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/ Published on May 22, 2025

Crise de obesidade

O sistema de saúde alimentar está quebrado?

Entenda o impacto da indústria alimentícia e da ausência de políticas governamentais na crise da obesidade e no sistema de saúde

Author: Nada Khan

Fuente: BJGP Life, 2025. Fixing our broken food health system

Index
1. Texto principal
2. Referências bibliográficas

Os sistemas alimentares são redes complexas que englobam desde a produção até o consumo de alimentos, incluindo todos os impactos econômicos, ambientais e de saúde associados. Mas será que o atual sistema alimentar está quebrado? A Câmara do Reino Unido acredita que sim. O relatório "Recipe for Health: a plan to fix our broken food health system", publicado em 2024, analisou o impacto da indústria alimentícia na dieta e nos níveis de obesidade nesse país. Ele questionou se o sistema alimentar realmente atendia às necessidades de saúde e nutrição da população, destacando o aumento das taxas de obesidade e classificando essa crise como uma "emergência de saúde pública".

 Mas por que, após décadas de diferentes iniciativas políticas para "consertar" o sistema alimentar, as taxas de obesidade ainda estão aumentando no Reino Unido?

A crise da obesidade

As iniciativas políticas atuais falham ao focar na responsabilidade individual em vez de intervenções sistêmicas e de longo prazo, sendo pouco eficazes para reduzir a obesidade. Como exemplo, uma recente revisão da Cochrane indicou que medidas como a rotulagem de calorias nos menus têm impacto mínimo na redução do consumo calórico.

 Apesar das evidências modestas, a Soil Association apontou que a indústria alimentícia exerceu pressão sobre o governo para favorecer estratégias centradas na escolha individual, evitando regulações mais rígidas. Alternativamente, políticas estruturais, como restrições à publicidade e promoções de alimentos ricos em gordura, sal ou açúcar, frequentemente enfrentam críticas por "paternalismo estatal". Embora essas medidas possam reduzir a exposição a alimentos ultraprocessados, seus resultados ainda são limitados e variáveis.

Em um ambiente obesogênico, para uma estratégia ser eficaz, ela precisa abranger desde mudanças individuais até intervenções de grande escala. A Estratégia Nacional de Alimentação de 2021 propôs um modelo sistêmico para reduzir desigualdades alimentares, melhorar o uso da terra e transformar a cultura alimentar. No entanto, há uma falha nacional na implementação de mudanças efetivas no sistema alimentar.

Um ambiente obesogênico influenciado pela indústria

O relatório da Câmara do Reino Unido atribuiu a responsabilidade pelo aumento da obesidade diretamente à indústria alimentícia, que, por meio da publicidade de produtos não saudáveis, contribui para um ambiente obesogênico, além de exercer forte influência sobre o governo e a pesquisa acadêmica. Por exemplo, algumas evidências apresentadas no relatório sugeriram que o Comitê Científico Consultivo sobre Nutrição foi composto por membros que possuíam interesses financeiros ligados a corporações alimentícias, levantando preocupações sobre independência científica. Para mitigar essa influência da indústria, o relatório recomendou a criação de um código de conduta para reuniões ministeriais com representantes do setor alimentício, garantindo transparência total.

Sobre as parcerias entre acadêmicos e empresas do setor, o relatório reconheceu os benefícios como a troca de informação e do conhecimento especializado, mas alertou que o financiamento corporativo poderia comprometer a agenda de pesquisa para interesses comerciais. O ideal é que essas colaborações fossem conduzidas com cautela e transparência, evitando conflitos de interesse que comprometam avanços na saúde pública.

Fracassos repetidos na implementação de políticas públicas

O relatório "Recipe for Health" destacou a falta de implementação das recomendações feitas em relatórios anteriores, como o "Hungry for Change" e a Estratégia Nacional de Alimentação, que sugeriram reformas estruturais e investimentos na alimentação. A renúncia de Henry Dimbleby simbolizou o protesto contra a falta de ação governamental, refletindo uma desinteresse político para enfrentar a obesidade e a influência da indústria alimentícia. Nos últimos 30 anos, cerca de 700 políticas foram propostas, mas muitas não eram viáveis e careciam de metas claras, tornando sua eficácia limitada e reforçando a necessidade de mudanças sistêmicas.

Rumo a metas viáveis para o sistema alimentar

A principal recomendação do relatório da Câmara do Reino Unido foi que o governo deveria adotar urgentemente uma estratégia alimentar abrangente para corrigir as falhas do sistema atual. No entanto, essa recomendação repetiu propostas anteriores da Estratégia Nacional de Alimentação, que haviam sugerido soluções completas, mas não foram implementadas.

Diante dos fracassos anteriores, o relatório sugeriu que o governo deveria finalmente agir sobre as recomendações do relatório "Hungry for Change" que propôs:

-  Monitoramento da insegurança alimentar: Implementação de um sistema detalhado e transparente para acompanhar os níveis de insegurança alimentar e vincular esses dados a reformas socioeconômicas.

-  Reforma do Universal Credit: Revisão do sistema de benefícios, eliminando o período de espera de cinco semanas e ajustando os valores para refletir o custo de uma dieta saudável.

-  Regulação do marketing de alimentos não saudáveis: Restrições à publicidade, promoção e preços de produtos ricos em açúcar, sal e gorduras prejudiciais.

- Reformulação de produtos alimentícios: Incentivo para que a indústria reduza os níveis de ingredientes nocivos, com possibilidade de regulamentação obrigatória caso as metas voluntárias não sejam cumpridas.

-  Expansão de programas sociais: Ampliação dos vouchers Healthy Start, refeições escolares gratuitas e iniciativas contra a fome durante as férias escolares.

-  Sustentabilidade na produção de alimentos: Criação de um padrão unificado para medir e estabelecer metas ambientais na agricultura.

-  Proteção ambiental e padrões alimentares: Compromisso do governo em manter altos padrões de proteção ambiental, bem-estar animal e qualidade alimentar em acordos comerciais.

-  Supervisão independente da Estratégia Nacional de Alimentação: Estabelecimento de um órgão responsável por garantir a implementação das políticas propostas.

Em síntese, o relatório propôs garantir maior responsabilidade para o setor alimentício pela crise da obesidade.

Se o sistema alimentar realmente estiver quebrado, as soluções propostas foram apresentadas diversas vezes – o problema central é a falta de implementação, atribuída à influência da indústria e à inércia governamental. O relatório reforçou que o maior obstáculo não é a ausência de propostas, mas a falta de vontade política para colocar em prática medidas efetivas e de longo prazo.