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Publicado el 25 de junio de 2026

Mortalidade cardiovascular

O impacto do consumo da fibra alimentar em pacientes com hiperlipidemia

Ye et al., (2026) demonstraram que cada incremento de 10g/dia na ingestão de fibras reduziu a mortalidade por todas as causas em 20,9% e a mortalidade cardiovascular em 23,2%.

Autor/a: Ye, Z., Wei, M., Wang, Z. et al.

Fuente: Lipids Health Dis 25, 151 (2026). https://doi.org/10.1186/s12944-026-02961-y Dietary fiber intake and mortality among adults with hyperlipidemia : a retrospective cohort analysis from NHANES 1999–2018

A hiperlipidemia, também denominada como dislipidemia, configura-se como uma das patologias crônicas mais comuns no cenário global. Ela é reconhecida como um dos principais fatores de risco para a mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV). No esforço clínico para mitigar esse ônus, a fibra alimentar é considerada um nutriente essencial, porém seu papel exato na manutenção da saúde ainda é objeto de debate científico. Enquanto evidências a associam à prevenção de doenças crônicas e ao controle de índices lipídicos séricos, outros estudos não encontraram correlações estatisticamente significativas entre sua ingestão e a incidência de doenças ou óbitos. Dessa forma, persiste uma lacuna no conhecimento sobre se o consumo elevado de fibras pode efetivamente reduzir o risco de mortalidade especificamente na população diagnosticada com hiperlipidemia. Por isso, Ye et al., (2026) realizaram um estudo para avaliar essa associação.

O estudo de coorte retrospectivo foi baseado em dados de uma amostra nacionalmente representativa da população adulta dos Estados Unidos, provenientes do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) entre os ciclos de 1999 e 2018. A amostra final consistiu em 13.180 participantes com hiperlipidemia, todos com idade superior a 18 anos e que completaram pelo menos um recordatório alimentar de 24 horas válido. O diagnóstico da doença foi estabelecido conforme os critérios do National Cholesterol Education Program (2001), que incluíram: colesterol total (TC) ≥ 200 mg/dL, triglicerídeos (TG) ≥ 150 mg/dL, LDL-C ≥ 130 mg/dL ou HDL-C ≤ 50 mg/dL para mulheres e ≤ 40 mg/dL para homens. Para uma análise mais profunda, os pacientes foram estratificados em quatro subgrupos específicos baseados em cada um desses componentes lipídicos alterados.

A coleta de informações dietéticas foi realizada por meio de entrevistas de recordatório alimentar de 24 horas, com o cálculo dos nutrientes efetuado através do banco de dados de estudos dietéticos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A ingestão diária de fibras foi analisada tanto como uma variável contínua quanto categórica, sendo os participantes divididos em tercis de consumo: o primeiro compreendendo ingestão ≤ 11,4 g/dia; o segundo entre 11,41 e 18,15 g/dia; e o terceiro acima de 18,15 g/dia.

Os desfechos primários avaliados foram a mortalidade por todas as causas e a mortalidade por DCV, esta última definida por óbitos decorrentes de doenças cardíacas ou cerebrovasculares, rastreados via National Death Index até dezembro de 2019 com base nos códigos da CID-10. A análise estatística utilizou modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox ponderados para calcular a razão de risco (Hazard Ratio - HR) com intervalos de confiança de 95%. Para mitigar vieses, os modelos foram ajustados para múltiplas covariáveis, como idade, sexo, raça, uso de estatinas, IMC, comorbidades (hipertensão, diabetes, malignidade), tabagismo, consumo de álcool e ingestão calórica total.

Os resultados deste estudo, obtidos após um seguimento mediano de 8,25 anos envolvendo 13.180 participantes, revelaram uma associação inversa e significativa entre o consumo de fibras e o risco de óbito. Durante o período de acompanhamento, foram registrados 1.734 óbitos, dos quais 512 foram decorrentes de DCVs. A análise multivariável demonstrou que, para cada incremento de 10 g/dia na ingestão de fibras alimentares, houve uma redução de 20,9% no risco de mortalidade por todas as causas (HR 0,791; IC 95% 0,704–0,890) e de 23,2% no risco de mortalidade cardiovascular (HR 0,768; IC 95% 0,609–0,968). Ao estratificar os participantes por tercis de consumo, aqueles situados no tercil superior (ingestão > 18,15 g/dia) apresentaram um risco 30,6% menor de mortalidade geral e 39,3% menor de mortalidade por DCV em comparação ao grupo de menor consumo (≤ 11,4 g/dia).

A análise de subgrupos confirmou a consistência desses achados para a mortalidade por todas as causas em diferentes perfis de dislipidemia, incluindo pacientes com hipercolesterolemia isolada (TC ≥ 200 mg/dL), hipertrigliceridemia (TG ≥ 150 mg/dL), LDL-C elevado (≥ 130 mg/dL) e HDL-C baixo. No que tange à mortalidade cardiovascular especificamente nos subgrupos, as associações não atingiram significância estatística individual, o que os autores atribuem ao número limitado de eventos em cada categoria diagnóstica, sugerindo a necessidade de períodos de seguimento ainda mais longos.

Dados estratificados adicionais destacaram que os efeitos benéficos das fibras foram mais pronunciados em pacientes com menos de 60 anos e naqueles que apresentavam hipertensão arterial sistêmica como comorbidade concomitante. No grupo hipertenso, por exemplo, o consumo elevado de fibras foi mais fortemente associado à redução de ambos os tipos de mortalidade, o que pode ser parcialmente explicado pelo papel conhecido desse nutriente no controle pressórico. Por fim, a robustez desses achados foi ratificada por análises de sensibilidade, que mantiveram a consistência dos resultados mesmo após a exclusão de óbitos precoces (nos primeiros 2 e 5 anos) ou de participantes gestantes.

Em conclusão, Ye et al., (2026) demonstraram que uma elevada ingestão diária de fibra alimentar foi significativamente associada a uma redução no risco de mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares em adultos com hiperlipidemia. Os benefícios foram observados de forma consistente em diversos subgrupos, sendo particularmente pronunciados em pacientes com menos de 60 anos e naqueles com hipertensão arterial sistêmica associada. Diante dessas evidências, os autores ressaltaram que profissionais de saúde devem enfatizar a importância do aumento do consumo de fibras como um componente essencial da terapia dietética no manejo clínico de pacientes hiperlipidêmicos, visando melhorar o prognóstico a longo prazo e reduzir o ônus das doenças cardiovasculares nessa população.