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Publicado el 1 de junio de 2025

Manifestações oculares e doenças dermatológicas

O mundo interconectado da dermatologia e oftalmologia

Guia prático para identificar, diagnosticar e manejar condições dermatológicas e oftalmológicas interconectadas.

Autor/a: Rathore, G., Gorai, S., Purkayastha, G., Das, K. and Pudasaini, P.

Fuente: JEADV Clinical Practice, 2025. DOI: https://doi.org/10.1002/jvc2.70014 The Interconnected World of Dermatology and Ophthalmology

Introdução

A dermatologia e a oftalmologia compartilham uma base comum no desenvolvimento embrionário, já que a pele, o sistema nervoso central e os olhos derivam do ectoderma, o que significa que anomalias nessa camada podem afetar essas estruturas.

A relação entre essas áreas também se manifesta na genética, como na síntese de melanina, onde genes como TYR e SLC24A5 regulam a cor dos olhos, cabelo e pele, e variações nesses podem levar a diferenças de pigmentação. Além disso, muitas condições dermatológicas apresentam manifestações oculares que, apesar de sua relevância, podem ser subestimadas ou diagnosticadas incorretamente.

Por isso, Rathore e colaboradores (2025) realizaram uma revisão para aprofundar a compreensão dessas intrincadas conexões, visando aprimorar o cuidado ao paciente.

Distúrbios genéticos do olho e da pele

> Albinismo oculocutâneo (OCA)

Albinismo é um grupo de distúrbios genéticos caracterizados pela ausência ou redução significativa na produção de melanina. Vários genes estão associados à essa condição.

Frequentemente, a doença leva a problemas de visão, incluindo nistagmo, estrabismo e fotofobia. A deficiência pigmentar da íris pode ser demonstrada por retroiluminação.

> Síndrome de Waardenburg (SW)

A SW é uma doença genética rara caracterizada por perda auditiva, características faciais distintas e alterações na pigmentação, que afetam a pele, o cabelo e os olhos. Mutações em genes envolvidos no desenvolvimento e migração dos melanócitos, são responsáveis por diferentes tipos da síndrome.

Em relação as anomalias oculares, a SW pode estar associada a dystopia canthorum, heterocromia da íris, perda de visão secundária à catarata e degeneração macular.

> Síndrome de Hermansky-Pudlak (SHP)

A SHP é um grupo de doenças genéticas raras que afetam vários órgãos, incluindo a pele e os olhos. É primariamente caracterizada por pigmentação anormal e anormalidades de sangramento. Ela resulta de mutações em vários genes que estão associados à formação e função de estruturas celulares especializadas, como os melanossomas e lisossomas.

Em relação aos problemas oculares, a SHP pode levar a problemas como redução da acuidade visual e nistagmo.

> Piebaldismo

O piebaldismo é uma doença genética rara caracterizada por manchas de despigmentação na pele e no cabelo. Mutações no gene KIT são tipicamente responsáveis pela doença. Embora não seja primariamente uma condição relacionada aos olhos, essa mutação pode resultar em algumas manifestações clínicas nesse órgão.

> Neurofibromatose Tipo 1 (NF1)

NF1 é uma doença genética caracterizada pelo crescimento de tumores ao longo dos nervos na pele, cérebro e outras partes do corpo. Ela pode levar a várias complicações oculares, incluindo gliomas ópticos, tumores ao longo do nervo óptico que podem afetar a visão, e nódulos de Lisch.

> Síndrome de Ehlers-Danlos (SED)

A SED é um grupo de distúrbios genéticos que afetam o tecido conjuntivo da pele, articulações, vasos sanguíneos e outros órgãos. Além disso, a doença pode atingir os olhos, causando miopia, ceratocone (CC) ou descolamento de retina e/ou estrias angióides.

> Síndrome de Marfan

A síndrome de Marfan é uma doença genética devido a variantes no gene FBN1 que afeta principalmente os tecidos conjuntivos, levando a problemas no coração, vasos sanguíneos, articulações e olhos. Nesse último, as complicações mais comuns são sob forma de luxação do cristalino, miopia, glaucoma e descolamento da retina.

Doenças adquiridas do olho e da pele

Necrólise epidérmica tóxica (NET)

A NET é uma condição de pele grave e potencialmente fatal, que ocorre como resultado de reações adversas a medicamentos. Em relação ao envolvimento ocular, pode ocorrer conjuntivite grave, cicatrizes na córnea e até cegueira.

Dermatite Atópica (DA) e Alergias Oculares

A DA é uma condição crônica e recorrente da pele, caracterizada por inflamação, coceira e lesões secas e ásperas. Alergias oculares incluem condições como conjuntivite alérgica. Além disso, outras condições, como blefarite, uveíte e distúrbios do filme lacrimal também podem ocorrer.

Essas alergias oculares podem acompanhar a DA, causando vermelhidão, coceira e olhos lacrimejantes. O coçar persistente dos olhos dos pacientes com dermatite pode resultar em um distúrbio não inflamatório e progressivo de afinamento da córnea, o ceratocone (CC), que pode levar a perda de visão secundária à cicatriz da córnea. Da mesma forma, outra complicação temida é a catarata subcapsular.

