Devido ao fato de fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas atenderem pacientes com tinido em associação com a perda auditiva condutiva ou neurossensorial, criou-se o dogma clínico de que o zumbido é um sintoma decorrente de um distúrbio auditivo, portanto, secundário. Contudo, o tinido pode ocorrer mesmo sem qualquer disfunção auditiva detectável, principalmente em jovens, levando a indagação de sua origem.
Clifford et al publicaram na JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery um estudo de associação do genoma completo (GWAS, do inglês Genome Wide Association Studies) com evidências de 3 loci e 8 genes associados ao zumbido.
Esses achados demonstram que ao menos parte da base neurológica do zumbido está associada à genética, não sendo apenas um sintoma.
Os pesquisadores buscaram por diferenças nas variantes de nucleotídeos únicos (SNVs, do inglês single nucleotide variants) entre a população com e sem tinido, assim encontraram uma série de variantes que apareceu de forma consistente apenas nos indivíduos com zumbido. Apesar das descobertas demonstrarem que há um componente hereditário, também ressaltam a sua ligação com fatores ambientais no desenvolvimento da condição, determinando o tinido como um distúrbio complexo, não sendo considerado um distúrbio mendeliano.
Os autores também notaram um forte enriquecimento de genes de zumbido em sub-regiões do cérebro como o cerebelo, o córtex, o núcleo accumbens, o córtex cingulado anterior e a amígdala, que valida a sua base neuropatofisiológica.
E através de randomização mendeliana descobriu-se que os genes da perda auditiva levam ao zumbido da mesma forma e vice-versa.
A maioria dos SNVs identificados com relação ao zumbido estavam localizados em regiões intrônicas (não codificantes), que possuem funções regulatórias e têm sido associadas a modificações epigenéticas do DNA, ou seja, influenciadas por fatores ambientais. Portanto, estudos de interação genética e ambiental são importantes na definição de medidas preventivas para esse e outros transtornos. Ao identificar um indivíduo com suscetibilidade genética, pode ser aconselhado a ser vigilante e cauteloso com ruídos e ototoxinas.
O estudo de Clifford e colaboradores fornece suporte para a noção de que o tinido também deve ser considerado como um distúrbio neurológico e não apenas um sintoma de outra condição de saúde subjacente. E apesar de ser um marco para compreender a complexidade da condição em questão, um GWAS maior e dados de sequenciamento do genoma completo são de suma importância para refinar a priorização das regiões genômicas associadas e determinar a sua caracterização funcional.
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