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Publicado el 29 de marzo de 2026

Poluição do ar e alergia

O impacto da poluição do ar na conjuntivite e rinite alérgica

Entenda como poluentes atmosféricos aumentam o risco e a gravidade da conjuntivite e rinite alérgica, segundo as evidências científicas.

Autor/a: Julianna Veltri

Introdução

A poluição do ar constitui um desafio global crítico para a saúde pública, estando diretamente associada ao aumento das taxas de morbidade e mortalidade em diversas condições patológicas. As fontes primárias desses poluentes são diversas, abrangendo desde emissões industriais e poluição decorrente do tráfego veicular até a combustão de biomassa em contextos domésticos, somando-se a poluentes internos provenientes de substâncias químicas e do tabagismo. Entre os principais agentes identificados, destacam-se o material particulado (PM), o pólen e os gases de efeito estufa.

Evidências robustas correlacionam a exposição a esses poluentes ao agravamento de condições como a dermatite atópica, rinite alérgica, conjuntivite alérgica, alergias alimentares e asma brônquica. O aumento na prevalência dessas doenças tem sido sistematicamente atribuído aos processos de urbanização, industrialização e ao crescimento econômico global. Do ponto de vista fisiopatológico, os poluentes promovem danos significativos através da disfunção da barreira epitelial, disbiose e desregulação imunológica. Além disso, fatores como as mudanças climáticas e o aquecimento global potencializam esses efeitos, influenciando a sazonalidade e a potência de alérgenos como o pólen. Por fim, alterações como a metilação do DNA induzida por poluentes atmosféricos foram ligadas à patogênese das doenças alérgicas e foram transmitidas transgeracionalmente, elevando o risco para as gerações subsequentes. Diante desse cenário complexo, a equipe da IntraMed Brasil fez uma revisão sobre quais principais poluentes contribuem para conjuntivite e rinite alérgica.

Conjuntivite alérgica

A conjuntivite alérgica (CA) é uma das patologias mais prevalentes da superfície ocular e figura entre as causas mais comuns de consultas oftalmológicas, manifestando-se por meio de sintomas como prurido, hiperemia, lacrimejamento e fotofobia. Esta condição integra o espectro das doenças conjuntivais alérgicas, que engloba desde apresentações leves e recorrentes, como a conjuntivite alérgica sazonal e a perene, até formas graves e potencialmente ameaçadoras à visão, como a ceratoconjuntivite vernal e a atópica, as quais podem evoluir com complicações como ceratocone, catarata ou descolamento de retina. Dados epidemiológicos indicaram um aumento global na prevalência da CA, atingindo até 40% da população nos Estados Unidos e quase 50% na Europa, embora a doença permaneça frequentemente subdiagnosticada e subtratada.

 Do ponto de vista fisiopatológico, a doença é mediada por reações de hipersensibilidade do tipo I (IgE-dependente), nas quais mastócitos e eosinófilos liberam histamina e citocinas que sustentam a inflamação ocular. Os poluentes ambientais potencializam esses mecanismos ao romper a barreira epitelial, prolongar a retenção de alérgenos e amplificar a ativação imunológica.

Em uma revisão sistemática, Martinez-Perez e Oliveira (2026) coletaram dados de mais de três milhões de consultas de diversos continentes e confirmaram a robusta associação entre exposições ambientais e CA. As evidências demonstram que poluentes atmosféricos como o material particulado (PM2.5 e PM10), dióxido de nitrogênio (NO2), ozônio (O3), dióxido de enxofre (SO2) e monóxido de carbono (CO) foram consistentemente correlacionados ao aumento da incidência e da gravidade dos sintomas oculares.

Ademais, eles observaram que esses poluentes e o pólen frequentemente atuaram de maneira sinérgica, onde a poluição amplifica a resposta alérgica, especialmente durante as estações mais quentes ou em climas áridos. Além disso, estudos de séries temporais indicaram que mesmo aumentos modestos nas concentrações de O3 podem elevar em cerca de 8% as visitas ambulatoriais por CA.

A análise revelou perfis de vulnerabilidade distintos, com crianças e idosos apresentando maior suscetibilidade aos efeitos deletérios dos poluentes. Diferenças biológicas e sociais também influenciaram os desfechos, com variações de sensibilidade entre os sexos e maior risco em populações com comorbidades atópicas, como asma e eczema.

No contexto clínico, os inquéritos populacionais destacaram uma carga de doença elevada, com prevalência chegando a 40% em algumas regiões, contrastando com uma lacuna diagnóstica preocupante: em um grande estudo europeu, apenas 35% dos pacientes foram submetidos a testes de alergia, evidenciando um manejo clínico muitas vezes baseado em terapias inespecíficas e no subuso de diretrizes diagnósticas.

No plano fisiopatológico, os modelos experimentais e clínicos identificaram mecanismos moleculares específicos que explicam como o ambiente agride a superfície ocular. Exposições ao material particulado provocam a disrupção da barreira epitelial conjuntival e ativam vias inflamatórias críticas, como a sinalização do NF-κB e da linfopoietina estromal tímica (TSLP). Além disso, foram identificados biomarcadores de atividade da doença, como a eotaxina-1, que desempenha um papel central no recrutamento de eosinófilos. Estudos translacionais também apontaram para a polarização de macrófagos para o fenótipo M1 e alterações em RNAs não codificadores longos (lncRNAs) como mediadores da inflamação persistente induzida por poluentes e alérgenos, abrindo caminho para a identificação de novos alvos terapêuticos no manejo da alergia ocular.

Na china, Liu e colaboradores (2024) investigaram a relação entre poluição atmosférica e a incidência de CA entre 2013 e 2020. Eles identificaram que o aumento nos níveis de PM10 e NO2 foram diretamente associados ao crescimento das consultas ambulatoriais. Além disso, destacaram que mulheres, bebês e idosos foram os grupos mais vulneráveis aos poluentes, com impactos mais severos registrados durante as estações quentes.

