A fibromialgia (FM) é um transtorno bastante comum que afeta 2% a 4% da população geral. A dor generalizada é seu sintoma central, mas problemas de sono, fadiga, rigidez, depressão, ansiedade e comprometimento cognitivo também são prevalentes.
Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) estão entre as opções de manejo para a FM. Trabalhos anteriores relataram as diferenças observadas entre pacientes com a doença que respondem a esse tratamento nos domínios de: apresentação clínica da FM e gravidade das perturbações do ritmo circadiano, resistência à insulina, variáveis psicológicas e comorbidades psiquiátricas.
Com objetivo de explorar os cronotipos, os ritmos circadianos, o ciclo sono-vigília e a qualidade do sono na (FM) e suas relações com a IRSN na FM, Kruppa e colaboradores (2025) realizaram um estudo observacional transversal.
Para isso, foram recrutados 90 pacientes: 30 com fibromialgia responsivo ao tratamento (FM T [+]), 30 que não foram responsivos (FM T [-]) e 30 controles. Eles foram comparáveis em termos de sexo, idade e comorbidades.
A apresentação da fibromialgia variou entre os grupos. O FM T [−] apresentou maior duração da doença, pontuação total do Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQ) mais alta e maiores pontuações no comprometimento do funcionamento físico, trabalho e bem-estar. Os níveis de dor também foram mais altos.
| Variáveis cronobiológicas |
> Matutinidade-vespertinidade:
Em comparação com o grupo controle saudável, o grupo FM apresentou menor matutinidade medida pela pontuação total do Composite Scale of Morningness (CSM), afeto matutino e subescalas de preferência circadiana matutina. Níveis significativamente mais baixos de afeto matutino foram registados em FM T [−] vs. FM T [+].
> Perturbação do ritmo circadiano:
O nível de disritmia diurna avaliado com o Biological Rhythms Interview of Assessment in Neuropsychiatry (BRIAN) foi significativamente maior no grupo FM como um todo em comparação com o grupo controle saudável (p < 0,001). Tanto FM T [+] quanto FM T [−] mostraram maiores aberrações do ritmo circadiano do que o controle; além disso, o grupo FM T [−] apresentou uma disrupção mais pronunciada dos ritmos diurnos. O nível de cronotipo vespertino, conforme medido pelo BRIAN, foi maior em FM vs. CS e FM T [−] vs. CS.
> Ciclo sono-vigília:
De acordo com o Sleep-Wake Pattern Assessment Questionnaire (SWPAQ), não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação à vespertinidade ou capacidade de dormir a qualquer hora. O grupo FM demonstrou menor capacidade de vigília diurna e a qualquer hora do que o grupo CS.
> Qualidade do sono:
A qualidade do sono, avaliada pela pontuação total do Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI), bem como pela subescala de qualidade do sono, foi significativamente menor no grupo da fibromialgia em comparação com o controle. Além disso, a qualidade geral e subjetiva do sono foi significativamente menor em FM T [−] do que em FM T [+]. As pontuações de latência do sono, sono habitual, distúrbios do sono e medicação para o sono foram todas maiores em FM vs. controle. FMT [−] apresentou níveis mais altos de distúrbio do sono (p = 0,04) e uso de medicação para dormir do que FM T [+]. A gravidade da disfunção diurna foi maior em FM vs. CS).
> Associações entre variáveis cronobiológicas e falta de resposta ao tratamento com IRSN:
A análise de regressão logística indicou que a menor matutinidade e subescala de afeto matutino, maior perturbação do ritmo diurno, menor capacidade de vigília a qualquer hora e menor qualidade geral do sono foram preditores significativos da falta de resposta ao tratamento com IRSN na FM.
Em conclusão, os resultados indicaram que existem várias diferenças significativas em variáveis cronobiológicas entre FM T[+] e FM T[−]. Além disso, demonstrou que as variáveis cronobiológicas, entre elas algumas modificáveis como as disrupções do ritmo circadiano ou a qualidade do sono, são preditores da falta de resposta ao IRSN na FM. Consequentemente, a psicoeducação e outras intervenções, como exercícios físicos para a melhora do sono, devem ser fornecidas como parte padrão do tratamento e acompanhamento da FM. São necessários estudos adicionais para explorar intervenções centradas no avanço do tempo circadiano, normalização dos ritmos circadianos e melhora da qualidade do sono como estratégia de potencialização em pacientes resistentes ao tratamento com IRSN.