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/ Publicado el 21 de agosto de 2025

Conteúdo patrocinado por FQM S.A.

O protagonismo da microbiota e dos bióticos na saúde infantil

Highlights do ESPGHAN 2025 em Helsinque (Finlândia)

Autor/a: Dr. Bruno Paes Barreto

Uma grande parte das discussões girou em torno de como os bióticos estão se tornando ferramentas essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças. 

  • Modelando a saúde desde o berço: A pesquisa está muito focada em como podemos influenciar a saúde do bebê através da nutrição precoce. Estudos recentes utilizam modelos avançados para prever os benefícios de ingredientes nutricionais, como os oligossacarídeos do leite humano (p.ex.: o 2'-fucosyllactose - 2'-FL) e o Lactobacillus Rhamnosus GG, na microbiota intestinal de bebês e de animais de experimentação. Descobriu-se que o 2'-FL, por exemplo, pode melhorar a função imune do intestino, a cicatrização de feridas e a função de barreira intestinal, além de influenciar o metabolismo do colesterol. 

  • Fórmulas infantis inovadoras: Há um grande esforço para desenvolver fórmulas que se aproximem dos benefícios do leite materno. Fórmulas enriquecidas com osteopontina, galacto-oligossacarídeos (GOS), HMOs (como 2’FL) e probióticos (B. Infantis e L. Rhamnosus) mostraram-se capazes de melhorar o desenvolvimento visual e atencional de bebês. Outros estudos destacaram que fórmulas com seis HMOs e dois probióticos (B.infantis e B.lactis) promovem o desenvolvimento de uma microbiota intestinal adequada à idade, com aumento de bifidobactérias tipo-infantil e capacidade metabólica de butirato similar à de bebês amamentados. Mesmos bebês nascidos por cesariana, que frequentemente têm colonização tardia de Bifidobacterium, mostraram aumento dessas bactérias benéficas quando alimentados com fórmulas suplementadas com HMOs. 

  • Além do intestino: Imunidade e Metabolismo: O Bifidobacterium animalis subsp. lactis BB12 demonstrou modular diretamente a imunidade e o metabolismo intestinal em modelos sem germes. Também foi estudado o uso de prebióticos como a inulina e frutooligossacarídeos de cadeia longa (IcFOS) para melhorar a absorção de ferro, o que é crucial para prevenir a anemia por deficiência de ferro em crianças. A atenção à microbiota vai além: há um interesse crescente em entender como as mudanças na microbiota intestinal, incluindo a redução da abundância do gêneroBifidobacterium ao longo das últimas décadas, podem estar correlacionadas com o aumento de doenças não transmissíveis. 

  • Existe uma tendência para o uso de simbióticos e de probióticos sinérgicos, que não são apenas um produto multicepa, mas sim probióticos que necessitam um do outro para exercer sua função.

Bióticos em ação: atuação em condições específicas 

Os bióticos estão sendo investigados por seus benefícios em diversas condições gastrointestinais, com resultados promissores. 

  • Diarreia aguda: Para a diarreia aguda infecciosa, o Saccharomyces boulardii CNCM I-745 continua a ser um dos probióticos mais estudados e eficazes, reduzindo a duração da diarreia e o tempo de hospitalização. OBacillus clausii também se mostrou eficaz na redução da duração da diarreia e da internação. Uma combinação de Lactobacillus acidophilus eLimosilactobacillus reuteri DSMZ 25441 também foi associada à redução da duração da diarreia. 

  • Enterocolite Necrosante (ECN): Em neonatos de muito baixo peso ao nascer, o produto bioterapêuticoIBP-9414 (Lactobacillus reuteri) demonstrou reduzir a mortalidade geral e a incidência de ECN, com efeitos anti-inflamatórios. A implementação de probióticos multicepas em UTIs neonatais holandesas também foi associada à redução significativa da ECN e do tempo para atingir a alimentação enteral completa. Além disso, colonização porBifidobacterium breve e a abundância de Bifidobacterium podem estar relacionadas a um menor risco de sepse em prematuros. Este campo da pediatria me deixou bem interessado, visto que já é rotina em maternidades de países nórdicos da europa o uso de probióticos em RN prematuros, como estratégia de prevenção da Enterocolite Necrotizante. 

