireoidiana. Essa estratégia ajuda a restaurar o equilíbrio intestinal, promovendo o crescimento de microrganismos benéficos e melhorando, assim, a saúde geral da tireoide.
Estudos destacaram a necessidade de aprofundar as pesquisas no campo pediátrico sobre a interação entre a microbiota e a função tireoidiana. A educação dos pacientes, especialmente de gestantes e mães, sobre as conexões entre a saúde intestinal e a tireoidiana pode incentivar estratégias que visem à melhoria da microbiota intestinal desde os primeiros estágios da vida. Além disso, é essencial conduzir mais estudos que investiguem os benefícios potenciais de intervenções nutricionais específicas, de modo a fornecer uma base científica sólida para futuras recomendações terapêuticas.