| Introdução |
Diversos estudos focam nos efeitos tardios na saúde de experiências adversas na infância (ACEs), como, abuso, negligência e disfunção familiar. Foi observado que há um aumento na probabilidade de doença cardíaca coronária, derrame, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer, depressão e abuso de substâncias em crianças que tiveram alguma dessas adversidades.
Em contraste, experiências benevolentes na infância (BCEs) foram positivamente associadas ao bem-estar de jovens adultos, indicando que podem neutralizar os efeitos decorrentes das ACEs. Embora haja um aumento reconhecido nas chances de resultados de saúde ruins relacionados às ACEs, muitos adultos que vivenciaram adversidades não exibem saúde ou funcionamento precários. Isso ressalta a natureza não determinística do risco e a capacidade dos indivíduos e seus contextos sociais de responderem à adversidade.
Poucos estudos analisaram as ACEs e BCEs na América latina. Por isso, análises dentro deste contexto social e cultura pode enriquecer a compreensão global de como esses fatores moldam as experiências infantis, identificar riscos específicos enfrentados pela população e revelar recursos socioculturais que podem promover a resiliência. Por isso, Rojas e colaboradores (2025) realizaram um estudo com objetivo de determinar a relação do estado de saúde físico e mental e ACEs e BCEs com base na população mexicana.
| Métodos |
Para o estudo transversal, foram selecionados aleatoriamente adultos com idades entre 18 e 65 anos de áreas urbanas e rurais. Foram coletados dados sociodemográficos, ACEs, BCEs, histórico de saúde física e mental e avaliações clínicas para depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos alimentares.
| Resultados |
Um total de 1.448 adultos com idades entre 18 e 65 anos foram recrutados para o estudo. Entre os participantes, 51,5% tinham entre 18 e 39 anos e 77% eram mulheres. Ademais, 45,4% eram casados, 82,0% tinham ensino fundamental, médio ou superior incompletos e 48,1% estavam empregados. Os participantes foram distribuídos em três estratos de condições de bem-estar, com 33,4% no economicamente mais necessitado e 42,3% experimentando segurança alimentar. As áreas rurais apresentaram uma proporção maior de indivíduos sem educação formal e aqueles no estrato economicamente mais necessitado. Por outro lado, as áreas urbanas apresentaram níveis mais elevados de segurança alimentar e mais indivíduos com níveis de escolaridade mais elevados.
Em geral, 88,2% dos participantes tiveram pelo menos uma ACE, enquanto 22,6% tiveram quatro ou mais. Adicionalmente, 49,7% relataram 9-10 BCEs, enquanto apenas 0,7% declararam zero BCEs.
De acordo com o tipo, as ACEs mais frequentemente relatadas foram negligência física, emocional e ausência dos pais, sendo esta última significativamente mais prevalente em áreas urbanas. A violência coletiva foi a ACE menos relatada e foi significativamente mais prevalente em áreas urbanas. O abuso sexual foi significativamente mais relatado por mulheres, enquanto a violência coletiva e comunitária por homens. As BCEs mais frequentemente relatadas foram ter pelo menos um cuidador com quem se sentiam seguros, gostar ou se sentir confortável consigo mesmos e gostar da escola. Este último foi relatado com mais frequência por mulheres, enquanto as oportunidades de se divertir e ter pelo menos um bom amigo foram significativamente por homens. Da mesma forma, estas duas e ter um professor de apoio foram significativamente mais relatadas em áreas urbanas.
Os diagnósticos mais prevalentes relatados pelos participantes foram hipertensão (14%), enxaqueca (10,4%), obesidade (7,7%), diabetes (9,3%) e síndrome do intestino irritável (7,6%). Hipertensão, insônia, asma e hipotireoidismo foram significativamente mais comuns em áreas urbanas.
Em relação aos diagnósticos e sintomas de saúde mental, 25% dos participantes relataram ter depressão, 7,2% ansiedade, 4,4% ideação suicida, 4,3% alcoolismo e 3,6% transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Ter quatro ou mais ACEs foi associado a enxaquecas (OR 1,7, IC 95% 1,2–2,5), diabetes, obesidade, hipertensão, síndrome do intestino irritável, refluxo gastroesofágico, dor crônica e insônia. Além disso, houve maior número de diagnósticos de depressão, TEPT, ansiedade, ideação suicida, autolesão não suicida, alcoolismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) neste grupo.
Ao ajustar o escore de BCE com os de ACE, houve uma ligeira redução nas chances de enxaquecas, obesidade e hipertensão. Além disso, houve uma diminuição nas chances relacionadas a quase todos os diagnósticos de saúde mental autorrelatados e em condições avaliadas clinicamente, como TEPT, depressão, ansiedade e transtornos alimentares.
| Conclusão |
As experiências adversas na infância exerceram um impacto significativo nos resultados de saúde física e mental. No entanto, as BCEs mitigaram seu impacto. Uma abordagem abrangente que considere ACEs e BCEs nas políticas de bem-estar infantil, tanto nacional quanto internacionalmente, pode contribuir para a formulação de intervenções destinadas a prevenir a adversidade e promover experiências positivas para crianças na América Latina.