Rinite alérgica

A rinite alérgica (RA) é definida como uma patologia inflamatória do trato respiratório superior mediada por imunoglobulina E (IgE), sendo clinicamente caracterizada por sintomas como prurido nasal, congestão e espirros. É uma das condições mais prevalentes no mundo, apresentando um crescimento contínuo em sua incidência. Além do comprometimento da qualidade de vida, a RA está associada ao desenvolvimento de diversas comorbidades, incluindo asma brônquica, rinossinusite, polipose nasal, otite média e conjuntivite alérgica.

A etiologia das doenças alérgicas é multifatorial, envolvendo uma interação complexa entre predisposição genética e fatores ambientais. Nesse contexto, Li e colaboradores (2022) realizaram uma revisão sistemática que avaliou o impacto de seis poluentes (PM2,5, PM10, NO2, SO2, O3 e CO) na RA. O estudo sintetizou dados de 35 estudos conduzidos em 12 país, com 453.470 participantes, dos quais 270.929 eram crianças ou adolescentes e 182.541 eram adultos.

Os resultados evidenciaram uma associação positiva e estatisticamente significativa entre a exposição a poluentes atmosféricos e o aumento do risco de RA. Para cada incremento de 10 μg/m³ na concentração de material particulado, observou-se uma razão de risco (RR) de 1,12 para PM2,5  e de 1,13 para PM10. No que se refere aos poluentes gasosos, os riscos também foram significativos, com um RR de 1,13 para NO2, 1,13 para SO2 e 1,07 para O3. Por outro lado, a exposição ao CO não apresentou associação estatisticamente relevante com a prevalência da doença.

As análises de subgrupo indicaram que crianças e adolescentes foram mais sensíveis aos efeitos da poluição do que a população adulta. Além disso, variáveis geográficas e socioeconômicas atuaram como importantes modificadores de efeito: de forma geral, com exceção do PM10, os efeitos dos poluentes foram mais acentuados e elevados em países em desenvolvimento quando comparados aos países desenvolvidos, observando-se uma diferença significativa no teste de subgrupo especificamente para o NO2 entre esses dois níveis econômicos.

Embora tenha sido identificada uma heterogeneidade moderada a alta na maioria das análises, a meta-regressão sugeriu que a área geográfica, o nível econômico e o tamanho da amostra explicam parte dessa variabilidade para poluentes como PM10, NO2 e SO2.

Wang e colaboradores (2020) investigaram a relação entre a exposição de PM2.5 e aumento das consultas médicas por RA em Pequim, na China. Foram analisados dados de 230 mil pacientes, revelando que níveis elevados de poluição foram diretamente ligados a um crescimento imediato nos atendimentos ambulatoriais. A análise apontou que idosos foram mais vulneráveis a esses efeitos e que a associação foi mais forte durante a primavera e o verão. Embora os mecanismos biológicos exatos ainda sejam debatidos, os resultados sugeriram que a má qualidade do ar agravou significativamente as doenças respiratórias alérgicas em contextos urbanos densos.

Na américa latina, Filho e colaboradores (2021) analisaram a relação entre RA e poluição do ar em uma revisão sistemática. No estudo, foram incluídos 32.873 participantes, sendo a grande maioria composta por crianças e adolescentes, com apenas 4,94% adultos de 22 estudos, com sua maioria sendo realizado no Brasil. Os poluentes atmosféricos mais frequentemente associados à RA foram o material particulado PM10, seguido pela combinação de NO2 e O3 e o PM2.5.

A análise estatística demonstrou que a RR de um indivíduo exposto a poluentes apresentar RA foi de 1,43. Sendo assim, uma pessoa exposta à poluição tem uma probabilidade 43% maior de desenvolver a condição em comparação com uma não exposta. Ao analisar isoladamente a população pediátrica, a RR para crianças e adolescentes foi de 1,359 de apresentar sintomas de rinite alérgica sob exposição.

Por fim, na Arábia Saudita, AlHarthi (2026) investigou como fatores climáticos e poluentes atmosféricos influenciam a ocorrência de CA e RA por meio da análise de dados do Google Trends. Os resultados revelaram que ambas as condições possuem um padrão sazonal nítido, atingindo picos principalmente durante o outono e a primavera. A pesquisa destacou que a CA apresentou uma resposta imediata ao aumento de partículas e substâncias químicas no ar, como o PM2.5, PM10 e a NH3. Em contrapartida, o interesse de busca por RA pareceu ser guiado majoritariamente pela ciclicidade das estações, sem uma reação tão direta a picos isolados de poluição.

Conclusão

Em suma, a poluição atmosférica exerce um papel significativo tanto na CA quanto da RA. Poluentes, como o material particulado, dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, ozônio e amônia, demonstram impactar diretamente a integridade das mucosas ocular e nasal, favorecendo mecanismos de inflamação, desregulação imunológica e maior sensibilização a alérgenos ambientais.

Os estudos reforçaram que esse impacto ocorre de maneira mais pronunciada em grupos vulneráveis, incluindo crianças, adolescentes, idosos e indivíduos com histórico atópico. Além disso, evidenciaram que, em países em desenvolvimento e em ambientes urbanos densamente povoados, os riscos são ainda maiores, refletindo desigualdades socioambientais que amplificam a carga dessas doenças.

Nesse cenário, compreender a relação entre poluição ambiental e doenças alérgicas emerge como prioridade em saúde pública. A integração de políticas ambientais mais rigorosas, vigilância epidemiológica ativa e práticas clínicas baseadas em evidências é fundamental para reduzir o impacto dessas condições.