A COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2, tem diversas manifestações cutâneas associadas. Diferentes estudos documentaram lesões semelhantes ao eritema pérnio (pérnio-like), máculas ou pápulas eritematosas, urticária, lesões morbiliformes, variceliformes, papuloescamosas, erupções petequiais, livedo reticular, lesões purpúricas e acroisquêmicas e púrpura retiforme. No entanto, o momento das erupções no curso da doença e as potenciais associações entre subtipos morfológicos com diferentes síndromes e/ou resultados associados à COVID-19 permanecem obscuros.
O reconhecimento desses sinais representa uma oportunidade para melhorar o diagnóstico e o manejo da COVID-19. Por isso, Freeman e colaboradores (2020) realizaram um estudo para caracterizar manifestações cutâneas representativas do SARS-CoV-2 e identificar as que possam fornecer informações sobre a fisiopatologia e o curso da doença viral.
Para isso, em colaboração com a American Academy of Dermatology (AAD) e International League of Dermatologic Societies (ILDS), os autores analisaram e registraram casos de manifestações cutâneas da COVID-19. Coletou-se o tipo de diagnóstico do vírus (suspeito versus confirmado laboratorialmente), dados demográficos, comorbidades, detalhes da condição dermatológica, momento dos sintomas, resultados de biópsia de pele, sintomas e resultados da COVID-19, incluindo hospitalização, necessidade de oxigênio e ventilador e mortes.
O registro coletou 716 casos de sintomas dermatológicos de início recente em pacientes com confirmação/suspeita da COVID-19. Dos 171 pacientes no registro com SARS-CoV-2 confirmado laboratorialmente, as morfologias mais comuns foram morbiliforme (22%), pérnio-like (18%), urticariforme (16%), eritema macular (13%), vesicular (11 %), papuloescamosa (9,9%) e púrpura retiforme (6,4%).
Os sintomas cutâneos e os locais do corpo afetados variaram de acordo com a morfologia. Por exemplo, as morfologias morbiliformes eram frequentemente pruriginosas e envolviam o tronco, enquanto as pérnio-like frequentemente causavam dor/queimação e envolviam os pés/mãos. A face esteve envolvida em 21% das erupções cutâneas morbiliformes. A púrpura retiforme estava nas extremidades e nas nádegas. O curso completo de erupções cutâneas confirmadas laboratorialmente durou em média 7 dias (3-10), no entanto, as lesões pérnio-like tiveram curso mais longo, com mediana de 14 dias (8-24).
As lesões geralmente ocorreram após (64%) os outros sintomas da COVID-19, principalmente nas morfologias: morbiliforme (76%), pérnio-like (48%), urticariforme (67%), eritema macular (57%), vesicular (72%), papuloescamosa (53%) e púrpura retiforme (91%).
A hospitalização variou: 16% dos pacientes com perniose foram hospitalizados, em comparação com 35% para todas as outras manifestações dermatológicas. Pacientes com púrpura retiforme tenderam a serem hospitalizados e 82% apresentaram síndrome do desconforto respiratório agudo. Dos 60 pacientes hospitalizados com SARS-CoV-2 confirmado laboratorialmente, 24 necessitaram de ventilação mecânica invasiva e/ou oxigenação por membrana extracorpórea e 17 necessitaram de oxigênio suplementar. A complicação mais comum foi a síndrome do desconforto respiratório agudo em 23 pacientes.
Sendo assim, o estudo destacou a grande variedade de manifestações cutâneas da COVID-19 relatadas simultaneamente ou após o diagnóstico do vírus. As morfologias mais comuns foram púrpura morbiliforme, pérnio-like, urticariforme, macular eritematosa, vesicular, papuloescamosa e retiforme. Muitas destas ocorreram com diferentes infecções virais e, portanto, puderam não fornecer informações específicas sobre a fisiopatologia ou os alvos do tratamento. No entanto, outras podem sugerir potenciais vias imunológicas ou inflamatórias envolvidas na patogênese do SARS-CoV-2.