Psoríase

A psoríase é uma doença crônica da pele, não contagiosa, caracterizada por lesões vermelhas e descamativas, geralmente em placas, que podem aparecer em diversas áreas do corpo. Embora ela afete principalmente a pele e as articulações, ela pode levar à uveíte em até 20% dos casos graves.

Rosácea

A rosácea é uma condição crônica da pele caracterizada por eritema facial e rubor, bem como pápulas e pústulas foliculares inflamadas. A rosácea ocular causa secura, vermelhidão, queimação e irritação dos olhos. Ela afeta predominantemente as pálpebras e a superfície anterior do olho, como a córnea e a conjuntiva. Clinicamente, se manifesta como blefarite, ceratite, hiperemia conjuntival, conjuntivite crônica e, em casos graves, cicatrizes conjuntivais. Além disso, uma reação inflamatória granulomatosa na rosácea resulta na obstrução das glândulas de Meibomius, que se manifesta como calázio. O envolvimento periocular pode, por vezes, ser evidente como uma forma localizada de dermatite periorificial, especialmente em pacientes que usam corticosteróides tópicos ou sistêmicos.

Vitiligo

O vitiligo é caracterizado pela perda de melanócitos, resultando em manchas despigmentadas na superfície da pele. Embora a maioria dos seus casos sejam dermatológicos, casos raros relataram envolvimento ocular, como alterações na pigmentação da íris e da câmara anterior.

Doenças do tecido conjuntivo

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) pode afetar os olhos, levando à retinopatia lúpica, olhos secos ou vasculite. Embora a ceratoconjuntivite seca seja a manifestação ocular mais comum, outros achados, como blefarite, esclerite, uveíte, ceratite, retinopatia lúpica, vasculite retiniana e coroidopatia lúpica, não são incomuns. 

A síndrome de Sjögren geralmente resulta em grave secura dos olhos, levando à irritação, desconforto e potenciais problemas de visão.

A doença mista do tecido conjuntivo pode causar lesões oculares, levando a problemas como olhos secos, inflamação e perda súbita da visão secundária à vasculite retiniana.

A artrite reumatóide afeta principalmente as articulações, causando inflamação, dor e danos nas articulações. Em relação ao envolvimento ocular, pode causar episclerite, esclerite, ceratite e uveíte.

A esclerose sistêmica é caracterizada pelo depósito excessivo de colágeno e anormalidades vasculares. O envolvimento ocular na doença inclui ceratoconjuntivite seca, esclerite, vasculopatia retiniana e catarata.

Efeitos adversos oculares de tratamentos dermatológicos

Os retinóides são comumente utilizados tanto na dermatologia quanto na oftalmologia. Os seus principais efeitos adversos oculares incluem xerose, nictalopia, fotossensibilidade, conjuntivite e opacidades corneanas.

Os corticosteróides são conhecidos por suas potentes propriedades anti-inflamatórias e podem ter efeitos adversos nos olhos e na pele quando usados sistemicamente ou aplicados topicamente. Dentre os efeitos oculares, pode-se citar: cataratas subcapsulares posteriores, glaucoma, afinamento da córnea, infecções secundárias e olho seco iatrogênico.

A hidroxicloroquina é um medicamento antimalárico que tem sido usado terapeuticamente em uma variedade de distúrbios inflamatórios e metabólicos da pele. Alguns dos efeitos colaterais oculares incluem visão turva, visão distorcida, diminuição da visão e perda visual atribuível à retinopatia irreversível.

O metotrexato é um inibidor da enzima diidrofolato redutase (DHFR) que funciona principalmente através de seus efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores. Os seus efeitos colaterais oculares são esperados e esses incluem visão turva, fotofobia, conjuntivite e, em casos graves, neuropatia óptica secundária à deficiência de folato.

A ciclosporina é um inibidor da calcineurina utilizado em dermatologia por suas propriedades imunossupressoras. Os seus efeitos colaterais são queimação, ardência, lacrimejamento dos olhos e visão turva.

A toxina botulínica é amplamente utilizada em dermatologia para indicações cosméticas e médicas. Algumas das complicações oculares que ocorrem com o seu uso são ptose, diplopia, ceratite e lacrimejamento dos olhos.

Dupilumabe, infliximabe, etanercepte, adalimumabe, secuquinumabe e ustequinumabe são medicamentos biológicos associados a vários efeitos colaterais oculares. O primeiro pode causar irritação ocular, lacrimejamento, hiperemia conjuntival, conjuntivite e xeroftalmia. O infliximabe está relacionado à uveíte, neurite óptica, retinite, coriorretinite, celulite orbital e trombose da veia retiniana. Os efeitos colaterais do etanercepte incluem dor ocular, perda de visão, uveíte e miosite ocular, enquanto o adalimumabe pode causar retinopatia, uveíte, perda de visão e oftalmoplegia. O secuquinumabe pode causar dor ocular, visão turva e endoftalmite. Os efeitos colaterais oculares do ustequinumabe incluem uveíte, esclerite, neurite óptica e diplopia.

Tofacitinibe, baricitinibe e rituximabe são inibidores de Janus quinase (JAK) que pode ter vários efeitos colaterais oculares. O primeiro pode causar visão turva, diplopia e descoloração amarela dos olhos, enquanto o segundo pode causar dor ocular, perda de visão e, raramente, diplopia. Por fim, os efeitos colaterais oculares do rituximabe incluem conjuntivite, retinite, necrose retiniana e edema macular.