  • Constipação funcional: Os frutooligossacarídeos do tipo inulina (ITF), derivados da chicória, mostraram-se eficazes em melhorar a consistência das fezes e aumentar a proporção de probióticos selecionados em crianças pequenas com constipação funcional. 

  • Síndrome do Intestino Irritável (SII) : A dieta de baixo FODMAP (oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis) pode aliviar os sintomas ao regular a síntese de serotonina (5-HT) e influenciar a microbiota intestinal, incluindo bactérias como Akkermansia e Bifidobacterium. A Akkermansia continua sendo um probiótico em evidência, sobretudo nos estudos que trabalham com os distúrbios metabólicos (como obesidade e Diabetes mellitus tipo II) 

Microbiota e condições crônicas: novas perspectivas 

A relação entre a microbiota e diversas condições crônicas, incluindo aspectos metabólicos e inflamatórios, é uma área de pesquisa intensa. 

  • Obesidade infantil: O desequilíbrio da microbiota intestinal pode contribuir para a obesidade e alterações cardiometabólicas. Intervenções motivacionais foram eficazes em aumentar a diversidade da microbiota intestinal em crianças com obesidade, provavelmente devido a uma melhor adesão às recomendações dietéticas e de atividade física. Dietas equilibradas e com restrição calórica, por sua vez, demonstraram aumentar a diversidade alfa da microbiota e a abundância de bactérias produtoras de butirato, como Faecalibacterium e Roseburia. 

  • Doenças Inflamatórias Intestinais (DII): Estudos apontam para uma redução da diversidade microbiana em crianças com DII recém-diagnosticada, com menor abundância de bactérias comoFusicatenibacter saccharivorans,Blautia wexleraeeBacteroides uniformis. Também foi observado um aumento de bactérias oportunistas, como Veillonellaem Doença de Crohn eEnterobacteriaceae em Colite Ulcerativa. A ausência de certos protistas, como Blastocystis sp. e Dientamoeba fragilis, em pacientes com DII e Fibrose Cística, reflete a disbiose e baixa diversidade de seus microbiomas. 

  • Eixo intestino-cérebro e desenvolvimento: A exposição materna a antibióticos durante a cesariana pode afetar o metabolismo do triptofano no neonato e os níveis de triptamina fecal, sugerindo um impacto no desenvolvimento via eixo intestino-cérebro. Além disso, a colonização intestinal precoce e fatores perinatais mostraram-se relacionados a perfis comportamentais em crianças. Há pesquisas emergentes sobre como a microbiota e seus metabólitos podem influenciar o comportamento e distúrbios neuro desenvolvimentais. 

  • Colestase: O status da circulação de ácidos biliares em crianças com colestase afeta as estruturas e funções da microbiota intestinal, com modelos de camundongos demonstrando que a colestase altera a composição da microbiota e o metabolismo dos ácidos biliares fecais. 

Considerações finais e desafios 

A quantidade de pesquisas sobre microbiota e bióticos é impressionante. Um ponto importante levantado é a necessidade de mais educação formal para profissionais de saúde na América Latina sobre o uso e os benefícios dos probióticos, apesar do grande interesse já existente. Além disso, as análises de dados mostram que a diversidade microbiana no intestino está em constante evolução, com uma aceleração notável após os 8 meses de idade, coincidindo com a introdução de alimentos sólidos. 

É um momento emocionante, pois estamos começando a desvendar as complexas interações entre a nutrição, a microbiota e a saúde global de nossas crianças, abrindo caminho para intervenções cada vez mais personalizadas e eficazes. 


 


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