O câncer do colo do útero, desenvolvido a partir da infecção persistente pelo papilomavírus humano de alto risco (hr-HPV), é uma das principais causas de morbidade e mortalidade entre mulheres, com estimativa anual para 2023–2025 de 17.000 novos casos e 6.000 mortes. A prevenção envolve tanto a vacinação quanto o rastreamento de lesões precursoras. Em muitos países, os testes moleculares para hr‑HPV já são adotados como padrão, enquanto no Brasil a citologia ainda é o método predominante.
A prevalência global de HPV entre mulheres sem alterações citológicas é de 11,7%, com grandes variações regionais. A distribuição por idade costuma apresentar um pico na juventude, queda na meia-idade e possível segundo pico após os 50 anos.
No país, dados sobre o vírus em mulheres acima de 25 anos ainda são limitados. Para melhorar esse cenário, foi implantado em 2017 o programa PREVENTIVO em Indaiatuba (SP), oferecendo rastreamento organizado com testes de DNA de hr-HPV para mulheres de 25–64 anos, com mais de 20 mil mulheres testadas na primeira rodada.
Diante disso, o estudo de Rego e colaboradores (2026) buscou descrever a prevalência de hr-HPV por faixa etária e a ocorrência de lesões de alto grau ou câncer em mulheres majoritariamente não vacinadas atendidas pelo programa, estabelecendo dados de referência para avaliar futuramente o impacto da vacinação no país.
O estudo analisou o primeiro ciclo (2017–2022) do PREVENTIVO e seguiu um protocolo padronizado, onde mulheres positivas para HPV16 ou HPV18 foram encaminhadas diretamente para colposcopia, enquanto aquelas positivas apenas para os demais tipos oncogênicos realizaram citologia reflexa. Citologia alterada leva à colposcopia, e citologia normal requer repetição do teste em 12 meses.
Diagnósticos histológicos foram confirmados com o marcador imunohistoquímico p16 e classificados pelo sistema Lower Anogenital Squamous Terminology (LAST).
Para a pesquisa, os autores utilizaram um banco de dados anonimizado do programa que incluía resultados de testes de hr-HPV, diagnósticos histopatológicos de HSIL (neoplasia intraepitelial cervical [NIC] graus 2 ou 3, e adenocarcinoma in situ), carcinoma cervical e idade, agrupada em intervalos de dois a cinco anos.
No total, 20.398 mulheres entre 25 e 64 anos foram rastreadas, alcançando 78% de cobertura da população‑alvo. A prevalência geral de hr‑HPV foi de 12,8%, totalizando 2.603 mulheres, e a taxa geral de NIC2 ou pior entre mulheres hr‑HPV positivas foi de 12,4% (n=324), incluindo 154 casos de NIC2, 141 de NIC3 e 29 casos de câncer cervical invasivo.
A prevalência diminuiu com a idade, com pico aos 25–26 anos e um segundo pico menor por volta dos 55–59 anos. Da mesma forma, as prevalências de NIC2 e NIC3 também apresentaram queda progressiva com a progressão etária.
Em relação aos genótipos do vírus, o HPV16 foi detectado em 2,63%, HPV18 em 1,01% e o grupo dos 12 outros tipos oncogênicos em 10,72%, todos com tendência de redução conforme a idade aumentava.
Ainda entre as mulheres hr‑HPV positivas, a taxa de NIC2 ou pior variou entre 11% e 16,7% até os 49 anos, caindo para 7,7% entre 50-54 anos. A análise em grupos etários de três anos revelou ainda um pequeno segundo pico de NIC2 e NIC3 aos 61 anos (8,2%), o que complementou o padrão de infecção observado.
Os casos de câncer aumentaram a partir dos 35 anos, atingiram pico aos 45–46 e não foram detectados após os 55 anos. Apesar disso, evidências brasileiras e internacionais mostraram que uma parcela relevante dos cânceres ocorre após os 65 anos, especialmente entre aquelas com histórico de rastreamento insuficiente, levando à discussão sobre estender o rastreamento ou incluir um “teste de saída” com hr HPV após a idade padrão.
Em resumo, o estudo de Rego e colaboradores (2026) descreveu padrões etários de hr‑HPV e lesões cervicais em uma população adulta não vacinada dentro de um programa organizado de rastreamento no Brasil, evidenciando um padrão bimodal de infecção e um pico tardio de lesões. Os dados encontrados fortaleceram as evidências para políticas públicas durante a transição do país para o rastreamento primário com hr‑HPV e forneceram valores de referência importantes para avaliar o impacto futuro da vacinação.